Brasil

O menino-homem

Redação DM

Publicado em 1 de fevereiro de 2016 às 22:36 | Atualizado há 10 anos

Brás é um menino de 12 anos e muito inteligente, embora nunca tivesse ido à escola; apareceu um dia à presença do dr. Lico, advogado generoso e altamente dedicado aos desfavorecidos da sorte, e lhe pediu emprego dizendo que precisava trabalhar para “criar” sua mãe e quatro irmãozinhos menores.

O bondoso homem de cabelos grisalhos e fala mansa, fez logo a psicologia do garoto e se interessou por ele com o carinho de um pai; deu-lhe tarefas na sua bela mansão e foi se tornando cada vez mais amigo do menino; matriculou-o na escola, medicou-o e, através dele, auxiliava sua mãe e seus irmãozinhos, pois o pequeno Brás fazia por onde merecer os favores do filantropo doutor; com as suas maneiras e responsabilidades próprias de adulto (aliás, nem todo adulto é um homem de verdade), o pirralho de tal forma granjeou a simpatia do patrão que acabou por receber deste o convite para morar em sua rica vivenda, mas o garoto recusou justificando que “não podia deixar sua mãe e seus irmãos sem a presença de um homem em casa, pois se algum deles – que Deus os livre disso! – ficasse doente, ele precisaria estar ali para tomar as devidas providencias”. O dr. Lico só teve que concordar.

Em casa, o menino expõe para a mãe o caridoso convite que recebera do doutor, e sua genitora, lamentando a recusa do filho, perguntou-lhe:

– Meu filho, aqui em casa sua caminha é estragada, dura, e o colchão muito velho; não há pão de manhã, nem leite nem nada; por que você recusou o conforto para vir pousar aqui?

– Para dormir com a senhora e as crianças, mamãe.

E pensar, amigos, que há chefes de famílias que abandonam esposas e filhos numa casinha de aluguel e desaparecem no mundo, indiferentes se sua mulher e seus filhos estão doentes, famintos, necessitados ou não, para viverem egoisticamente sem o peso da responsabilidade perante a família, que representa um estorvo para a sua libertinagem, para o seu desregramento e para seu comodismo vergonhoso…

“Há crianças que não passam de adultos, e adultos que não passam de crianças”, (atribuído a Rui Barbosa).

 

(Iron Junqueira, escritor)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia