Brasil

O ciclo vicioso: menor oferta de emprego e menores salários = menor consumo

Redação DM

Publicado em 6 de julho de 2016 às 02:58 | Atualizado há 10 anos

Avalio como importantes e até mesmo imprescindíveis as pesquisas de opinião pública em todos os níveis, principalmente nas áreas: econômica e política. Assim como a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a Federação do Comércio do Estado de Goiás (Fecomércio) realiza várias pesquisas no sentido de proporcionar ao empresário uma visão clara do que está ocorrendo com a economia e, especialmente, com o consumidor, que é naturalmente a sobrevivência para o comerciante, em determinado período.

A propósito, a intenção de consumo das famílias brasileiras teve mais uma queda neste mês de junho e chegou a um novo patamar mínimo histórico, de 68,7 pontos, em uma escala de 0 a 200. Os dados foram divulgados nesta segunda quinzena pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e apontam uma queda de 1,7% na comparação com maio, e de 25,1% em relação a junho do ano passado.

Segundo a CNC, o resultado de junho é o primeiro em que todos os componentes da pesquisa se encontram abaixo de 100 pontos, o que indica insatisfação. A assessora econômica da CNC, Juliana Serapio, disse que o aumento do desemprego, o alto nível de endividamento e o encarecimento do crédito continuam derrubando o indicador, mesmo com a diminuição da inflação.

A intenção de compra a prazo teve a maior queda quando analisada a comparação junho/maio, chegando a um declínio de 4%. Em relação a 2015, a perda chega a 30,2%. As quedas do Nível de Consumo Atual foram de 2,7% e de 38,1% nas mesmas bases de comparação, e  66,8% das famílias pesquisadas declararam que estão consumindo menos do que no ano passado.

O indicador Momento para Duráveis, que reflete a avaliação sobre a possibilidade de adquirir bens, como automóveis, registra o menor patamar da pesquisa, de 42 pontos. Em relação a junho do ano passado, o indicador caiu 35,8%, e, diante de maio deste ano, a retração foi de 2,1%. Segundo a pesquisa, cerca de três quartos das famílias brasileiras (76%) consideram que o momento atual é desfavorável para comprar esse tipo de bens.

As perspectivas de consumo também tiveram queda de 1,5% em relação a maio e de 34,8% comparadas a junho do ano passado.

A parte da pesquisa que avalia o Emprego Atual caiu para menos de 100 pontos pela primeira vez nos dados divulgados, com 99,4 pontos. Houve queda de 0,8% em relação a maio e de 13,7% na comparação com junho do ano passado.

Pouco mais de um quarto das famílias brasileiras (28,3%) se sente mais seguro no emprego atual. As perspectivas para o mercado de trabalho também pioraram, com queda de 0,1% na comparação mensal e de 13,6% com relação a junho do ano passado.

A CNC divulgou, ainda, que mantém sua previsão de que o varejo restrito terá retração de 4,8% em 2016, já que há perspectiva de que a inflação evolua de forma mais favorável. Por outro lado, a CNC piorou a projeção para o varejo ampliado, aumentando a previsão de queda de – 8,8% para 9,4%. O varejo restrito exclui as vendas de materiais de construção e de automóveis.

Apesar disso, a pesquisa de junho mostra que os componentes ligados às perspectivas tiveram recuos mais baixos, o que significa que as expectativas para os próximos meses devem melhorar.

Para enfrentar esses desafios é preciso conter o gasto corrente do governo e colocar a economia em um ciclo virtuoso, que nada mais é que o funcionamento “inverso” do ciclo vicioso, iniciado por uma redução do gasto público.

O crescimento real do gasto do governo é o principal e básico desequilíbrio da economia brasileira. Não adianta interferir em outro ponto do processo (reduzir juros na marra, tributar investimento estrangeiro em bolsa, criar barreiras legais ao crédito, criar barreiras a importações, subsidiar exportações, etc.), pois os efeitos serão temporários ou nulos, e gerarão custos de ineficiência.

O controle do gasto (que não precisa ser corte, mas apenas um crescimento mais lento, abaixo do crescimento do PIB), viabilizaria: aumento do investimento público, redução da carga tributária e redução dos juros reais de equilíbrio. Isso elevaria a taxa de investimento da economia, elevando o PIB potencial e, portanto, a oferta agregada futura. Por isso, haveria, nos próximos anos, mais espaço para crescimento sem inflação, conduzindo a uma taxa de juros de equilíbrio menor.

 

(Eduardo Genner de Sousa Amorim, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio no Estado de Goiás (Seceg) e da Federação dos Trabalhadores no Comércio nos Estados de Goiás e Tocantins (Fetracom/GO/TO) e diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio – CNTC)

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