O que fizeram de ti, educação pública brasileira?
Redação DM
Publicado em 27 de janeiro de 2016 às 00:01 | Atualizado há 10 anos
Tive a oportunidade em minha vida de vivenciar um período áureo da educação pública no País.
Morei em Campos dos Goitacazes no Estado do Rio por força do trabalho do meu pai, na época me submeti a um exame de admissão rígido para poder ter direito a uma vaga no tradicional Liceu de Humanidades de Campos, ensino publico de qualidade e rigor disciplinar. Ao retornar para Goiânia, nos anos setenta, foi grande a minha dificuldade para conseguir vaga no Liceu de Goiânia, mesmo com a transferência do meu pai. Conclui ali o primeiro grau, prestei concurso para a Escola Técnica Federal de Goiás, onde cursei em nível médio o curso de Edificações e dali sai para estudar Arquitetura na PUC-GO.
Vivi o ensino público excelente em sua totalidade, da qualidade da formação dos mestres, do respeito do aluno para com o professor, da convivência participativa entre pai/aluno /escola, da qualidade das instalações físicas, da qualidade do material pedagógico e da riqueza do acervo de suas bibliotecas; e principalmente no ensino da educação moral , do civismo e respeito à Pátria e aos seus valores; levantava quando o professor entrava em sala de aula e cantava diariamente o Hino Nacional.
Quantos exemplos de lideranças e profissionais bem-sucedidos que tínhamos orgulho de dizer que estudaram nestes estabelecimentos públicos: Liceu, Brasil Central, Pedro Gomes, Instituto de Educação, Colu, Rui Brasil, Bandeirantes entre outros.
Prédios bem projetados e construídos, hoje em sua maioria abandonados, deteriorados e moradia de vândalos. Prédios históricos com o Liceu e o Brasil Central.
Tive outra oportunidade em minha vida, depois de formado em Arquitetura, fui morar na Cidade de Goiás no início dos anos oitenta, lá exerci com 27 anos de idade a direção do Colégio Estadual Professor Alcide Jubé, o antigo Lyceu de Goyaz, quatro anos de minha vida ricos em experiência e convivência com a educação de uma juventude ainda participativa e cheia de esperança em um futuro melhor e também com um corpo docente competente e que se impunha respeitosamente perante os discentes, sai dali, em 1985, condecorado pelo MEC com a medalha do Mérito da Assistência ao Estudante, aos 30 anos de idade.
Vejo com tristeza o processo de degradação da educação: o abandono dos prédios públicos; a baixa remuneração dos professores; a falta de uma carreira que estimule o aprimoramento; a influência negativa dos meios de comunicação que estimulam o consumo, a violência, os vícios, as paixões desenfreadas; a decadência do conceito de família, a corrupção enfim uma gama de comportamentos que degradam a relação entre família, aluno, professor e direção escolar. Um verdadeiro caos que gera violência desrespeito e incompetência gerencial e administrativa. Esvaziaram as prerrogativas dos conselhos de classe, afastou a comunidade escolar da gestão educacional, um ledo engano, a comunidade é que deve ser a fiscal e gestora dos destinos das unidades escolares, isso se chama governo participativo e descentralizado.
Reconheço o esforça da Polícia Militar na organização dos Colégios Militares, mas lugar de Polícia é na gestão da segurança pública, quem deve cuidar da educação é o poder público seja ele municipal estadual ou federal, nossos impostos são arrecadados para isso e é prerrogativa constitucional dos governos desempenharem esta função. Basta que deem autonomia e condições para que a comunidade escolar faça seu papel.
Considero a terceirização das administrações escolares, através das OS, outra forma de admitir a incompetência pública para ser gestora da educação, uma fuga, um lavar de mãos explícitas, rotulado de gestão moderna, outro ledo engano.
Educação é valorização da família e da comunidade escolar, confiar na capacidade dos professores, tendo como contrapartida a sua valorização profissional, se a questão é disciplina, adote o espaço físico das escolas com postos policiais, vapt-vupts, postos de saúde, façam das escolas verdadeiros centros comunitários, com o apoio ao idoso, ao adolescentes em risco social, ao deficiente físico.
Escola é vida, é apoio comunitário, pense nisso.
(Garibaldi Rizzo, arquiteto e urbanista, conselheiro titular do CAU-GO, presidente do Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas de Goiás, ex-diretor do Colégio Estadual Alcide Jubé na cidade de Goiás)