Brasil

Ode ao amor

Redação DM

Publicado em 5 de abril de 2016 às 02:49 | Atualizado há 10 anos

O golpe pode até dar certo. Há muita grana da Fiesp. Além da narrativa da grande mídia, com seu lead condenador. Mas nada é tão bom como ver Luís Fernando Veríssimo escrever suas crônicas dominicais no Estadão e O Globo e Juca Kfouri abordar o contexto político utilizando o futebol como metáfora na Folha. A gente pensa que já viveu tudo, que já viu tudo, que já leu tudo, que já escreveu tudo. Ledo engano, caro leitor.

Que bom. Estamos vivos. Estamos com desejo. Estamos com vontade de aprender a entender o desvairado cenário político que assola-nos. Letícia Sabatella, em encontro com a presidente Dilma Rousseff, na última sexta-feira, disse que não compactua com os ideais do governo petista, e nem por isso apoia o golpismo. “Sou oposição ao seu governo, presidente Dilma”, afirmou a atriz. Que maravilhosa! Letícia, além de encantar-nos com seus personagens e beleza, ainda interpreta com sensatez o momento político.

A filósofa Hannah Arendt, em As origens do totalitarismo, discorreu sobre a formação de uma sociedade autoritária. Segundo a pensadora, “as massas surgiram de fragmentos da sociedade atomizada, cuja estrutura competitiva e concomitante solidão do indivíduo eram controladas quando se pertencia a uma classe”. Arendt disse que fora necessário mobilizar e persuadir a massa alemã, à época do nazismo. A escória, de acordo com a filósofa, não tem nada a ver com situação econômica e educacional das pessoas, “pois até os indivíduos altamente cultos se sentiram particularmente atraídos pelos movimentos da ralé”.

Gente raivosa e odiosa comenta as notícias na internet e destila as mais manjadas interpretações dos fatos. Kfouri fez o inverso, na Folha, no último domingo. “Se você acha que vale arriscar só para ver o rival derrotado, lamento dizer que não estamos no mesmo time”, escreve Juca, no final de seu artigo. Com o estilo e delicadeza que lhes são característicos, Kfouri chamou a atenção ao Fla x Flu que toma conta da cena política. Discursos conhecidíssimos. Gritos ensandecidos e histéricos. A velha e conhecida verborragia petista e tucana confrontam-se diante do preocupante revés político. Quem são a vilã e o mocinho?

Eduardo Cunha, o guru da moral e dos bons costumes, verdadeiro símbolo da ética parlamentar, acelerou o processo de impeachment para escapar de processo que tramita no STF. Ele é acusado de desviar dinheiro para a Suíça, e levá-lo. Este sujeito, cujos ideais são a chantagem e a barganha, vai julgar a presidente. Dá para acreditar? Além dele, Aécio Neves – que construíra aeroporto em Minas Gerais com dinheiro público – e Ronaldo Caiado – símbolo da Casa Grande –  são ferrenhos apoiadores do impeachment. Caiado dispensa comentários. E Aécio achega-se em Michael Temer com o propósito de arrumar um cargo no possível governo dele.

 

Amor

Cada vez menos a gente o vê. Ninguém o prega. Quanto mais chulo e raivoso, melhor. Todos falam as mesmas coisas, nos mesmos lugares. Nos pontos de ônibus. Nas universidades. Nos bares. Eles estão aí, ao seu lado, e não têm compaixão alguma. Não entendem de arte. Não sabem que a mulher tem cerca de 8 mil terminações nervosas no clitóris. Não sabem satisfazê-la, nem adorá-la. “Essa Dilma é uma vaca, e tem que sair”, bradam, em plenos pulmões, das sacadas de seus milionários apartamentos. E, no bar, condenam o machismo. Paradoxal, né?

A beleza emociona-me. Sinto-me revigorado ao contemplar um Dali. Ou a assistir um Truffaut. Ah, já que toquei no cara que nascera para filmar o amor, Uma mulher para dois (Jules et Jim, em francês) é um dos filmes mais sensacionais da sétima arte. Verdadeiro ode à fraternidade, à benevolência e ao afeto – tão em falta nestes tempos de repulsa, raiva e ódio. Uma mulher para dois é o que falta para esta galera que saí por aí saudando o militarismo e empunhando teorias fascistas.

Se o lead da grande imprensa mata-nos, o amor liberta-nos. Reich – discípulo de Freud – afirmou que uma boa gozada é libertador e revolucionário. A gente expressa um contentamento ou reivindica algo ao gozar. Eu queria que o mundo fosse outro. Que as pessoas deixassem a futilidade de lado. E olhassem para dentro de si. Avaliassem sua existência. Vamos abraçar o mundo, e vamos abraçá-lo agora, como cantou Jim Morrison.

Viva o amor.

 

(Marcus Vinícius Beck, estudante de Jornalismo)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia