Brasil

O outro

Redação DM

Publicado em 10 de março de 2017 às 02:24 | Atualizado há 9 anos

– Você tem perdido peso.

– Conseguiu perceber?

– Sim. Está bem visível para quem te conhecia.

– Obrigado. Tenho me esforçado bastante.

– Quantos quilos?

– Uns vinte desde que iniciei.

– Em quanto tempo?

– Dois anos.

– Conseguiu uma média boa. Mudou a alimentação?

– Só reduzi a quantidade. O segredo mesmo foi incorporar uma rotina de exercícios. Não quis abrir mão dos pequenos prazeres à mesa. Então, passei a comer menos.

– Boa estratégia.

– Tenho sido bem orientado.

– Mas como você deixou o sofá? Se não me engano, era muito sedentário.

– Mudança de hábito.

– Isso não acontece gratuitamente. Novo amor?

– Nada. Saúde mesmo.

– Ordens médicas?

– Isso. Colesterol alto. Triglicérides nas alturas. A glicemia já estava ficando afetada. Eu ia acabar batendo as botas sem ver.

– Que bom que você passou a se cuidar mais.

– Também acho. As meninas estão até mais interessadas.

– Coisa boa.

– A verdade é que tenho pego meio mundo.

– Não duvido.

– Não é sacanagem. Estou com a estima elevada. Não tenho perdoado nada que apareça. Estou quase ajeitando uma agenda para atender a demanda.

– Garanhão.

– Nada disso.

– Canta a pedra e fica com falsa modéstia?

– Não quero me gabar.

– Entendo. Mas onde faz academia?

– Estou naquela do meu setor. Barata, boa e com várias opções.

– Tipo o quê?

– Aulas de boxe, zumba e pilates.

– Muito diferentes entre si, não?

– Eu quero experimentar tudo.

– Tenho percebido.

– Senti uma nota de maldade na sua voz.

– Engano seu. Apenas imagino que você tem atraído atenção de muita gente.

– Nem tanto, nem tanto.

– Não se acanhe. Conte a verdade.

– Tenho escutando alguns elogios.

– Imagino que inclusive de alguns homens.

– Opa! Devagar aí!

– Qual o problema?

– Não tem essa de homens me elogiando, não, senhor!

– Talvez você esteja chamando a atenção de pessoas do mesmo sexo. Algo sutil.

– Como o quê?

– Algum sorriso maroto. Alguém tocando a textura de um músculo seu. Uma piscadinha. Uma proposta mais direta para tomar uma cerveja juntos.

– Não tem nada disso. É preconceito seu falar uma bobagem dessa. Não funciona assim. Eu nunca recebi nenhum olhar desses. Sei que na academia só tem dois caras que gostam de homens.

– Qual o nome do outro?

– Ah, deixe-me em paz.

 

(Victor Hugo Lopes, jornalista)


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