O Honorão e Chico Me-Dá
Redação DM
Publicado em 12 de agosto de 2015 às 22:12 | Atualizado há 11 anosMorando na Santa Maria, Honório Cardoso parecia um nobre: negro, alto, andar espigado, gestos finos, mãos calosas e muito respeito no tratar os outros, Honorão tinha a pose de escravo liberto.
Muito se conta sobre Honorão: ora, verdade; ora, invenção do povo. Verdade, por exemplo, foi o episódio em que, vendo a cana esturricada pela seca braba e, malgrado as penitências na cruz-das-almas, a chuva refugava, seu irmão caçula, Lolô, deliberou por conta e risco próprios, ir até à rua e furtar dos braços de São José o Menino-Deus, dizendo que só o devolveria quando o padroeiro mandasse chuva.
Honorão ficou terrificado – beato que era – quando soube da ação revel do seu irmão benjamin, imaginando um castigo de cima, mas acalmou-se quando Lolô disse ser apenas um memento para o santo carpinteiro lembrar-se da precisão do povo: com tantos pedidos no mundo inteiro, o padroeiro podia atrapalhar-se, mandando sol aos que pediam chuva e esta aos que pediam sol. Assim, ficava bem consinado: chuva pra quem tinha goderado o Menino-Deus.
No mesmo dia, Honorão organizou uma procissão de desagravo ao santo, para ir devolver-lhe o sagrado pimpolho de olhos de conta. E ao retomarem da rua sob o sol causticante a cozinhar o juízo, já desceram os morros da Santa Maria debaixo do maior pé-d’água, e não houve mais perca de cana e mantimentos por falta de chuva, dali em vante.
A postura de Honorão era elegante, lembrando um patriarca de tribo, entonado sempre num paletó de brim e com a camisa de algodão cru abotoada até o gogó. Suas decisões era seguras, só tomadas após demorados estudos sobre a viabilidade de qualquer providência: levou meses e meses a estudar se punha no seu sítio o nome Nova Vida ou Vida Nova, e acabou botando um deles – nem sei qual – que, de resto, não pegou. Permaneceu o tradicional e imutável Sovaco da Ema.
Embora muito cortês e fino, Honorão era cheio de sestros: só bebia água de cabaça ou de moringa, pois dizia que água de pote, de tanto entrar copo e sair copo, era sobejo dos outros.
Seus hábitos eram sagrados, e nada no mundo o fazia modificar um costume, por mais estapafúrdio que fosse. Dono de uma lavoura de cana, fabricando rapadura, açúcar-da-terra e pinga, sempre acudia os que iam atrás de doce pra temperar o café e a garapa dos meninos. Entretanto, tinha por hábito dar mel de engenho só aos sába-dos. Durante a semana, podia-se comer rapadura, beber garapa, experimentar uma gostosa “puxa”, mas mel, não: só no sábado. Chegasse quem chegasse atrás de mel, Honorão jamais abriu precedente. Não havia razão plausível para tal atitude, mas era seu costume. E este era sagrado. O mais amigo dos amigos voltava de lá sem mel, a não ser no sábado.
Lá pelos anos quarenta, ocorre que lhe chega ao engenho um tal Chico Me-Dá, morador nas Bicas, perto da fazenda de meu pai. Chico Me-Dá era tido e havido por botador de feitiço e por isso era temido pelos que o conheciam. Ninguém ousava contrariá-lo. E Chico chega justamente pedindo um pouco de mel num dia de semana.
Honorão, confirmando sua natureza de inflexível, quebrou pau no ouvido e não deu o mel. E Chico saiu dali visivelmente contrariado.
De madrugada, foram acender a fornalha, mas esta não havia jeito de pegar. Botaram querosene em cima dos bagaços de cana secos, dos gravetos, trouxeram uma tocha e deitaram em cima. Levantava aquele rolo de fumaça, mas fogo, nada! Acabou foi Honorão resignando-se em perder a garapa toda, que azedou.
– Isto tá cum jeito de feitiço! – alguém palpitou no caso.
Ouvindo um e outro e convencendo-se de que aquilo era coisa botada, Honorão mandou um positivo buscar Joaquim Paraguaio, curador de fama, meio-índio-meio-gente, morador no município de Conceição do Norte, exímio mandraqueiro e des-manchador de coisa ruim.
Paraguaio veio. Chegou, benzeu a fornalha e disse a Honorão:
– Óia, mano – ele tratava todo mundo de “mano” – tá disamarrada a fornaia.
Todo mundo ficou curioso em saber o autor daquele malfeito. E Paraguaio, que não declinava nomes, mas dava indícios, sentenciou:
– Você vai sabê quem foi qui fez o malfeito, pois por castigo ele vai caí no fogo e riscou um palito, jogando na fornalha, que crepitou num fogaréu danado.
Dias depois, Chico Me-Dá estava dormindo numa cama de varas, e ao rolar durante o sono, caiu justamente no fogo aceso da sala onde dormia.
Vocês já imaginaram uma coisa dessas!?
(Liberato Póvoa, [email protected] (desembargador aposentado do TJ-TO, escritor, jurista, historiador e advogado)