O sapinho surdo
Redação DM
Publicado em 17 de setembro de 2016 às 04:01 | Atualizado há 10 anosQuando me deparo com as notícias sobre os últimos acontecimentos do país me convenço de que, embora prefira escrever amenidades, sou quase que obrigado a falar deste tema ranheta. Em 2005 Luiz Fernando Verisimo, declaradamente de esquerda, diante dos escândalos do ‘mensalão’, anunciou a morte da Velhinha de Taubaté–um dos seus personagens–que ainda acreditada no governo. Em sua crônica antológica conclui dizendo: “Ela morreu na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia”. Há 11 anos escritor fora profético. O noticiário desta semana colocou novamente Lula no centro da roda política. E mais uma vez morreu outra “Velhinha de Taubaté” que ainda acreditava em Lula.
Jane Goodall, antropóloga britânica, diz, em defesa dos chimpanzés, que “há um hiato entre o cérebro inteligente e o coração humano”. Talvez seja essa insanidade do homem que põe o país perplexo diante dos políticos. A impressão é que nas redes sociais se escreve com o cérebro sem ouvir a voz coração. E nos esquecemos dos antigos movimentos em favor do país, por exemplo, o Diretas Já! Como foi possível destruir em tão pouco tempo o legado de Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela, Tancredo Neves, Paulo Brossard, Franco Montoro, Iris Rezende e Henrique Santillo?
Goodall diz, em defesa dos primatas, que nós perdemos a sabedoria. Na política nós perdemos o juízo. É caso dos políticos, rigorosamente todos, que já não perguntam a si mesmos: “quais são as consequências dos meus atos para as gerações futuras?”. Em vez disso se perguntam: “Como minha atitude pode me ajudar agora? Será isto pode me ajudar na campanha política deste ano ou na de 2018?”.
Qual foi o erro cometido pelos políticos que nos trouxe até a esta situação? Primeiro, a ganância e a corrupção da classe política que tirou recursos de todas as áreas, principalmente da educação. Depois, a desculpa de situações de pobreza com objetivos claramente eleitoreiros. E, por último, o aumento da população brasileira que exige mais empregos, saúde melhor, segurança e combate ao contrabando de drogas e armas.
Numa resposta à repórter Sonia Racy, na edição de ontem de O Estadão, Luiz Fernando Verissimo se diz um esquerdista desiludido: “Nós já passamos por tantas crises, suicídio do Getúlio, Jânio Quadros, cassação do Collor… Todos esses foram períodos muito conturbados, nos últimos 50 anos. Mas uma crise como esta, com posições tão arraigadas de direita e esquerda, acho que nunca tivemos”.
Talvez seja o momento de dizer que a ideia romântica dos movimentos socialistas de 1964 morreu de desgosto como morrera a personagem de Veríssimo; à frente da televisão. Simão Sem Caráter defende os políticos e diz que eles são melhores de que os concursados para os cargos públicos de juiz ou promotor. Para finalizar vou contar uma historinha de Monteiro Lobato.
Era uma vez uma corrida de sapinhos. Eles tinham que subir uma grande ladeira e, do lado havia uma grande multidão, muita gente que vibrava com eles. Começou a competição. A multidão dizia:
– Não vão conseguir! Não vão conseguir!
Os sapinhos iam desistindo um a um, menos um deles que continuava subindo. E a multidão a aclamar:
– Não vão conseguir! Não vão conseguir!
E os sapinhos iam desistindo, menos um, que subia tranquilo, sem esforço. No final da competição, todos os sapinhos desistiram, menos aquele. Todos queriam saber o que aconteceu, e quando foram perguntar ao sapinho como ele conseguiu chegar até o fim, descobriram que ele era SURDO!
(Doracino Naves, jornalista, apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)