O irmão que não tive
Redação DM
Publicado em 14 de julho de 2016 às 02:33 | Atualizado há 10 anosJá vão para 17 anos que faleceu o meu primo Waldemar, o irmão que não tive. As nossas tralhas de pescaria, canoa e motor, eram adquiridas à meia, assim como os nossos passeios de férias com as famílias, quase sempre em Guarapari. Criou, com a esposa, Noêmia, com muito zelo e rigor familiar, cinco filhos: o Giovanni, o Valdo Sérgio, o Cesar, a Lorena e a Eliane.
Gostava de usar o aumentativo e o diminuitivo: quando pagava era com um “checão”; para o Cesar ir ao colégio, comprou-lhe uma Lambreta, a “lambretinha do Cezinha”, como ele o chamava, hoje o Dr. Cesar Bariani. Depois, para a Universidade, uma Brasília, a “brasilinha do Cezinha”…
Quando faleceu publiquei uma crônica dizendo que “Waldemar já não está mais entre nós. Agora com quem é que eu vou apostar para ver quem pegar o maior peixe no Araguaia? Como é que vão ficar os sábados sem as ‘novíssimas’ piadas, que ele me passava após o almoço no Clube da Feijoada, onde era o piadista oficial? Waldemar, o bom cidadão, o bom marido, o bom pai, o bom irmão, o bom amigo.
Ficam vazios os espaços onde ele se virava, gesticulando, mostrando como foram as suas jogadas de defensor do Atlético e da Seleção Goiana de Futebol, inclusive os históricos quatro dribles-de-corpo, seguidos, que dera no estreante e fenomenal Célio Bizzoto, contra o Goiânia, e que ficaram na memória dos goianienses da época. E os nossos papos relembrando coisas passadas, sempre boas, como a fuga das nossas famílias na Revolução de 32 em Igarapava, para a fazenda Ressaca, onde nos refugiamos fugindo dos ‘mineiros’. Os nossos pais preocupados, apreensivos, e nós ‘numa boa’, nos esbaldando pelos pastos, correndo atrás dos animais, sustentando, com estilingues e anzóis, as panelas da cozinha com rolinhas e peixes do ribeirão; o chão esbranquiçado das paineiras (barrigudas), nós catando paina para as mães fazerem travesseiros; comendo melado no engenho com cavacos de aroeira lavrada à guisa de colher… Subíamos no morro de frente à colônia e de lá de cima ficávamos vigilantes, estilingues municiados, prontos para repelirmos os invasores ‘mineiros’, que por ventura chegassem por ali.
As nossas viagens de férias com as famílias em Guarapari, eu com seis filhos e ele com cinco, um time de futebol certinho, com peladas entre goianos e mineiros e capixabas. As suas queimadas homéricas pelo sol inclemente da praia e os seus vários e iminentes salvamentos de afogamento pelo entusiasmo dos primeiros dias, metendo braçadas pelo mar adentro…
Verdadeiro pioneiro no bom sentido da palavra, pois aqui chegou com 13 anos nos idos de 1938, um ano e pouco após a mudança oficial da capital (23 de março de 1937). A luta dos primeiros tempos, sem conforto, amassando barro e enfrentando poeira, derrubando árvores e serrando toras, desdobrando madeira para as primeiras construções da nova capital, mas sempre no maior entusiasmo. Rapaz de visão comercial, achava que deveriam, não somente serrar, mas também revenderem madeira manufatura do Paraná. Porém, não conseguiu convencer o meu avô, dono da serraria. As árvores eram derrubadas e divididas em três toras, o caminhão, dirigido pelo nosso tio Ório Dante, indo ao local para transportá-las. A cada árvore derrubada, uma estrada a abrir. Não havia guinchos, era nas levas, nas pancas, nas alavancas e no chicão. Retiradas as toras ficavam as galhadas enormes, apodrecendo ou sendo consumidas pelo fogo das queimadas, o que motivou o jovem Waldemar a contratar machadeiros e transformar o subproduto em lenha, fornecendo as padarias que iam surgindo e as olarias e cerâmicas que fabricavam, freneticamente, tijolos e telhas atendendo à super demanda das construções.
Homem do petróleo, montou o Posto Brasil e o Posto Anhanguera, que se tornaram tradição em fornecimento de combustíveis. Um grande abalo na vida foi quando pegou fogo no Posto Brasil, na Avenida Amazonas (Anhanguera), em Campinas.
Com a chegada da terceira idade o primo não foi feliz com a saúde, passando por várias doenças físicas, proporcionando-lhe nove cirurgias. E esta última, a nova sinfonia da sua vida, o câncer traiçoeiro, escondido atrás do fígado, o levou.
Batalhou a vida toda, com todas as armas possíveis, para a formação profissional dos filhos, tendo dois médicos, uma advogada-musicista, uma Miss-empresária e um vigoroso rapaz, sangue forte, que o acompanhou, sempre ao seu lado, por todos os anos da sua vida, em quaisquer circunstancias.
Waldemar foi o irmão que eu não tive e vivemos como Cosme e Damião. Os nossos pais, o meu e o dele, também sempre trabalharam juntos. O seu nome, quando nasceu, dois anos depois de mim, foi por influência do meu, que diziam significar, em alemão, tanto Waldomiro como Waldemar, Cavaleiro do Rei.
Estive no velório e no sepultamento, mas não olhei para o primo no seu eterno decúbito dorsal, pois desejava mantê-lo vivo nas minhas lembranças, com os olhos abertos. Desejava manter a sua imagem sempre sorridente, de compadre pra cá e compadre pra lá, falando, gesticulando como um bom descendente italiano.
Ótimo mecânico, os nossos carros velhos nas pescarias não nos deixavam na estrada. Certa vez indo para a Ilha do Bananal, numa Caravan, que parava à porta de todas as oficinas da estrada e ninguém dava conta de encontrar o defeito, até que o Waldemar chegou e, em dois tempos, arrancou e colocou os cabos da distribuição nos seus devidos lugares e mandou dar partida: o carro deve estar andando até hoje.
Estudou no Dom Bosco, cuja madeira da construção do colégio ele ajudou a serrar. Casado com moça prendada da Campininha das Flores, Noêmia, foi sua companheira inseparável em tudo, ao que desse e viesse, na saúde e na doença (como recomenda o Padre no altar). Casamento nota 10!
Nós mantivemos sempre a tradição de nos visitar, pelos nossos aniversários, sendo o dele a 15 de julho e o meu a 24 do mesmo mês, eu levando-lhe um bom uísque e ele me devolvendo na próxima semana (apenas trocava o papel da embalagem), para que o tomássemos juntos. Só que neste ano não deu. Como ele estava acamado, enfermo, levei-lhe uma camisa que não vestiu.
Quando Waldemar baixou aos sete palmos do jazigo, no Santana, pedi à multidão que o acompanhou uma salva de palmas para uma gloriosa despedida ao bom esposo, ao bom pai, ao bom irmão, ao bom amigo, ao defensor da camisa preta-vermelha atleticana e o incentivador entusiasta desde os primeiros anos de Goiânia, o pioneiro Waldemar Bariani que nos deixava”.
Macktub!
NB – Este mês de julho tem muita coisa para comemorar: dia 4, Dia de Graças dos Estados Unidos (aniversário); 5, Batismo Cultural de Goiânia; 6, 111 anos de Palmeiras de Goiás; 15, aniversário do primo Waldemar; 24, o meu; 25, do Bazar Paulistinha…
(Bariani Ortencio, [email protected])