Brasil

O causo do cambista Zé Pretinho, que virou milionário

Redação DM

Publicado em 14 de agosto de 2016 às 03:39 | Atualizado há 10 anos

Ninguém avalia o que representou a aposentadoria do Funrural no interior deste Brasil. No meu último perambular pelo sertão tocantinense nas férias, espantei-me ao ver aquele povinho humilde, que vivia esmo¬lambado e de pés esparrados no chão, subitamente transmudado: roupas novas, pitando cigarro de fumo lavado e uma compostura de quem en¬contra a esquiva e inatingível sorte.

Indaguei a um dos circunstantes da roda de amigos, ao ver passar um daqueles pobres transformados em remediados na vida:

– O velho Dió anda enfronhado numa gasimira que só se vendo!  Que é que houve?

– Cê não viu nada! – responderam-me – Os velhos daqui andam pe¬lintras, pare-cendo até gente!

E explicaram-me que após o benefício da aposentadoria do Funru¬ral, que o governo concedia aos lavradores de mais de 65 anos, a vida do ser¬tanejo tomou novas feições: quem é que andava mais de a pé ou mesmo no lombo de animal? Agora anda é de carro, pois até uma linha de ônibus foi inaugurada para, todo fim de mês, descer ao sertão e buscar os apo¬sentados para receberem os proventos, abençoado presente do governo àquele sofrido povo. E o ônibus, de início vazio, amiudou as viagens, pois com o dinheiro na mão a precisão aparece, e o tabaréu passa a partilhar o movimento citadino, trazendo novidades e até aprendendo o palavreado da rua para repetir na beira do fogo no ranchinho de sapé socado numa bi¬boca qualquer do sertão.

No dia do recebimento da aposentadoria, via-se cidade coalhada de gente do mato. Para mim, era uma festa poder rever e abraçar aquele po¬vinho dispersado pelos confundós do sertão, gente que eu vira na minha meninice: vi gente dos Canela, o ve¬lho Dió; vi Sancha, vi Elisiário; vi muita gente trafegando na rua contando dinheiro, bebendo, cachaça, comprando mantimentos, pitando o forte e melento fumo da Larga. Era sempre dia de festa o “dia do Funrural”.

Para o sertanejo, que vira o dia inteiro no rabo da enxada e da foice a troco de um litro de arroz e quilo e meio de carne com osso, o valor do di¬nheiro é praticamente desconhecido: ele só sabe que ele serve para com¬prar, mas não tem noção do tanto que se gasta. Chico Farinha Seca, por exemplo, deixava seu dinheiro com um conhecido para controlá-lo, e não era raro ele chegar e pedir:

– Patrão me dá aí um dinheiro mode eu comprá fumo.

– Quanto, Chico?

– Me dá aí… uns cinco mil. É só pro fumim de pitá – Chico nem ti¬nha noção de valor.

E assim, quase todos padeciam da ignorância que leva aproveitado¬res a vender-lhes bugigangas diversas, coisas desnecessárias, por falta de uma campanha de esclare¬cimento, que o próprio Funrural deveria promo¬ver junto a seus aposentados, no sen¬tido de desenvolver o hábito da pou¬pança. Vi gente que, para ir receber o dinheiro, levava a mulher, filhos e netos, “mode cunhecê a rua”, gastando quase todo o precioso rendimento só na passagem; outros já saíam do banco acompanhados de um interes¬seiro para levá-lo diretamente ao primeiro boteco, onde patrocinavam mo¬vimentada farra… às custas do pobre aposentado, que se sentia impor¬tante com a ilusória adula¬ção.

Mas, apesar do despreparo do sertanejo, o Funrural botava muita gente para endireitar a rabeca e fazer seu pezinho-de-meia.

O desconhecimento do valor da moeda, entretanto, não é privilégio dos meus ingênuos sertanejos. Nos idos de 62, em Belo Horizonte, havia um cambista que ven-dia a sorte na Av. Afonso Pena, esquina de rua Ca¬etés. Como não lhe sabiam o nome, chamavam-no de Zé Pretinho, mercê de ser preto e pobre (e todo pobre leva um “Zé” logo de cara).

Um dia, numa destas extrações gordas da federal (Natal ou S. João, nem me lembro), um bilhete inteiro encalhou nas mãos de Zé Pretinho que, em súpli¬cas, debalde tentou vender o bilhete, não conseguindo vender nem mesmo um gasparino, que era o nome da fração. Ficou desesperado, e a angústia de perder o magro lucro no encalhe daquele bilhete caro explodiu em alegria, quando a extração apontou o desprezado bilhete na cabeça: primeiro prê¬mio!

Ofereceram a Zé Pretinho bons negócios, parcerias e imóveis, mas ele fez ou-vidos moucos. E sumiu, sem dar a mínima ligança, com sua di¬nhei¬rama.

Um mês depois, ele voltava a vender a sorte na mesma esquina: es¬tourara o dinheiro com farras e mulheres, acabando por arranjar uma bailarina loura, que lá na Argentina, acabara por tomar-lhe o resto da fortuna. Zé Pretinho chegou a Belo Hori-zonte de carona em cima de um caminhão de carga. E quando lhe indagavam sobre sua falta de juízo, ele enchia o peito e desabafava:

– E… mas vivi um mês como rei. Tou satisfeito!

Belo consolo! Não é só o sertanejo que dá suas cabeçadas por não saber o que é di¬nheiro.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina deLetras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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