Brasil

O desventurado irmão do demônio

Redação DM

Publicado em 5 de fevereiro de 2016 às 00:16 | Atualizado há 10 anos

O fato merece ser comentado apenas para efeito de estudo.

Em Anápolis – foi o que me contaram – o pastor pregava o Evangelho aos fiéis que lotavam o pequeno templo, quando entrou ali um pobre enfermo em companhia de alguns familiares; o infeliz estava agitado e denotando completa transfiguração; falava de assuntos que os parentes não entendiam.

– Senhor pastor – disse a mãe do rapaz – ele insistiu em vir aqui, pois pretendia falar-lhe…

– Deus o trouxe aqui, senhora. Explicou o pregador.

– Eu não pertenço a esta religião – disse a mulher – sou católica e o meu filho também o é. Mas ele quis vir e eu não podia contrariá-lo.

– Fez bem, minha senhora. Aqui todos serão salvos pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Explicou o pastor evangélico, a fitar o rapaz que também o mirava, de olhos esgazeados, a falar-lhe em tom conselheiro, como se estivesse a dar-lhe lições evangélicas, o que não agradou de forma alguma ao pastor, uma vez que certas palavras do enfermo lhe queimavam a consciência e lhe feriam o amor próprio.

– Cale-se, em nome do santo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo! Pedia o líder religioso, no que não era atendido pelo moço. O reverendo então abriu a bíblia e, depois de ler um trecho, teceu algumas considerações, passando em seguida a rezar; não conseguindo, entretanto, abrandar os ânimos do infeliz; e o ministro se fez mais enérgico:

– Afaste-se desse rapaz, Demônio! E deu com a bíblia na cabeça do enfermo, tentando, à força, arredar em nome de Jesus, o que ele acreditava ser o “diabo”; e não gostando de ser tratado daquela forma, o espírito que dominava as faculdades psicofônicas do moço ficou encolerizado, levantou-se e, olhando fixamente o pastor, falou-lhe incisivo:

– Não diga tolices, ô Jorge! Não percebe, acaso, que sou Rubens, o seu irmão? Veja se me escuta um pouco, em nome desse amor a Jesus, que você tanto prega!

Foi aí que o pastor, muito espantado, ficou em silêncio, de lábios e mãos trêmulos de cólera, escutando o suposto “Lúcifer”:

– Você herdou a aminha tarefa, substituindo-me nesta Igreja, mas nunca se lembrou de rezar por mim, supondo que eu estivesse no céu, pensando que eu tivesse ganhado a nossa propalada “salvação”; em verdade, porém, nunca encontrei o “paraíso” e nunca experimentei a felicidade; acreditando numa salvação sem esforço, acho que nós, aqui, perdemos o endereço do céu. E quero lhe dizer que apenas crer no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, para sermos salvos, não basta. É preciso renovar-se interiormente e praticar, em atos de Caridade incessante, o Amor verdadeiro que o Mestre nos dedica e devemos, também, dedicar a Ele. Só poderemos acreditar numa salvação se vivermos o que Jesus ensinou. Apenas falar do seu sangue e acreditar numa salvação ociosa, não vale, não vale nada, pois “toda fé, sem obras – você sabe mano – é morta”. É só. Reza por mim. Adeus.

– Demônio! Caia fora daqui! Gritava colérico, ofendido e desequilibrado o pregador que, armado de uma vassoura, passou a expulsar o homem do recinto, enquanto ouvia, ainda, o espírito a lhe dizer, pela boca do moço: – Está bem… Sou o demônio! Mas, também, sou seu irmão…

O grande Paulo de Tarso disse: – Estuda tudo e retém o melhor…

 

(Iron Junqueira, escritor)

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