Brasil

O roteiro do impeachment

Redação DM

Publicado em 14 de maio de 2016 às 01:35 | Atualizado há 10 anos

O afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados está escrito no roteiro do impeachment. Ele saiu para Temer continuar e os outros não pagarem pelas tramoias. Aos leitores, peço, humildemente, que não se entusiasmem com os próximos capítulos deste filme vulgar e trágico.

Após a Grande Depressão, que assolou a sociedade estadunidense durante a década de 1930, o economista John Maynard Keynes desenvolveu o conceito do Estado de Bem-Estar Social. Ele acreditava que o governo tem de interver na economia. O New-deal tirou a terra do Tio Sam da profunda recessão, que se iniciara em 1929. O Brasil deveria fazer como os EUA, e colocar em voga o Estado de Bem-Estar Social. Porém, paladinos vão achegar-se ao grande capital, no governo Temer, aliando-se às forças neoliberais. Tudo pela grana.

Já estivemos sob a égide de Vargas – que articulara um golpe em 1932. E outro, em 1937. Porém, em 1889, na proclamação de nossa República, tivemos o primeiro contato com as manobras que nos acompanharam e nos acompanham. Deu-se um golpe para selar a República, 1889. Deu-se um golpe para alterar a Carta Magna, em 1932. Deu-se um golpe, em 1937, que selara o Estado Novo. Deu-se um golpe, em 1964, que destituíra Jango. Acabamos gostando, viu?

A elite brasileira, arcaica e ultraconservadora, é intrínseca à democracia brasileira. Tentaram derrubar Vargas, eleito democraticamente, em 1954. Articularam o golpe civil-midiático-militar, em 1964. Governaram e pagaram à mão dos generais, enquanto milhares gritavam nos porões da ditadura. E tudo que passava no plim-plim era paz e sossego. Todos sorridentes e alegres, com a taça do mundo, de 1970.

E hoje, a história, novamente se repetiu. Em 17 de abril, deputados zelaram por Deus e família, e se esqueceram de votar por quem lhes colocou lá: o povo. Houve, até, baixaria propagada pela família Bolsonaro. Primeiro, o pai: “Votarei em homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o favor de Dilma.” Depois, veio o filho: “Por 64, voto sim.” Em reportagem publicada na última quarta-feira (11), o jornal estadunidense, New York Times, chamou atenção à ascensão às ideias fascistas de Jair Bolsonaro.

“Bolsonaro, que grita suas opiniões como se estivesse repreendendo um subordinado, suscita comparações com o virtual candidato à presidência dos EUA, pelo partido republicano, Donald Trump, em especial pela sua aceitação no eleitorado de desiludidos”, discorre o jornal. “Uma presença constante no Congresso, ele expressa suas opiniões extremas desde a década de 90, quando disse que os soldados da ditadura tinham de ter matado Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo, que foi exilado e, posteriormente, foi presidente do Brasil, entre 1995 e 2002.”

A mídia nativa, com a licença de Mino Carta, necessita de uma dose de ética jornalística. Colocam-se como arautos da verdade, e se esquecem de praticar, de fato, o jornalismo. O líder da esquerda na Europa, Massimo D´Alema, que foi primeiro-ministro da Itália no final da década de 1990, disse que ficara espantado ao ler os jornais brasileiros. “Não há fato. Eles inventam. Fazem propaganda política”, afirmou, o comunista italiano.

Eles venceram, eu sei. Eles estão com a faca e o queijo na mão. Os barões abrirão o sorriso, em seus ares-condicionados, enquanto a maioria clamará por um copo de água. Paladinos da verdade e dos bons costumes irão hastear, como sempre, a bandeira dos patrões, e irão paparicá-los e venerá-los. Está tudo, lamentavelmente, nos conformes.

Como escreveu Darcy Ribeiro: “Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

 

(Marcus Vinicius, jornalista e economista)

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