O inconfundível amor nacional
Redação DM
Publicado em 15 de abril de 2016 às 02:28 | Atualizado há 10 anosCom uma camisa da seleção brasileira e uma bandeira do Brasil a tiracolo dá pra fazer muita coisa; dá, por exemplo, para se passar por “amante do Brasil”, protetor da pátria e defensor do seu futuro; mesmo que milhões de pobres e miseráveis não entrem nessa conta; mesmo que o latifúndio siga avançando e eliminando gente pobre, arrasando com sistemas ambientais e chacinando comunidades indígenas; mas, confesso, me impressiona o que uma camisa da seleção brasileira e uma bandeira brasileira são capazes de fazer!
Nem importa se corruptos de toda sorte sigam esse exato figurino; se toda a ampla bancada de deputados do boi, da bala e da bíblia onde ódio, violência e alienação se combinam, geram síntese e militância contra os pobres do país seja verde-amarela; é preciso pensar a respeito; aliás, se não sabem, os piores e mais odientos crimes contra o Brasil foram feitos exatamente em nome desse mesmo país; por amor, causa e devoção.
É verdade! Por amor a esse país, cinco milhões de índios foram exterminados; dez milhões de negros foram, tal qual talos de cana que são moídos em um engenho, moídos no trabalho intenso, no chicote e na favela; pelo amor verde-amarelo todas as terras nacionais foram tomadas do povo e entregues ao baronato brasileiro ou para corporações internacionais dando forma a um país de favelados e de amontoados urbanos de difícil descrição.
Por amor, por puro amor… Nossa periclitante democracia vem sendo golpeada deste que essa república surgiu; Getúlio Vargas provou deste irresistível amor nacional; Kubitschek também fora cingido com fortes doses desse amor intenso e perpetrado pelas elites; João Goulart, cercado, sitiado e ameaçado por esse amor, sequer terminou seu mandato presidencial de eleição democrática e de alta aprovação popular; depois o amor, entre tanques, fuzis e baionetas, nos governou por vinte e um anos onde a tortura, o assassinato e o desaparecimento eram políticas públicas realizadas da primeira a hora última do dia; em seguida, vivemos por quase trinta anos em profunda recessão, desemprego e abandono público…
Por amor, tudo isso por amor. Agora e, de novo, por amor, muito amor nacional, amor das elites, essa força que avassala com todo o país, querem, uma vez mais golpear o país e apear do poder uma presidente eleita pela preferência nacional, pelo voto popular e pelo império político da maioria. Por amor, tudo por amor.
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) campus Itumbiara)