O sensível e o sagrado
Redação DM
Publicado em 12 de junho de 2016 às 02:04 | Atualizado há 10 anosNamorar é o sentido absoluto que se esconde no gesto muito simples, não intencional, nunca previsto, e dá ao gesto a cor do amanhecer, para ficar durando, perdurando, som de cristal na concha ou no infinito.
(Carlos Drummond de Andrade)
É oportuno escrever em dois sentidos, abordando o inefável, porque de um lado, tenho o sensível, do outro lado, tenho o sagrado. O sensível deriva do amor, o sagrado deriva do Santo. É por isso que aproveito o tempo, em que todos os pássaros cantam, para dizer que chegou o Dia dos Namorados e, também, o dia que sucede o encanto: Santo Antônio, o Santo casamenteiro. Ele é o padrinho dos namorados. Nesta referência do dia dedicado aos namorados, hoje, dia 12 de junho, me privilegio deste espaço para homenagear também Santo Antônio que é comemorado dia 13 de junho.
Todos nós sabemos que os santos têm histórias de vida religiosa íntegra. Não foge a esta ideia o nosso querido Santo Antônio, que ingressou na ordem Franciscana em 1220. Foi muito conhecido pela sua vida despojada de riquezas, apesar de ter nascido em uma família abastada. Entre suas várias qualidades, Santo Antônio de Pádua foi considerado um grande intelectual da época, pois tinha o dom admirável de pregador. Seu trabalho com os pobres foi essencial para que fosse rapidamente reconhecido como santo após sua morte. É considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos idosos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros, dos cavalos e burros, dos pobres e dos oprimidos, é invocado para achar coisas perdidas, para conceber filhos, para evitar naufrágios. Tamanha era sua preocupação com os pobres que as pessoas o louvam pedindo fartura. No dia da sua festa muitas igrejas distribuem pães, especialmente abençoados, os “pãezinhos de Santo Antônio”, que devem ser guardados numa lata de mantimentos para que não falte alimento na casa.
A devoção popular colocou-o entre os santos mais amados do cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e atribui-lhe, até aos dias de hoje, muitos milagres e graças. Igrejas a ele consagradas multiplicam-se pelo mundo, sobretudo, pelo amparo aos que o procura para os casos de amor. E não é por acaso que o Dia dos Namorados é comemorado à véspera do Dia de Santo Antônio. De acordo com a crendice popular brasileira, no dia 13 de junho, as pessoas que desejam casar-se ou conseguir um namorado preparam simpatias para Santo Antônio, acompanhadas de orações. Além desta particularidade Santo Antônio tem realizado muitas graças aos que fervorosamente o invocam. O dia 13 de junho abre também as famosas festas juninas, que retratam as origens do nosso povo e se espalham em todas as regiões, rurais e urbanas, quando em todas elas os santos do dia são invocados – Santo Antônio, São João e São Pedro.
A relação do que proponho sobre a dualidade Santo Antônio e Dia dos Namorados fundamenta-se no amor. Assim, parafraseando Camões, confesso que o amor é fogo que arde sem se ver; é dor, é contentamento que nunca se contenta; é um querer mais que qualquer querer; é alívio, é cuidar, é servir. A definição Camoniana nos faz refletir sobre a ideia de que o amor nunca perece, embora os tempos modernos tendam a pragmatizar a relação de um casal. A sensibilidade se revela no encantamento do encontro que eleva o espírito. Assim, este dia é apenas uma data para revermos nossos conceitos, olharmos para dentro de nossos corações e sentir que é possível vivermos o universo do indescritível. A praticidade, resultado de tempos modernos, não é capaz de conter o encantamento do amor. A poesia dos namorados é uma dádiva divina que começa e deve perdurar, para dar testemunho de que o namoro é realmente o precedente de um futuro que será eterno, modelo de paz e harmonia na construção da família. Portanto, o Dia dos Namorados deve ser eternizado na convivência, no diálogo, na relação de harmonia e de paz. Não é apenas um “ficar”, “ficante”. Os namorados são eternos, desde o primeiro encontro, quando duas almas se identificam. No dicionário encontramos a definição que revela todas as considerações que faço: namorar – (aférese de enamorar) esforçar-se para conseguir o amor de; cortejar, galantear, atrair, cativar, inspirar amor a, seduzir.
É possível que no contexto de tantos dissabores que nos condicionam ao desalento, pelos múltiplos problemas oriundos de questões sociais, como o desemprego, a violência, a corrupção, a saúde pública precária, as pessoas se revelem insensíveis ao amor. Mas o que transcende nos gestos mais simples como o afago, o abraço, tende a fortalecer o coração no enfrentamento de todas as dificuldades. Dessa forma, vamos louvar o dia de hoje, para que ele seja lembrado não apenas como garantia de comércio próspero, mas como sinal de que a humanidade deve preservar todos os sentimentos que eternizam o amor dos enamorados.
Meus aplausos a todos que buscam no encanto do encontro, a alegria de se enamorar. E que Santo Antônio, o Santo casamenteiro, esteja sempre atento aos pedidos que lhe sejam feitos nesta data.
(Célia Valadão,cantora, bacharel em Direito, vereadora e vice-presidente do PMDB Metropolitano)