O trem saiu da linha
Redação DM
Publicado em 8 de abril de 2017 às 02:48 | Atualizado há 9 anos
Às vezes o trem passa e embarcamos nele. Embora exista um destino preestabelecido, estaticamente falando, não se pode garantir que chegaremos, permaneceremos ou regressaremos dessa viagem.
Às vezes não embarcamos, mas é o trem que embarca como um parasita em nós, daí passamos o resto da vida imaginando que rumo tomaria nossa história se, ao invés dele estar dentro de nós, nós tivéssemos embarcado nessa “loucomotiva” naquele dia, naquela hora, naquele justo momento.
Mas, de vez em quando, não embarcamos no trem, nem o trem se instala na gente; somos de maneira peremptória arrastados por ele e, assim, somos conduzidos pelas circunstâncias, tal qual um diminuto barco sobre um mar repleto de ondas incoerentes. Desse modo, não vivenciamos a viagem dos sonhos, vivenciamos a realidade arbitrária das ações e reações. Mas não falávamos de trem? E agora ondas? Perdoe-me, leitor: meu trem desencarrilhou, assim como um barco que naufraga… são construções imagéticas que não se podem furtar ao meu espírito atribulado.
Não faço ideia da razão de ter embarcado nessa vã filosofia e o porquê de escrever essas coisas. Mas “neste” momento fui arrastada pelo trem, ou seria “nesse” momento? Porque embora não pareça, há muita diferença.
Neste ou nesse: exatamente agora ou por um determinado tempo… Não importa! Estaremos sempre à mercê de um trem… desejando que nos leve ao desconhecido e que esse forasteiro nos livre das constantes confusões mentais que experimentamos quando perdemos a direção.
Parece-me que fui “obsediada” por sentimentos platônicos ao embarcar nessa viagem de trem e, por fim, permaneço encarando rituais indulgentes, porque, nesse momento, Platão com sua locomotiva avassaladora arrasta-me aos questionamentos do amor.
Assim, divago na concepção de que Platão perfeccionou o amor; Paulo, o apóstolo tornou-o sublime e impossível aos seres humanos: “o amor tudo suporta”; Theodor Adorno deu ao amor a responsabilidade de curar todos os males. Sublime, perfeito e curador! Eis o amor (?)
Mas por que será que a palavra amor precisa rimar com a dor? Rima pobre. Contudo rimam o ponto de se fundirem num processo de simbiose e como Hermes e Afrodite tornam-se um ser hermafrodito, a culpa não é do amor, tampouco da dor, a culpa é de Drummond por ter escrito: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. Ah, o amor … que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porque”.
Mas como enfrentar a vida sem “DorAmor”? Como viver sem amor? E como evitar a dor?–e Drummond completa: “A dor é inevitável, o sofrimento não”.
Então não há saídas? Embarcar no trem ou deixá-lo passar? Mas ele passará? Ou permanecerá embarcado dentro em nós? Pelo sim ou pelo não o trem, assim como o tempo é um móvel instável, se a chega, o tempo passa. Se a vez não chega, ainda assim ele passa, pois não pode esperar outra vez se aproximar; não nos esperará enquanto dobramos e desdobramos o nosso intrínseco bilhete de passagem.
Eu, no decorrer do meu tempo, todas as possíveis vezes embarcarei no trem e, por um mundo de vezes, até que tudo seja coisa alguma. Assim mesmo, segurando as mãos da insensatez e trazendo em minha bagagem toda ânsia de viver, ainda que jamais aprenda como fazê-lo. E já que o meu trem saiu da linha, eu posso ir para qualquer lugar sem traçar destino algum. (Revisão da professora Quitéria França)
(Clara Dawn, romancista e produtora de conteúdo do Portal Raízes (portalraizes.com)