Brasil

O “Tarumã florido” de Waldemar Gomes Pereira

Redação DM

Publicado em 29 de outubro de 2016 às 20:37 | Atualizado há 10 anos

Somente agora, decorridas seis décadas após sua publicação, nos idos de 1995, me chega às mãos “Meu Pé de Tarumã Florido”, ‘Um Retrato de Porto Franco’, de Waldemar Gomes Pereira, que foi meu Secretário quando, Grão-Mestre da Muito Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado de Goiás, tive o privilégio de administrar essa Potência, hoje com cerca de 200 Lojas distribuídas das margens do Rio Paranaíba às barrancas do Rio Araguaia, numa extensão de quase dois mil quilômetros de norte a sul, jurisdicionando milhares e milhares de Maçons, homens livres e de bons costumes.

Na ‘orelha’ do livro – ‘Ética Editora’ – 226 págs., Prefácio de Sálvio Dino, Membro da Academia Imperatrizense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, traça o perfil da árvore famosa: “Na flora brasileira, tarumã é uma árvore que era endeusada pelos tarumãs primitivos habitantes das margens do Rio Negro, afluente do majestoso Amazonas. Árvore altamente benéfica: Além de gostosa sombra, de excelente madeira para construção, possui um fruto portador de largo sentido medicinal, visto que o óleo produzido é santo remédio para dores reumáticas e outras curas de enfermidades tropicais”.

“Hoje, fisicamente ele não mais existe. O feroz tempo o levou… Mas quem passar por lá, na beira do rio, onde floresceu, de leve fechando os olhos e declamar os maravilhosos versos de Waldemar:

‘Frondoso, belo, audaz e verdejante / Vetusta testemunha de um passado /

Colosso admirável, ermo gigante / Eras tu, tarumã idolatrado’.”

Por certo, ainda com o inspirado poeta porto-franquino cantará com o peito cheio de orgulho telúrico:

“O milagre, entretanto, é uma vitória / das raízes nascem dois rebentos:

Filhos teus continuam tua história/ de um passado de amor e sofrimento”.

No capítulo sobre “Cultura, tradições e folclore”, há o seguinte registro:

“A folia dos Santos Reis acontece no período das  festas natalinas, estendendo-se até o dia 6 de janeiro. Essa tradição folclórica, em nosso município, é feita em pagamento a um voto ou promessa por graça alcançada, por intercessão dos Reis Magos.” Formava-se a ‘caravana’ composta dos foliões que saem depois da meia noite, e acordam os donos da casa com toadas melodiosas:

“Ô de casa, ô de fora, ô de fora… / Tereza vai ver quem é…/

É o tirado de Reis / Devoto de São José.”

“O dono dessa promessa / Teve cá vela na mão /

Se não fosse Santos Reis / Tava lá debaixo do chão!”

É um cantar dolente e muito longo. Os versos vão se sucedendo, podendo, inclusive, haver o improviso. Sanfona e viola são os instrumentos que acompanham.

“O folclore maranhense é, inquestionavelmente, um dos mais belos e ricos do Brasil. Não se pode pensar em folclore, em nosso Estado, sem colocar logo em evidência a maior manifestação folclórica dentre todas: o ‘bumba-meu boi’. Quase todas as cidades maranhenses tem o seu ‘boi-bumbá’. Porto Franco , infelizmente, não se apegou a essa manifestação cultural tão linda! Entretanto, já tivemos, sim, o nosso ‘boi-de-terreiro’! E era um ‘boi’ apaixonante. Na década dos anos 30 até meados dos anos 40, atuava, aqui, um grupo animado que promovia, todos os anos, durante o mês de junho, a ‘festa do boa’.  Eram saudosos conterrâneos que se foram para o além, levando sua simplicidade, seus costumes, suas tradições que um dia fizeram o ‘bumba-meu-boi’ de Porto Franco. Seus principais integrantes foram: ‘Seu’ Pedrim com Dona Zefa, Crispim Xavier, Manelão, Marido de ‘Mãe Tia’, ‘Seu Cazemiro Quiriba, e muitos outros. Ainda assisti a muitas apresentações desse animado grupo. No princípio, confesso, eu tinha medo do ‘boi’, do ‘Pai Francisco’ e da ‘Nêga Catirina’. Lembro-me de que ficava no colo de meu pai, na porta da rua, assistindo ao espetáculo até a ‘morte do boi’ e o ‘tira-língua’, que se oferecia aos donos da casa. E as velhas toadas do ‘boi’ ainda ressoam, incólumes, em meus ouvidos:

‘Lá vem, lá vem, lá vem / Lá vem meu boi guerreiro /

Morena suspende a saia / Menina barre o terreiro.

Menina barre o terreiro / cá bassoura de Butão /

Que barra de boi é branca / não pode arrastá no chão…”

E o canto do ‘Pai Francisco’:

“Andava cantando por essas barrocas /

Atrás de Pai Chico, Nariz de taboca.”

E a “Catirina”:

“Ai Pai Francisco, ai meu amo / Tá desejando cumê

Carne seca desse boi / Língua, coração, fuçura…

Com feijão e rapadura…”

E os vaqueiros:

“Êta, meu amo, Pai Chico matou seu boi..

Nêga Veia Catirina desejou o Boi Bumbá…”

Muitas outras tradições folclóricas poderiam ser resgatadas, tradições que fizeram a alegria de nossos avós e que, por extensão, devem fazer parte do nosso acervo cultural.

Agora, vamos reviver um  pouco algumas figuras folclóricas de Porto Franco. Pessoas muito engraçadas  que deixaram muita saudade naqueles que os conheceram.

‘Luizinho Guimarães’ – ‘O Fio de Deus’, como todos lhe chamavam. Era descendente de família abastada.

‘Tia Luzia da Bananeira’ – Velha muito engraçada, ‘contadeira de causos. Só não podia ouvir o estouro de foguetes.

‘Abares’ – Um pobre diabo acometido de loucura , que veio de Marabá e aqui fixou, vagando em nossas ruas por muitos anos. Ele dizia: Nunca mais vá brincar com o Compadre Cláudio. Ele tinha duzentos homens na mata de castanheira, e nunca saiu, e não é mentira não!

“Erecília Doida” – Mulher que catava e dançava nas ruas, tirando o vestido, ficando inteiramente pelada.

 

(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail [email protected])

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