Brasil

Olay Costa Campos, o Araguaia é seu refúgio!

Redação DM

Publicado em 4 de agosto de 2015 às 21:57 | Atualizado há 11 anos

 

– Pedro, quer ficar aqui com o vovô?

– Ô quero!

– Então fica!

– Não! Vou com a mamãe e papai.

O atavismo é superior, foram todos, fiquei com a Santa Tereza.

Nuvens escuras e carregadas pairam por sobre a nossa paisagem, enrolei-me em um cobertor, coloquei no DVD da televisão uma música do meu amigo Mozart, abri um livro em página previamente marcada e assumi a onipresença do momento.

Quanta empatia existe entre a Santa Tereza e as minhas divagações!

O vento esfria o ambiente e as nuvens escuras tiram um pouco do encanto da paisagem. Décio, o jardineiro, molha as plantas com delicadeza, sinto que elas agradecem à benfazeja presença da água que alimentará suas raízes; o vento açoita as árvores mais altas, principalmente os eucaliptos, vergando-os com certa desfaçatez: o caule suporta galhardamente, foi preparado para isto.

Divago no espaço e no tempo, procurando me concentrar na imensidão do meu horizonte, porém, não consigo, mesmo que eu tente particularizar algum relevo ou reentrância. Todas as coisas da Santa Tereza têm sua razão de ser.

Parece um enorme projeto concebido pela natureza e que tentamos acrescentar algumas peças. Inicialmente estas parecem estar em desalinho com o arranjo, porém, à medida que o tempo passa, este “desalinho” se incorpora à paisagem e assume matizes definitivas e passa a ser parte integrante do conjunto. Se por qualquer motivo a removemos de lugar, demoramos a aceitar e acostumar com a sua falta.

Bendita Santa Tereza!

De repente parei com estas elucubrações e pensei em você amigo Olay e resolvi que deveríamos conversar; preciso saber se é verdade o que me disseram nas barrancas do rio Araguaia, no acampamento do nosso amigo comum, Juarez Lobo.

– Você não quer mais acampar nas areias do nosso rio? Não acredito!

Fazendo uma analogia entre o que a Santa Tereza representa para mim e o Araguaia para você, sou forçado a dizer-lhe que esta “cerimônia do adeus” que você, dizem que está ensaiando, me obriga a repetir-lhe o que Simone de Beauvoir disse a Sartre em uma situação semelhante a esta:

“Isso não pode ser dito, isso não pode ser escrito, isso não pode ser pensado, isso se vive, e é tudo.”

O Araguaia é o sangue que corre nas suas veias, seu curso tortuoso e suas águas barrentas, são o oxigênio que te mantém vivo.

Existe uma lenda chamada “Lenda de Saanemoser”, cujo nome advém de uma aldeia encravada nos Alpes suíços, próxima de Berna, onde, se alguém cospe no rio que é formado pelas geleiras que descem das montanhas, tem a expectativa de que a saliva desça através de vários outros cursos d’água até o Mediterrâneo, pelo Ródano ou pelo Reno até o Mar do Norte.

Sua saliva e a saliva do seu pai, provavelmente desembocaram em algum lago (Mata Corá?, Rico?, Dumbá?), na expectativa de que você, até o final dos tempos continue, com o remo da emoção, empurrando-as na busca do Atlântico.

“Não apresse o rio”, porém participe da sua movimentação; haveremos de nos encontrar muitas outras vezes nas areias brancas e macias do seu Araguaia; haveremos de desfrutar muitas outras noitadas ao som do violão do inigualável Zé Rastelli. – Você se lembra de quando você o levou ao nosso acampamento e ele ali chegou de terno azul, paletó nas costas, sapatos de verniz e meias brancas? (nosso amigo Darci de Oliveira foi buscá-lo em São José do Rio Preto, saindo de uma festa, e pousou o avião na nossa praia!) Não é possível você abandonar o rio Araguaia porque, parafraseando Georges Bernanos, acho que você ama o Araguaia por muitas razões e antes de tudo porque você nasceu para amá-lo.

Décio, com a mangueira nas mãos, continua com seu afazer, abstraído da minha presença; de vez em quando ele, talvez por sentir necessidade de fazê-lo, joga mais água em determinado arbusto ou em um canteiro de margaridas, depois volta ao antigo ritmo, agora com suavidade, porém sempre contínuo. A paisagem que se descortina é reparadora; na posição em que me encontro, uma rosa vermelha “saúda-me” com carinho, simulando a presença de uma pessoa amiga que apenas quer mostrar que está presente, porém não quer incomodar com nenhum diálogo.

O vento sopra seu caule, que não posso ver por inteiro, e os movimentos que advêm desta simbiose – caule-flor simbolizam um relacionamento de afeto dirigido em um único sentido, dela para mim.

Se eu não tivesse me sentado nesta posição em que me encontro, seguramente não teria ângulo de visão tão privilegiado, no entanto a rosa continuaria ali, balançando, exalando perfume e emitindo influxos positivos.

De mim

A rosa balança com ritmo e harmonia!

A chuva cai tranquila e macia.

Bom dia, Santa Tereza!

Para você

Chegamos ao acampamento mais ou menos às 15 horas, em Aruanã às 12, impossível passar em brancas nuvens por aquela paragem, há a inevitável lembrança do bar do Elpidio… Tomamos várias, bem geladas e fomos para o encontro com o Juarez e demais companheiros!

Seu amigo

Hélio Moreira, Santa Tereza, agosto 2015

 

(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

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