O teatro da Cavalhada em Posse
Redação DM
Publicado em 10 de março de 2016 às 21:26 | Atualizado há 1 ano
No dia 14 de fevereiro último, o governador então em exercício, José Éliton de Figueredo Júnior, recebeu no Palácio das Esmeraldas, além de convidados especiais, uma comissão de integrantes da Associação Cavalhadas da Festa do Divino de Posse (cidade-pólo do Vale do Paranã, a aproximadamente 550 quilômetros de Goiânia), para um evento sui generis (linhas adiante).
O evento foi prestigiado por autoridades eclesiásticas, tais como, representante do arcebispo de Goiânia, bispo diocesano de Formosa e alguns sacerdotes da região leste goiana, simbolizando uma espécie de renovação do pacto político-religioso entre o Estado e a Igreja, pelo menos no âmbito regional. – “Preservar a cultura do nosso povo é manter viva a história dos nossos municípios, do nosso Estado, da nossa gente” – afirmou o governador em exercício ao ressaltar a importância de eventos religiosos e culturais como esse das cavalhadas em Posse.
Na ocasião José Éliton anunciou o apoio do governo estadual à tradicional cavalhada de Posse, que se realiza anualmente nos dias 14 e 15 de maio durante a Festa do Divino Espírito Santo, uma das festas religiosas mais expressivas da região do Vale do Paranã e que atrai pessoas de outras regiões fronteiriças e dos municípios circunvizinhos.
No encontro palaciano os cavaleiros de Posse chegaram trajados a rigor, caracterizados como típicos personagens da cavalhada, mouros e cristãos, com suas respectivas indumentárias, endossando mantos em cetim vermelho e azul, porém montados em cavalos magros que pareciam tomados de empréstimo aos carroceiros goianienses, lembrando mais os jumentinhos do Egito do que o pomposo cavalo de São Jorge, conquistador da Lua, pois é assim como se apresentam os garbosos competidores da cavalhada em Posse.

O documento contém assinaturas (nota-se uma em branco), sendo abonado por várias testemunhas (nomes ilegíveis).
Na solenidade, o vice-governador lançou um “desafio” a este escriba para realizar, na qualidade de historiador e membro da Comissão Goiana de Folclore, um levantamento sistemático das cavalhadas em Goiás (incluída, naturalmente a de Posse), no que é atendido em parte com este artigo. Seria desnecessário fazer tal levantamento, uma vez que já há estudos especializados sobre as cavalhadas em Goiás, principalmente da antiga Vila Boa, conforme registros da saudosa folclorista Regina Lacerda, e das cavalhadas de Pirenópolis, por Carlos Rodrigues Brandão, bem como das cavalhadas no Brasil, a exemplo do que fez Niomar de Souza Ferreira. Autores esses que remetem a uma bibliografia específica. O que não constava, até agora, era um estudo específico sobre a cavalhada em Posse, tão rica e expressiva no leste goiano, quanto as demais representações desse tipo já conhecidas nas cidades tradicionais do sul do estado.
Um ligeiro registro
Como é sabido, cavalhada é a representação equestre da luta de mouros e cristãos ao tempo das cruzadas medievais. A representação em foco tem como motivação dramática o rapto da rainha (ou princesa cristã) pelo rei pagão (mouro), que será combatido e vencido pelo rei cristão, simbolizando a vitória do cristianismo sobre o paganismo. Por isso a cavalhada está associada à festa do Divino Espírito Santo.
Esta histórica apresentação foi promovida por Dona Calíopes, esposa do festeiro Domingos José Valente, com ajuda de Waldemar Pereira da Costa (Valdu) que representou o papel de rei cristão. O rei mouro foi representado por Deoclides Madureira. (Foto: gentileza de Mariana Valente).
Em Goiás a cavalhada é tradição em algumas cidades históricas do sul do estado, destacando-se Pirenópolis, Santa Cruz e Jaraguá, ligadas a uma política de turismo cultural. No leste goiano, destaca-se em Posse, cuja tradição remonta a mais de meio século. Ultimamente, vem-se aproximando da de Pirenópolis quanto à indumentária e caracterização das personagens, em função de interesse turístico.
A cavalhada no Brasil contém elementos associados, ora à tradição portuguesa ora à tradição espanhola, chegada até nós através de Portugal. Na cavalhada em Posse, há referência ao rei mouro como sendo argentino (Não esmoreças ante o exército daquele vil argentino, diz o rei cristão ao seu general).
Em Posse, o centro do embate entre os reis mouro e cristão é a figura da princesa (às vezes rainha), que faz uso da palavra e canta. As embaixadas são em versos camonianos (o que reflete influência portuguesa): “Eu já vou, do meu rei, turco arrogante, / publicar sem demora, os teus intentos. / Tu verás, abatidos, nesta hora, / estes teus elevados pensamentos. / Tu verás teu poder hoje abatido, / infeliz, derrotado e já vencido.”
Atendendo à expectativa do senhor vice-governador, informo a quem interessar possa, que o levantamento completo sobre a cavalhada em Posse já foi feito e publicado por este autor, no livro INTERSECÇÃO GOIÁS-BAHIA – cultura popular no vale do Paranã, 2ª edição, Goiânia: Kelps, 2015 – a ser lançado oficialmente em breve.
Emílio Vieira é professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected]