O vício da paixão
Redação DM
Publicado em 27 de dezembro de 2017 às 23:32 | Atualizado há 9 anosA paixão é um vício que nada tem de santo. Pessoas apaixonadas são perigosas. Perdem a tramontana por qualquer dê cá essa palha. Por nadica de nada, um olhar fora das grandes a que foram atiradas as vítimas de seu amor de escravidão, o apaixonado entra em crise de ciúme mortal e mortífero, e desanda a mandar sopapos e trovoadas nos ambientes pacatos. Pessoas assim transtornadas constituem perigo à sociedade, pois consideram-se proprietárias do corpo e alma das criaturas que dizem amar.
Os gregos antigos eram prudentes quanto aos arrebatos passionais. Buscavam manter-se distantes das turbulências das paixões. Quando atendiam ao império dos sentidos, trocavam-se fluidos no intercurso sexual, mas tendo o cuidado de não caírem de quatro nos arrebatos passionais. Mas há paixões e paixões, sendo que algumas são até bem cotadas, tidas como sendo inspiradas pelos deuses. A paixão pela arte e literatura, por exemplo, que faz tantos de seus corifeus endeusarem a si mesmos.
Desconhecem o fato de que a arte, em si mesma, não tem maior valor que o de ser um narcótico suave, que nos ajuda a nos esquecer de nós, e dos problemas que nos afligem. Além de que, em inúmeros casos, serve de penico, vomitório ou catarse para neuroses, psicoses e outras fraturas psíquicas. Isto se dá quando, em vício apaixonado, artistas (ou simples loucos, que julgam sê-lo) a seu oficio se entregam com frenética e neurótica assiduidade. Não fosse cercada de glamour, a sua atividade, e não hesitariam em coloca-las em camisa de força, nas clínicas psiquiátricas mais acreditadas.
Poetas existem que despejam de versos e livros sobre seu tempo e sua cidade, sendo incapazes de conceder aos outros e a si mesmos o benefício do silêncio criativo. Outros, políticos ou não, são bandas barulhentas, a arrotar esquerdismo infantil e populista, embora sejam bem burgueses, em seus prazeres mundanos, e até direitistas, fora das câmeras.
Não conseguindo resistir à tentação da vaidade, não dão ao público estóico o alívio de sua ausência. No dizer de Freud, tais personalidades consideram a realidade sua única inimiga, e fonte de todo sofrimento. Ao ver na arte o canal de escape de suas aflições narcisistas, acabam por erigi-la em torre de ilusões. Assim se abstêm de viver sob o princípio da realidade.
Se tais personas transbordantes elegem o amor (e a sexualidade, um de seus canais) como o veículo maior de sua realização como seres humanos, o fazem de modo tão radical, que passam de uma paixão a outra, tendo o cuidado de fazer com que sejam destrutivas e avassaladoras. Isto porque não admitem solução de continuidade em suas ardentes pulsões emocionais. São deste tipo as que colecionam desastres existenciais. São muito bem quistas por cartomantes, pais de santos, terapeutas, psiquiatras e psicanalistas, sendo useiras e vezeiras em freqüentar bares acima e abaixo de qualquer suspeita… além de suas trombadas emocionais as levam freqüentemente às clínicas ortopédicas e às oficinas de conserto de automóve is. Não que sejam propriamente amantes profissionais, pois que estes têm de ser frios e racionais, em seu suado ofício, e sim porque têm a paixão como um vício, violento e abrasador, do qual não conseguem e não desejam ver-se curadas.
(Brasigóis Felício, escritor e jornalista. Membro da Academia Goiana de Letras)