O lendário velho Severiano, o “escravo do Divino”
Redação DM
Publicado em 13 de julho de 2016 às 01:54 | Atualizado há 10 anosDe há muito eu tinha uma cegueira danada mode conhecer o velho Severiano, de quem o sertão inteiro dizia maravilhas por conta de seus propalados extraordinários poderes: cura de feitiço, “fechamento” de corpo, consertame de vida dos outros, o que atraía gente de tudo quanto era canto, atrás da mezinha pras reimas do corpo e pras amarrações de vida.
Há coisa de mais se quarenta anos, quando morava em Belo Horizonte, vim ao ser¬tão disposto a localizá-lo e conhecê-lo, mesmo porque queria fazer-lhe uma apurada consulta, que ninguém está escapo de qualquer inhaca botada no lombo.
Durante a Festa do Divino, em Conceição do Tocantins, soube que o velho Severiano estava por lá e me encasquetei pra agarrar a oportunidade, indo bater lá, onde botei um camarada pra campeá-lo, pois queria conhecê-lo, a custo do que fosse preciso.
Não demorou muito, apareceu-me na casa de João Cardoso, onde me aboletara pra festa, um senhor muito simpático, preto retinto, chapéu de couro ensebado, voz grave e pausada, pala¬vras medidas, e o meu encarregado de busca logo falou:
– Taí o velho Severiano.
Alegrei-me e cuidei de fazer amizade, o que me facilitou o ele ser compadre de meu irmão Nélio, o que me deixou assim como que com o burro à sombra, colocando o lendário velho inteiramente à vontade:
– Vim de longe, meu tio, mais de duzentas léguas, pra conhecer sua ciência.
Ele, apesar de acostumado a receber gente de tudo quanto era oco de mundo, sentiu-se satisfeito, e batemos longo papo, quando fiquei sabendo que estava na época aprochegando os oitentanos e que desde os quinze – sem modéstia nenhuma – operava verdadeiros milagres, sendo respeitadíssimo curador, quiçá o último remanescente de uma nação de gente que deitou fama nesse particular. Mas dizia, de boca cheia, que não era milagreiro, que era apenas um “escravo do Divino”.
Como era já noite, marcamos para o dia seguinte o exame que ele, de muito bom grado, se dispôs a fazer-me, pois, com a festa do Divino, o entra-e-sai de gente atrapalhava. Fui levá-lo no seu pouso, aproveitando os derradeiros retalhos de con-versa pelo caminho.
No dia seguinte, ele veio, nem esperando que eu fosse lá: viera pagar o trato; e me recanteou num quarto, meio no lusco-fusco, examinou minhas unhas, encalcou as veias do braço, mediu-me da cabeça aos pés com um barbante de algodão já ensebado que desen¬rolou da capanga de couro e sentenciou:
– Nesta sexta-feira que vem, vossemecê tem de ir lá no rancho do velho, mode eu benzê. Vá de dormida. Não deixe de ir, t’ouvino?
E deu o itinerário: depois da fazenda Brejo (que era do pai de Ayrton Senna), passar pela estrada tal, quebrar à direita, levando pela frente o morro Testa Branca etc. Resultado: era coisa de onze léguas, para eu poder chegar ao seu rancho, nas margens do violento ltaboca, que se agiganta e esbraveja nas cheias.
Na véspera da viagem, sobreveio-me uma violenta e inexplicável febre, pare¬cendo até que era para me tirar da do trato com o velho Severiano.
Mas fui, e à boquinha da noite, era a vez de eu pagar o trato. Ele já me aguar-dava; sua casuca de palha já abrigava um bando de hóspedes, que nas vésperas das sextas-feiras ali chegam em busca de seus poderes, atraídos pela fama do velho Severi¬ano.
Aboletamo-nos – meus companheiros e eu – e jantamos um cirigado, carne de peba e um cafezinho de rapadura pra rebater o tempero, e logo cedo nos deitamos nas redes armadas na sala aberta, onde escutamos histórias interessantíssimas ocorridas com ele, curas miraculosas que ele se atribuía, desmanchação de feitiço e coisas que, segundo ele, estavam passando o quinau nos cientistas.
Pela manhã, no nascer do sol, ele nos acordou e fez as benzeções, os “fecha-mentos” de corpo e outras rezas, conforme a necessidade de cada paciente, e depois mandou preparar umas garrafadas, com raízes e precedidas de um estranho ritual de dizer um patoá desconhecido, enquanto aguardava que os frascos, expostos ao sol do terreiro, abrissem fervura.
Nessa solenidade toda, só foi nos despachar depois do almoço, e eu carreguei aquelas mixilangas, que tomei um bando de tempo em Belo Horizonte, seguindo as rígidas prescrições e uma dieta que só faltou foi me matar de fome. Não sei nem dizer se fiquei bom, pois, afinal, nem sabia de que mal padecia. Dizendo o velho Severiano, eu precisava de seus remédios, o que é possível, pois, com a trabalheira toda que deu, com a raizama arrancada, o mel de tiúba empregado e uma série de ingredientes, era para ele ter pelo menos cobrado o trabalho; e tendo sido de graça (como, aliás, ele fazia com todo mundo), tenho a impressão de que algum valor tem.
De vez em quando topava o velho Severiano Barbosa lá ou no sertão, ele me cobrando outra ida lá, “pra mode fortalecer o fechamento de corpo”, e eu, quebrando o pau no ouvido, ia mornando. Mas como o velho curador morreu sem quebrar a pauta e minguar seus poderes, e eu não pude reencontrá-lo para um novo ritual de “fechamento” de corpo, deve haver alguém que lhe tenha tomado o lugar, como sempre ocorre no sertão.
E agora, passado quase meio século do encontro com o velho, quero crer que de fato ele me “fechou o corpo”, pois de 2010 pra cá, devido a minha independência no combate aos políticos sem pejo, passei por maus momentos, quando o STJ e o CNJ culiaram-se para me aposentar na marra e não conseguiram, “premiando-me” com dezessete processos de diversas espécies no STJ e vinte e cinco no CNJ, que, à míngua de fundamentos, restaram arquivados, pois não foram o bastante para dar vencimento à proteção do velho Severiano.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected] )