O MAC que Goiás merece
Redação DM
Publicado em 8 de abril de 2016 às 03:19 | Atualizado há 10 anosPermanece aberta a primeira exposição do ano do Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC), composta por uma centena de obras que pode ser vista até o próximo dia 24 de abril.
É uma mostra das mais importantes já realizadas pelo Museu, não só pelo que ela tem de relevância histórica (são dois núcleos retrospectivos), mas também pelo que apresenta de sintomático das persistentes deficiências deste que é o principal museu do Estado.
Tal dicotomia (importância social/descaso público) é um fato que só faz dobrar o valor da visita, pois com ela surge a oportunidade de, ao agradável de percorrer suas obras, aliar o útil de provocar reflexões que finalmente dêem ao MAC todo vigor que ele inspira e seu público merece.
Ao lado de importantes obras da história visual local, no núcleo “Experiências, Memórias e Identidades”, na Galeria Cleber Gouvêa, e de outras de de não menos importância no núcleo “Cenas da Arte Brasileira”, na Galeria DJ Oliveira; a exposição, na razão direta de sua montagem rigorosa, da expografia correta e da curadoria exemplar, ainda assim deixa transparecer as lacunas do acervo, a excassez de funcionários e a falta de uma política de condução deste equipamento cultural que, nada nada, é um dos principais museus do país, ao menos arquitetonicamente falando. Pois o que ocorre é que a ocupação de seu interior não tem a mesma imponência que marca seu exterior.
Os atuais eventos em suas dependências são anunciados como duas exposições simultâneas, tratadas de forma independente, mas que na verdade se apresentam como núcleos de uma mesma leitura, já que o visitante, devido a ausência de portas e divisões explícitas, percorre as duas galerias de forma quase compulsoria. Não há notícia de alguém que, em visitando um núcleo, deixou de ver o outro.
E as deficiêcias, onde estão? É a elas que vamos no ater nesta primeira abordagem. Vão desde as limitações de sua reserva técnica, não compatível com a grandeza do Museu, até a falta de um perfil definido para seu acervo, passando, é claro, pela falta de autonomia de investimento e pela evidente falta de quadro pessoal, o que faz de seus atuais funcionários, verdadeiros heróis no panteão do cerrado, se desdobrarem até mais não poder.
Sobre o quadro pessoal, antes do treinamento adequado podemos falar da insuficiência numérica, porque fica claro logo aos primeiros passos que os poucos (e competentes funcionários daquela casa) atuam de forma interdisciplinar, fazendo de tudo um pouco, mas obviamente não conseguem fazer milagres.
Podemos falar, também, da ausência de incentivos que possam fazer justiça ao atual e atrair novos quadros, bem como da condução administrativa historicamente deficitária, pois algo considerado um verdadeiro milagre para a atual situação, seria, por exemplo, a implantação de um plano de carreira que amparasse os que lá estão já há vários anos se dedicando integralmente a um projeto de Museu. Vejam bem, assim ainda é o MAC: nada mais que um projeto de Museu, categoricamente falando.
Todavia, quem entra e vê as presentes exposições montadas, iluminadas, identificadas (com opção QRCode) e divulgadas em folders respectivos, não imagina o que há de carência por detrás destas imagens plácidas.
Estruturalmente falando, parece que já se tornou inútil constatar os inúmeros problemas e o melhor seria pular este tópico (quem dera fosse possível), porque o complexo que é o CCON, o MAC incluso, sofre de desajustes físicos desde sua inauguração. A boa notícia é que entre uma infiltração e um vazamento, entre o excesso de insolação e goteiras aqui e ali (problemas estes visualmente contornados), aos poucos a estrutura geral se compõem de forma a causar menos embaraços. Em que pese o dever de uma atenção constante, e muita improvisação.
Da política de uma condução diretiva estável e esclarecida, que se pede, há de se reparar que o Museu, mesmo passando por diversas vertentes conceituais em sua história de três décadas, ele nunca teve uma orientação clara do que é ou do que deseja ser. É certo que, pelo visto e entrevisto, pretende-se chegar lá. E talvez este seja um papel para seu Conselho fortalecido desempenhar.
Hoje o MAC pode contar com importantes ferramentas, tais como um curador experiente, uma diretora com vontade de apresentar resultados, pois veio de uma área literalmente exógena, e um Conselho plural. Mas falta-lhe apresentar o resultado dessa boa mistura e aproveitar para cristalizar o objetivo de sua existência –ou ao menos ter a consciência explícita de sua falta. E este certamente será dos maiores, quando encontrado.
Convenhamos que é muito difícil ser um dos pontos referentes do Brasil em acervo de arte contemporânea, sobretudo para quem vive em uma época de ventanias entre as certezas conceituais e suas fronteiras, mas é muito possível de, se for apontado um foco à arte do Brasil Central, neste nicho o Museu se tornar uma referência mundial.
Seu acervo, com exceção da aquisição já não tão recente de uma Ana Maria Pacheco, foi todo ele constituído ao ‘se me dão’, seja por meio de doações particulares (aquelas que embora sempre bem intencionadas são por vezes de gosto por demais eclético), seja por meio de prêmios aquisições dos salões da Caixego e do Flamboyant, e das duas edições da Bienal de Arte do Estado. São obras escolhidas por júris passageiros e alheios ao Museu, muitos sem conhecimento da cena local, e estas são posteriormente incorporadas à lista de presentes ao seu acervo.
(Vale o parênteses para registrar que estes, mesmo se revelando eventos basilares e necessários, foram extintos e nada surgiu em seus lugares. É evidente que falta ao Governo estadual uma mínima atenção às artes visuais, que não somente os editais da Lei Goyazes e do Fundo Cultural, a exemplo do cinema, da música e do teatro que têm festivais anuais e estáveis já incorporados ao calendário cultural).
Em termos de prioridades internas, o que faz falta para o MAC aprumar seu perfil é mesmo uma política de aquisição (que o Museu nunca teve, repita-se) orientada de forma a construir seu perfil e a fazer dele um ponto de referência e de relevância sejá lá ao que se dedicar. O caminho mais natural desta possível relevância só virá ao cabo de uma política bem instituída que necessariamente transcenda as equipes diretivas que vão e vem.
Dos equipamentos que o compõem, nada a destacar. Mesmo podendo contar com quatro decentes espaços expositivos em um mesmo CEP (Galeria DJ Oliveira, Galeria Cleber Gouvêa, Salão Principal e Mezanino), os problemas de manutenção são muitos e por vezes chegam a alterar a programação, quando não, inviabilizá-las.
A reserva técnica, equipamento esperado e saudado como um ajuste de contas com a modernizacão do Museu em seu novo endereço, é insuficiente em tamanho e, ainda assim, instalada em local inadequado, com acesso prejudicado por estar fora do conjunto museológico.
E já adentrando em mais um dos problemas que apontamos neste artigo ligeiro, o pior não ter uma reserva técnica que não suporta a ampliação do seu acervo, vez que existe um outro problema, considerado mais grave porque mais humano, que é o do inchaço desta com obras não consideradas à altura ou não de acordo com suas definições de atuação.
Estas obras precisam ser descartadas de uma forma ou de outra, para dar lugar àquelas dentro do foco do Museu, e aí entra um outro problema, este transversal a todo o governo, que é a burocracia excessiva. Para haver o descarte de bens tombados, seja transferindo de local ou doando, é preciso seguir um longo processo, e dá uma preguiça que falta ao menos começar. Aqui entra novamente o problema da falta de quadros, criando um círculo que se retro-alimenta e não chega ao fim.
Ainda sobre o perfil do MAC, podemos constatar por meio desta atual mostra que nos destaques de seu acervo tem nomes como Antônio Poteiro, DJ Olveira, Confaloni, Tai, Amaury Menezes, Omar Souto, Octo Marques, Valdelino, Roos, Nonatto Coelho e Juca de Lima, além dos próprios Siron, Pitágoras, Selma Pareira, Cleber Gouvêa, Paulo Humberto e Fernando Costa Filho, todos estes artistas, bem como suas obras, remetendo a um museu mais voltado à arte contemporânea como marco cronológico e não como uma tendência artística.
De fato, o MAC foi, é e será contemporâneo destes artistas que, mesmo sem ser rigorosamente contemporâneos em suas linguagens, são modernos de primeira grandeza, interagem com a dinâmica do seu entorno social e lá estão, brilhando em seu acervo. O que nos daria uma possível lição: a de que, com competência, o MAC pode fazer de suas vulnerabilidades seu ponto forte, e com isso achar sempre a melhor saída.
O que aconteceu com o artista Marcelo Solá é símbolo de um passado sem glórias, goiana e museologicamente falando. Sua obra, que o MAC recebeu por meio da premiação obtida pelo artista na 2ª Bienal de Arte do Estado (portanto, uma obra capital, tendo em vista sua ascensão posterior), não foi preservada sob mínimos cuidados meliantes. Deteriorou-se por completo. E, por fim, sumiu do acervo, na certa pela atitude caridosa de alguma boa alma penada, que vendo a obra em situação irrecuperável decidiu dar-lhe um fim misericordioso. Como resultado abriu-se uma enorme lacuna no acervo do Museu, que até hoje não tem uma obra deste que é o grande ícone da arte contemporânea feita em Goiás.
Para encerrar sem terminar, o MAC tem neste ano de 2016 um calendário diversifidado de exposições. Todas elas com o apoio de atividades pedagógicas desenvolvidas por um setor recém dinamizado. Outro ponto que vem se destacando é a sua presença nas redes sociais. São detalhes que contribuiem para a construção de um local de grande simbolismo para toda a cultura goiana e que, para além de acenar aos conterrâneos, deve urgentemente começar a ganhar espaço (e relevância) global.
Por tudo isto que falamos e por tudo que se deixou de falar aqui, a exposição em cartaz torna-se extremamente simbólica da arte e da sua gestão feita em Goiás que, ao fim e ao cabo, é uma mistura de tudo sem ser nada. Um círculo retornando ao mesmo ponto, mas com fundo musical vibrante, diga-se. E nem é preciso acrescentar que toda responsabilidade vem parar no colo da atual secretária que é de educação, cultura e esporte, ufa, e visivelmente parece se afogar em demandas, o que nos deixa sem expectativas de avanços.
(Px Silveira, do Instituto ArteCidadania)