O tesouro de Oscar
Redação DM
Publicado em 21 de fevereiro de 2016 às 22:34 | Atualizado há 10 anos
Ainda não é comum no Brasil a prática de doações de acervos a instituições universitárias, como ocorre com frequência, por exemplo, nos Estados Unidos e na Europa. Isso torna ainda mais significantes os gestos de pessoas como José Mindlin, que em 2006 doou seu acervo bibliográfico à Universidade de São Paulo (USP), quatro anos antes de sua morte.
A Educação goiana também tem seus mecenas, entre os quais o embaixador Oscar Soto Lorenzo Fernandes. Esse carioca deixou, como poucos, grandes provas de amor à sua pátria. E nós, goianos, tivemos a felicidade de receber parte desse carinho dedicado ao Brasil, ao termos a Universidade Estadual de Goiás (UEG) escolhida para receber seu rico acervo bibliográfico.
Esse belo gesto foi concretizado em abril de 2015, em cerimônia no Campus de Pirenópolis com a presença da família de Lorenzo Fernandes. Hoje, a comunidade universitária da UEG tem a seu alcance mais de 10 mil obras de diferentes campos temáticos, estilos e línguas. Trata-se de um tesouro acumulado ao longo de décadas, sob a ótica exigente de um dos mais renomados intelectuais brasileiros.
Nascido em 18 de abril de 1924, de pais espanhóis, Lorenzo Fernandes deixou outras grandes contribuições ao país em diversas fases de sua vida. A primeira delas foi em fevereiro de 1945, quando, ainda muito jovem, se ofereceu oficialmente como voluntário na Segunda Guerra Mundial. No entanto, viu frustrar seu desejo de combater os nazistas no front, pois o conflito já estava em seu encerramento.
Sem poder cumprir o que entendia ser seu dever, o então tenente de cavalaria, e depois embaixador, Lorenzo Fernandes passou a dedicar-se à luta por um país que ele acreditava ser o ideal. Assim, ficou reconhecido no século XX como um expoente no seio de uma geração de notáveis que pretendia modernizar o Brasil.
Poucos brasileiros possuem a formação acadêmica, experiência de vida, o estofo cultural e a vivência internacional de Lorenzo Fernandes. Seus conhecimentos transitavam da literatura à filosofia, da história à tecnologia. Fez brilhante carreira no serviço público federal, onde, além de oficial do Exército, destacou-se ainda como professor em instituições como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), do qual foi um dos fundadores.
Em 39 anos de atuação em 11 países, Lorenzo Fernandes foi um dos poucos diplomatas que tiveram a coragem de ajudar perseguidos políticos que a ele recorreram durante os governos militares, por saberem de sua justiça e solidariedade humana.
No início dos anos 1960, Lorenzo Fernandes foi um dos coordenadores do Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek, e também integrante da equipe que trabalhou na criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), hoje BNDES.
Boa parte desses conhecimentos e dessa experiência de vida pessoal e profissional se perpetuam também nas obras escritas por Lorenzo Fernandes, entre elas A Evolução da Economia Brasileira (Rio de Janeiro: Zahar, 1976; 2ª edição ampliada, 1979); Estudos em Homenagem a Hélio Jaguaribe (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000); e Três Séculos e uma Geração (Brasília: Funag, 2010). Este último livro de Lorenzo Fernandes vai além das memórias diplomáticas para propiciar reflexões sobre a evolução das relações internacionais, a construção do Brasil e sua inserção internacional. Trata-se, em resumo, de um registro histórico do país na visão de um de seus mais ilustres filhos.
Pois esses e os demais trabalhos de Oscar Lorenzo, além de outros milhares de títulos, fazem parte do patrimônio de Goiás. Uma riqueza distribuída entre os campi da UEG para leitura e pesquisa.
Renovo meus agradecimentos a esse brilhante brasileiro e à sua família por esse gesto que ecoará para sempre nas mentes e nos corações dos goianos, em especial daqueles que, após passarem pela UEG, vão ajudar a construir a nação com a qual Oscar Lorenzo sonhava.
Que o exemplo de Oscar Soto Lorenzo Fernandes produza frutos, para que possamos ver com mais frequência no Brasil o exemplo que vem de países como os Estados Unidos, onde é comum ex-estudantes que fazem fortunas contribuírem com grandes doações para as universidades (particulares) por onde passaram, a exemplo de Yale, Stanford e Harvard.
É, sem dúvida, uma bela maneira de os americanos responderem ao conselho de John F. Kennedy, que em seu discurso de posse como 35º presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 1961, deixou a célebre frase: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país!”.
(Marconi Perillo é governador de Goiás)