Oásis para a alma
Redação DM
Publicado em 17 de abril de 2016 às 02:22 | Atualizado há 10 anos
Nesta quinta feira, a Academia Goiana de Letras realizou mais uma de suas sessões especiais, desta vez dando sequência à série de palestras que, desde o ano passado, vêm sendo feitas, para homenagear acadêmicos que, se vivos, estariam completando cem anos de idade. Carinhosamente nos referimos aos centenários.
Na verdade, o fato importante não é a questão do centenário. Esta é apenas uma boa desculpa. Mas o que desejamos mesmo é ouvir mais, saber mais sobre estes imortais, entrosando-nos mais com sua obra, sua vida, seus sentimentos, seus motivos e razão de ser de seus trabalho, sua produção, sua arte, redescobrindo facetas que nos tinham passado despercebidas, mesmo no convívio acadêmico frequente.
O homenageado, na quinta passada, foi o acadêmico falecido Benedito Odilon Rocha. Casa cheia, família presente, bom número de acadêmicos prestigiando o acontecimento, visitantes diversos.
Acomodei-me em minha poltrona para assistir o espetáculo. Confesso que cheguei meio esbaforido, tendo deixado pela metade, no escritório, peça recursal importante. Mas não perdi o horário da sessão.
Primeiro, fomos brindados com a apresentação de um documentário retratando diversos ângulos e etapas de sua vida, e, principalmente, a multicolorida tela de seus dons pessoais, de sua atividade intelectual: jornalista, professor, político, contista, cronista, poeta, músico e compositor.
Sinceramente, não sabia que este confrade navegava com maestria por todas estas águas de manifestação da inteligência.
Com razão um dos entrevistados, no vídeo, ao afirmar que Benedito Odilon Rocha era um patrimônio cultural, um nome de talentos excepcionais mas pouco divulgado, pouco conhecido.
Ah, este terrível mal…
Alguns, mesmo medíocres, não se desencarapitam das mídias. Outros, talentosos, mas humildes, precisam ser redescobertos, mesmo após a morte, para que se possa dar a eles o valor e o destaque que merecem.
Foi dada a palavra ao confrade Hélio Rocha, filho do homenageado e encarregado da palestra da tarde.
Com a tranquilidade do grande jornalista que é, Hélio Rocha começou a falar sobre seu pai, a partir da data de nascimento dele.
Passou-me um calafrio pelo corpo.
Não sei identificar direito o que estava sentindo, mas o efeito era evidente, fosse na minha inquietação de postura na poltrona, fosse na respiração, às vezes ofegante, embora sem fazer qualquer ruído incômodo.
Aos poucos fui compreendendo a emoção que tomava conta de mim: estava orgulhoso!
Enquanto Hélio falava eu me sentia como se estivesse eu falando de meu pai. Foi quando me dei conta de que meu pai, com todos os méritos pessoais, não foi escritor. Só tivera, na vida, a oportunidade de três dias de escola. E Hélio falava sobre seu pai, naquele tom coloquial, revelando, a pouco e pouco, o carinho, a seriedade, a simplicidade, a honestidade e a grandeza desse homem exemplar.
Não alterava o tom de voz quando falava das múltiplas atividades dele, ou quando revelava a trajetória do mesmo em casa, no trabalho, na produção artística…Não alterava o tom de voz, disse, mas eu e todos os que ali estávamos, acredito, podíamos sentir , com a alma, como batia forte o coração do filho, falando do genitor exemplar. O orgulho em poder prestar aquele depoimento informal e íntimo, em tom de liberdade, sobre um pai que tanto caminhou e certamente ainda caminha nos caminhos espirituais de toda a família…
Benedito Odilon Rocha permaneceu no convívio físico com a Academia por menos de dois meses, tempo que ainda teve de vida após a sua posse.
Mas como me orgulho, como me entusiasmo em ouvir de seu filho este transitar íntimo, revelado a todos nós.
Ficamos ali por pouco mais de uma hora, mas foi tempo suficiente para nos dessedentarmos.
Andando neste árido deserto, onde crescem poucas árvores a darem frutos de valor artístico cercados de simplicidade e humildade, sofremos a angústia da sede de podermos confiar, de podermos sentir orgulho pela honradez alheia, pelo patrimônio moral reconhecido.
E naqueles pouco mais de sessenta minutos pudemos repousar, como que num oásis. Pudemos nos dessedentar com a água límpida do exemplo desse grande confrade falecido e o conforto do refrigério que representa a história da imortalidade de Benedito Odilon Rocha, a nos concitar a continuarmos caminhando para conquistarmos, nós mesmos, oásis permanentes a nos confortarem as almas, enquanto ainda andamos por aqui, fragilizados por mortais tempestades de areia das crises de identidade, de moral, de valor e de autenticidade… Ad immortalitatem!
(Getulio Targino Lima é advogado, professor emérito da UFG, jornalista, escritor, membro da Associação Nacional de Escritores e da Academia Goiana de Letras.Email: gtargino@hotmail.com)