Brasil

O mundo arquivou os políticos

Redação DM

Publicado em 12 de novembro de 2016 às 01:38 | Atualizado há 10 anos

A carência de ideias, a decadência dos sistemas de governo, o envelhecimento das práticas fizeram com que as populações cansassem dos políticos.

Os sinais desse tipo de deterioração não aparecem da noite para o dia. O fenômeno Donald Trump é apenas uma das consequências, embora a mais gritante.

Nos anos 1970, como professor de História, eu e os meus colegas de salas de aula, já alertávamos para essa corrosão que caminhava (e caminha) no corpo social como a ferrugem ou o cupim. Quando se vai atacar o mau, ele já alastrou.

Eu mesmo aproveitei do descrédito político e da cabal desmoralização do governo, desde a minha primeira eleição. À época, o descontentamento com o regime militar era quase unanime. Nesse vazio eu entrei. Só que nós que combatíamos a ditadura cumprimos o que prometemos. Devolvemos a democracia e as suas instituições ao povo.

Também é no estado de podridão que o solo fica fértil para o oportunista. Aliás, perigosíssimo momento. Trump trabalhou a insatisfação de grande parte de pessoas de menor índice de escolaridade que se sentem ameaçadas de perderem seus empregos ou até a sua própria pátria para os estrangeiros nela já residentes ou os possíveis chegantes; além dos espaços ocupados por aqueles que produzem as delícias na globalização. Mas a única novidade em tudo isso é que o populismo ressurge de pele branca e cabeleira loira. A mais recente versão de racismo.

Trump não é culpado. Hilary, sim. Ele, o mega empresário caloteiro e manipulador de sempre. Ela, a política de caducas práticas. Encastelada no “já ganhou” não fez a leitura de que as ruas estão há tempos na era do twitter, do facebook e demais recursos instantâneos, inclusive do e-mail com o qual ela comeu mosca. Até creio que sem maldade, mas por falta de cuidado mesmo.

O político não desceu do palanque onde continua falando sozinho. Nos quatro cantos da Terra a burrice é a mesma só muda de idioma.

O povo quer falar por si mesmo. Chega de representantes. O pior é que quem está na política não esboça a mínima reação de entendimento do que já é público e notório. É apenas o começo. Ainda vem muito chumbo grosso.

 

(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)


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