Obscuridade da autocensura
Redação DM
Publicado em 11 de julho de 2017 às 01:18 | Atualizado há 9 anos
Manter-se próximo ao governo talvez nunca tenha custado tão caro. As plantas na entrada do Palácio do Jaburu são um exemplo pitoresco disso. O mesmo pode ser dito quanto à relutância de parlamentares em manifestar publicamente seu posicionamento em relação à denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra Temer. É a trincheira da obscuridade.
Desde a semana passada, fotógrafos e cinegrafistas passaram a ter sua visão empatada por um “corredor verde” estrategicamente posicionado na entrada do Palácio do Jaburu. Assim, garante-se a privacidade daqueles que visitam o presidente Michel Temer. Não se consegue saber ao certo quem entra e quem sai, o que dá o tom nada transparente do que se negocia com o objetivo de ampliar o número de aliados.
Ao mesmo tempo, estimativas apontam números impressionantes sobre o comportamento de parlamentares em relação ao destino da denúncia de corrupção apresentada pela PGR contra o presidente. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), dos 66 deputados, só 26 revelam seu voto (Veja). Na Câmara, 296 não responderam ou disseram não saber como vão se posicionar ou que não vão se pronunciar (Folha de S. Paulo). Em outro levantamento, 302 deputados se disseram indecisos ou não responderam (O Globo).
Esse cenário nos sugere uma reflexão sobre transparência e liberdade de expressão, dois elementos fundamentais em democracias contemporâneas. Enquanto o primeiro diz respeito à submissão das ações de oficiais públicos ao escrutínio da sociedade, o segundo garante ao cidadão a possibilidade de expressar suas ideias e vontades sem temer represália. Não há democracia sem esses dois pilares. No mundo ideal, essa é a regra absoluta. Lamentavelmente, porém, o Brasil apresenta um quadro extremamente desequilibrado em ambos os aspectos.
O comportamento estrategicamente obscuro de tantos deputados diante de uma simples pergunta revela duas variáveis. A primeira: existe uma incapacidade dos parlamentares de internalizarem o fato de que o silêncio não pode ser um marcador de conduta pública. A segunda: a autocensura pode ser interpretada como uma estratégia executada por parlamentares interessados em trocar seus votos por interesses de curtíssimo prazo. O “corredor verde” é apenas uma espécie de cereja do indigesto bolo.
(Juliano Domingues, da Universidade Católica de Pernambuco. / Creomar Souza, da Universidade Católica de Brasília, são consultores políticos)