Brasil

Observatório do impeachment

Redação DM

Publicado em 1 de setembro de 2016 às 02:26 | Atualizado há 10 anos

Temos que reconhecer que Dilma resistiu por quinze horas seguidas, salvo pequenas pausas, na sabatina que ora oscilava entre elogios massageadores de ego, ora críticas contra suas ações que teriam culminado no caos financeiro, elétrico etc.

Difícil foi a tarefa de compreender os desarranjos de raciocínio em algumas frases repletas de orações coordenadas aditivas e orações subordinadas explicativas. Fato compreensível pela pressão revelada nas olheiras de quem não dorme bem há muito tempo.

Pouca gente suporta a repetição dos mantras petistas “é golpe”. Como se o verdadeiro intuito fosse repetir tanto uma mentira até torná-la uma verdade, frase atribuída a Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler.

Eduardo Cunha não teria tanta expressão a ponto de organizar a massa popular que foi para as ruas em protesto. O julgamento do Senado é previsto na própria Constituição Federal. Agora, discussão maior do que se houve ou não pedalada, ou se houve ou não crime de responsabilidade, tem sido observado nas redes sociais quando alguém se manifesta sobre seu bendito veredito. Caos, guerra, afrontamentos de argumentos, pró e contra o Partido dos Trabalhadores. Inclusive muita gente tem se engalfinhado sobre o erro crasso na língua portuguesa de registrar a palavra presidentA.

Questão de ordem! Questão de ordem! Vossa Excelência é um ladrão! Vossa Excelência não tem escrúpulos! Vossa Excelência não tem moral para julgar ninguém aqui. E por aí vão infinitos comentários, silenciados com o microfone cortado depois de 5 minutos, permitido apenas a conclusão rápida da frase. Quando o circo pega fogo tudo é suspenso por alguns minutos.

Enquanto escrevo esse texto, os votos ainda não foram dados, mas você que agora está aqui lendo, certamente já sabe do resultado. Até arrisco um palpite sobre a bancada pró impeachment ter sido vitoriosa. Enfim, está chegando o 7 de setembro e o Brasil continuará gastando bilhões em despesas políticas que deveriam ser cortadas (a exemplo das viagens, propagandas, combustíveis, contratações, comissionados, serviços terceirizados, tudo oferecido a senadores e deputados – basta observar no portal transparência da Câmara e Senado).

O discurso inicial de Dilma não foi escrito por ela, pois sua fala cotidiana não condiz com a eloquência daquele texto. Salvo engano, naquele discurso foi repetida dez vezes a palavra golpe; não admitiu nenhum erro, atribuiu todos os infortúnios da política e economia aos seus adversários.

O ex-ministro petista Miguel Rossetto disse, sobre o cansaço e desmotivação de esquerdistas em geral, que “até os vulcões adormecem”. Chico Buarque, de óculos escuros, sem culpa de consciência por ter ganho milhões com a Lei Rouanet e patrocínios governamentais, posou de celebridade politicamente engajada. A advogada Janaína Paschoal chora pedindo desculpas pelo sofrimento causado, mas não poderia se omitir como cidadã, e alegou fazer isso pela neta de Dilma. O advogado José Eduardo Cardozo lacrimejou, reivindicando o monopólio do choro, se sentindo revoltado. Quem disser tchau querida nas redes sociais correrá sérios riscos de perder amigos.

Outra ilusão é acreditar que tirar um determinado partido do poder nós ficaremos livres da corrupção, dos desmandos e da má utilização do dinheiro público. A instabilidade política atual é preocupante. O impeachment é mais um ato que a história registrará para a posteridade. Uma verdadeira ferramenta de transformação é a escolha certa com o voto consciente. Eleições municipais estão chegando. Que tal pensar muito bem antes de votar? Quem sabe evitando se beneficiar por interesses próprios ou por determinada categoria. Até a próxima página!

(Leonardo Teixeira, escritor, escreve às quintas-feiras neste espaço. Contato: [email protected])

 

 

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