Brasil

O mestre Andorinha de Pádua

Redação DM

Publicado em 9 de agosto de 2016 às 02:58 | Atualizado há 1 ano

Enquanto muitos brasileiros procuram a Itália em busca de especialização e aperfeiçoamento em diversas áreas de conhecimento acadêmico, muitos italianos procuram o Brasil em busca de conhecimento da cultura popular e particularmente para o aprendizado da luta de capoeira que ganhou espaço nos palcos internacionais como um dos mais exóticos fatos folclóricos brasileiros.

Um dos agentes da capoeira na região do Vêneto, mais precisamente em Pádua, é o Mestre Andorinha (Giovanni Patron) na modalidade de Capoeira Regional, vinculada à Escola Bimba meu Mestre de Goiânia (Goiás, Brasil) sob coordenação do Mestre Deputado, já conhecido como um dos embaixadores da capoeira brasileira. Mestre Andorinha é filiado à Federação de Capoeira em Goiás, como mestre 1° grau e como árbitro nível A, até a data desta entrevista.

 

Formação como capoeirista

Giovanni Patron resume em um breve currículo os principais pontos que contribuíram para a sua educação e formação em capoeira. Nascido a 7-11-1978, em Mirano, perto de Veneza, desde 1985 começou a praticar natação em nível competitivo até 1991, depois passou a tênis de mesa até 1993, em seguida dedicou-se a atletismo até 1995. Laureou-se em 1994, em engenharia civil pela Universidade de Pádua. Atualmente exerce a profissão como associado do ateliê Studio Tecnico Associato VLP, que fundou com dois colegas em 2008. Seus primeiros passos na capoeira se deram no Brasil (junho de 1995 a janeiro de 1996), ligado ao Grupo Candeias, em Rio Verde, Goiás. Patron resume, em primeira pessoa:

“Em junho de 1995 eu comecei uma experiência destinada a mudar minha vida. Pela Associação Intercultural (AFS Itália) participei de um programa no exterior com duração de seis meses. O país escolhido foi o Brasil. O programa incluiu a minha inserção no mesmo contexto de vida de um menino de 17 anos, mas em um país estrangeiro. Fui então inserido em uma família maravilhosa composta de Cárita, Flacilio e três filhos, Gustavo, Ludmila e Rodrigo (meus novos irmãos), na cidade de Rio Verde-GO. Foi exatamente Rodrigo, o mais novo dos três, que me levou para o meu primeiro treino de capoeira realizado pelo professor Papagaio do Grupo Candeias, dirigido por seu fundador Mestre Suino. Aí fui batizado com o apelido de Italiano. O primeiro grande evento de que participei foi o encontro anual da Associação Brasileira dos Professores de Capoeira (ABPC), realizado em Goiânia, onde conheci muitos mestres e participei por cinco dias de treinamento intensivo. Fiquei profundamente impressionado com a atmosfera e a energia das rodas de capoeira.”

 

Atividades na Itália

De 1996 a 1999 dirigiu a Associação de Capoeiristas de Mirano, organizando cursos, eventos e demonstrações públicas de capoeira. De 1999 a 2006, assumiu a vice-presidência do Centro de Capoeira São Salomão na Itália, criado em Recife (Brasil) pelo Mestre Mago Ricardo Dias. De 2006 em diante, preside a Associação de Capoeira Roça do Lobo, filiada ao Comitê Olímpico Nacional Italiano (Coni) e à Associação Italiana Cultura e Desporto (Aics), com atuação em Pádua e Turim.

A Associação de Capoeira Roça do Lobo tem como objetivo o estudo e divulgação da Capoeira Regional como arte marcial e disciplina cultural com suas respectivas manifestações. Oferece cursos de capoeira para adultos e crianças, ensina toques de berimbau e práticas de danças típicas associadas à capoeira, tais como Maculelê e Puxada de rede dos pescadores da Bahia. Além disso, a Associação oferece curso de português como língua oficial da capoeira.

 

Pioneiro da capoeira no Vêneto

Depois de seu estágio no Brasil, em 1996, Andorinha voltou para a Itália com alma nova e profundamente mudado na sua maneira de ver o mundo. Apresentou-se em família como um mago que houvesse aprendido a magia da capoeira e se tornaria um pioneiro na arte de atrair e encantar as pessoas ao som do berimbau.

A capoeira que nasceu no Brasil nos espaços fechados das senzalas (abrigos de escravos), agora renascia na Itália nos espaços abertos das ruas e nos parques públicos, até que encontrasse um abrigo definitivo cedido pela administração municipal para o exercício de suas atividades.

Na associação de capoeira fundada  por Andorinha, seu primeiro parceiro foi o brasileiro Zequinha, originário de Olinda, cidade turística de Pernambuco (Brasil), que se havia estabelecido em Pádua. Juntos fizeram muitas apresentações e divulgaram a capoeira aos quatro cantos, até quando Andorinha se estabeleceu como professor na modalidade de Capoeira Regional, enquanto Zequinha passou a ensinar Capoeira Angola.

Segundo Andorinha, surgiu o Grupo São Salomão em Pádua que se estendeu às cidades circunvizinhas, sob coordenação de Mestre Cobra que contou também com seu apoio, principalmente no período compreendido de 1999 a 2006. Daí em diante Andorinha se estabeleceu como instrutor independente, fundando, juntamente com seu irmão Niccolò Patron e alguns amigos capoeiristas, a Associação de Capoeira Roça do Lobo.

As primeiras atividades de sua associação tiveram participação do Mestre Nenel, um dos herdeiros de Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional. A partir de 2008, a Roça do Lobo tem contado com a colaboração de Mestre Deputado, um dos últimos discípulos de Mestre Bimba estabelecido em Goiânia, capital de Goiás (Brasil), que por vezes se faz presente nos eventos de capoeira promovidos na Itália.

A filosofia educacional

A arte da capoeira e principalmente a disciplina da Capoeira Regional, tem implícita uma forte componente educativa que permite as pessoas que a praticam – sejam jovens ou adultos – abraçar alguns princípios fundamentais no confronto com seu adversário: compartilhar o prazer da prática esportiva (a capoeira é um jogo), respeitar a integridade física do seu parceiro de luta (durante o jogo os golpes não devem ser levados a cabo com violência), colaborar com a roda (o circulo de pessoas dentro do qual se desenvolve o jogo) cantando e tocando juntos com os demais participantes.

Essas peculiaridades fizeram com que desde o início a capoeira fosse utilizada – primeiramente no Brasil, mas também nos últimos decênios no resto do mundo – como instrumento educativo e pedagógico utilizado nas academias bem como nas escolas em complemento aos programas escolares tradicionais, levando em conta não só melhorar a capacidade física de quem a pratica, mas também ajudar na concentração mental, na coordenação psicomotora e na capacidade de relacionamento com o próximo.

Enfim – conclui Andorinha –, a capoeira prevalece também como uma arte marcial, cujos golpes aprendidos através do jogo constituem uma importante bagagem técnica aplicável em situações de perigo, em casos de agressões, sempre com controle da situação. Em Pádua, a academia Roça do Lobo tem desenvolvido projetos experimentais na modalidade da Capoeira Regional, junto a escolas e entidades diversas, tanto como atividade complementar de educação física tradicional quanto como programa educativo de jovens com problemas de inserção social.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa.E-mail: [email protected])

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