O veneno da vingança
Redação DM
Publicado em 12 de maio de 2017 às 21:34 | Atualizado há 9 anos
É grave a enfermidade que ataca a sociedade brasileira que se despiu de sua racionalidade social. Os sintomas afloram de forma primitiva e vivenciamos o adjeto sentimento destrutivo da inflexão, onde confundimos justiça com “justiçamento”, ou seja, queremos vingança.
A clássica lei de Talião, que é uma expressão que vem do latim, do “tal e qual”.
Tal isso, tal aquilo, que embute o sentimento de fazer o outro sofrer, e impinge o desprezível conceito do ódio, da raiva e da irracionalidade.
Colhemos o que irresponsavelmente plantamos como o ódio de classes, onde não discordamos apenas, mas eliminamos os que ponderam de forma desuniforme dos conceitos preestabelecidos por uma casta social higienista.
Expressões preconceituosas e fascistas como a “desinteligência do nordestino em votar”, “aeroporto parece rodoviária”,” bolsa vagabundo”, entre outras barbáries.
De fato está mais fácil desintegrar um átomo do que dissipar os preconceitos de classe no Brasil que tem sua raiz na política sem lastro de projeto de pacificação nacional, pois o que importa é somente o poder pelo poder.
A contaminação atinge, inexoravelmente, todas as instituições, sejam elas do Executivo, Legislativo, e até mesmo do Poder Judiciário que foi transformado numa cruzada de animosidade e perseguição arbitrária de seus antagonistas.
O que vale para um é descartável para outro.
O clima de “Fla-Flu” protagonizado por um poder que tem como seus desígnios a serenidade, a retidão, a “despaixão” tem sido utilizado como ideologia de classe, numa insensata desconstrução institucional.
Perdemos a ignomínia. Aceitamos de forma prosaica magistrado confraternizando com seus réus, juízes como agitadores sociais, princípios sendo renunciados como a presunção da inocência, o contraditório, e a ampla defesa são descartáveis em nosso ordenamento jurídico.
Convivemos com agressões gratuitas pelo simples fato de pensarmos de forma diferente da ordem preestabelecida pelos donos na manipulação do monopólio midiático e classista.
A estreita relação de causa e efeito deste momento da sociedade brasileira nos faz ponderar sobre o dramaturgo inglês, Willian Shakespeare, em sua magistral obra “Hamlet”, no segundo ato quando Polônio diz: “Mas resta descobrir a causa desse efeito” ou ainda melhor, a causa do defeito, porque esse efeito que é defeito há de ter causa.
Talvez a causa seja a nossa pouca intimidade e aceitação da democracia, da vontade soberana da maioria de nossa gente, ou ainda seja a inaceitável ascensão social daqueles que foram concebidos para serem eternamente subordinados ao servilismo social, ou o inconformismo de ver seres inferiores terem três refeições por dia e serem elevados a dignidade social, algo inaceitável para os “donos” de nosso poder.
Para isso é preciso se vingar, afinal mudar os paradigmas sociais de uma sociedade como a brasileira historicamente acaba em golpe e retrocessos, até porque o radicalismo tem lado e sabe dar golpe.
(Henrique Matthiesen, bacharel em Direito e jornalista)