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O que pode unir o Brasil e a China?

Redação DM

Publicado em 12 de novembro de 2015 às 21:30 | Atualizado há 11 anos

Um país como a China, com 1,3 bilhão de habitantes, não poderia mesmo permitir aos jovens pensar pequeno. As estruturas planejadas para longe, em tempo e espaço, nos convence bem sobre isso. Os projetos não ficam atrás. São gigantescos, ousados. A estrutura do aeroporto dá a quem chega em Beijing a dimensão exata da eficiência e da organização dos chineses.

Mas além da estrutura gigantesca, da economia potente e da cultura singular, os chineses estão investindo pesado no esporte. Se antes não viam na prática esportiva uma política de estímulo social, agora a realidade é outra.

Em virtude do controle severo de natalidade adotado desde a década de 70, a China mantém uma legião de 100 milhões de filhos únicos, sobre os quais recaem as expectativas dos pais e dos avós.

Por isso, os que tem vocação para o esporte são garimpados desde cedo. Com 6 anos de idade, os alunos são divididos de acordo com o biotipo, aptidão, interesse e modalidade. Se aprovados nos testes a que são submetidos, seguem para os colégios esportivos, custeados pelo governo. Espalhados pelo país são 310 onde estudam cerca de 130 mil jovens chineses.

Um dos colégios em Beijing tem 500 alunos. Lá a melhor idade para começar a fazer um atleta de ponta se dá entre os 6 e os 8 anos. As crianças, pela manhã, estudam as disciplinas regulares em sala de aula. À tarde, são três horas de treino todos os dias. Quem se destaca ou vence as competições internas é convidado a integrar a seleção da modalidade que pratica.

Desembarcamos na Universidade do Esporte em Beijing, e logo após em Shanghai, para testemunhar a continuidade desse processo. Diferente dos ensinos básico, fundamental e médio, o superior é pago, anualmente, porém, trata-se de um dos mais concorridos vestibulares do mundo. O governo arca com 80% de todos os gastos da instituição e a maioria dos egressos moram nos alojamentos da Universidade. Culturalmente, a taxa anual paga pelos alunos chineses é vista como uma ajuda de custo.

Já dentro da Universidade, fomos recebidos pelos diretores, Prof. Jin Xiaoping, Prof. Dong Mei, e Prof. Hua Yongmin, que nos explica sobre como tudo funciona. A primeira boa impressão é o espaço físico, especialmente a limpeza e o cuidado.

Ensinam por lá mais de 500 professores, e aprendem mais de 4.000 alunos. Questionei se haviam brasileiros estudando ali. A resposta é que havia apenas um. É intuito da Universidade estreitar intercâmbio com o Brasil e, cientes desse interesse, propomos ampliar os esforços para tornar próspera essa parceria.

A Universidade do Esporte de Beijing se destaca pela grandiosidade: ali, são mais de 10 mil alunos.  As instalações incluem 25 ginásios, 62 campos de esporte para atletismo, futebol, ténis, basquetebol, voleibol e voleibol de praia e um conjunto de bibliotecas que reúnem mais de 900mil volumes.

A universidade também mantém um centro de pesquisa e oportunidades que recebe alunos do mundo inteiro. A taxa de empregabilidade de seus graduados é de 95% nos últimos cinco anos. Nos últimos quatro Jogos Olímpicos, 30 medalhas de ouro, 16 medalhas de prata e nove de bronze, vieram de talentos da universidade.

Apesar de poder comemorar o 2º lugar na tabela de medalhas da última Olimpíada, a China no futebol é sinônimo de frustração.

A seleção só se classificou uma vez para a Copa do Mundo, em 2002, quando foi eliminada na primeira fase com três derrotas. Pela popularidade do futebol na China, o governo chinês está repensando a maneira de lidar com os jogadores desde cedo.

O recado que absorvemos em nossa missão oficial àquele País foi claro: não basta ser a maior economia do mundo e uma verdadeira potência global, a China quer ser também um gigante no esporte – de base, ao alto rendimento. A obsessão dos chineses pelo estudo nos faz capaz de imaginar como eles devem chegar lá.

O que mais me impressionou foi o fato de que, muito mais que antes, os idosos vão as ruas, interagem, dançam, e dividem os espaços públicos de forma regular.  A beleza e a poesia das artes marciais povoam as praças e parques, e de forma natural têm influenciado os jovens chineses.

Apesar de todos os desafios que ainda imperam, entre os quais a ênfase que se dá aos esportes individuais – em vez dos esportes em equipe – o país está caminhando para se adaptar.

Os chineses sentem que têm contas a acertar com sua própria história, e isso torna suas evoluções mais obstinadas, até mais tolerantes aos sacrifícios.

Eles entenderam que no eixo central do esporte está a educação, a meritocracia, estão professores atualizados e bem pagos, estão estudantes disciplinados e motivados. Essa é a receita chinesa que tem dado certo, e que pode servir bem ao Brasil.

 

(Deputada Flávia Morais durante Missão Oficial à China a convite da Assembleia Popular Nacional daquele país)

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