Onça, cobra, erva, “toque” e atoleiro eram o que dizimavam as criações
Redação DM
Publicado em 13 de maio de 2016 às 02:22 | Atualizado há 1 anoPelo volume de medicamentos veterinários que a gente vê nas propagandas, é de se presumir o prejuízo que o rebanho, principalmente o bovino, sofre.
Quando eu era menino, não me constava que existisse tanta doença, e, ali na parte do sertão em que vivi, apareciam, vez por outra, doenças, como a aftosa, a gambarra, a caruara, a manqueira, o mal-de-pontas, mas, que me lembre, nunca assumiu caráter epidêmico, à exceção de uma aftosona braba que deu há muitos anos, quase dizimando até a caça: os veados, abundantes nas voltas de serra, escassearam, que não se achava nem pra remédio. Tudo quanto era bicho de casco partido minguou. Forante esta que deu, doença nunca foi o deus-me-livre do sertão.
Os maiores causadores de prejuízo de gado são, tradicionalmente, nos locais brejados, o atoleiro e o sucruiú; nos morros, a erva-café; a onça, nos pés-de-serra, nos gerais, o “toque”, e a cobra, em tudo quanto é lugar.
Nos brejos existem certos lugares onde o atoleiro costuma cobrir um boi inteiro, a modo de areia movediça: quanto mais o animal se movimenta, mais se afunda; salvar um animal dum sumidouro desses é obra do acaso: só quando alguém, por sorte, passa por ali, e puxa a rês com o laço atado aos chifres (e, mesmo sendo mansa, ainda não se deu notícia de uma rês que não investisse contra seu salvador, vidrada de ferocidade).
Ainda nos brejos, outro grande inimigo é o sucruiú (ou sucuri), enorme cobrona que vive ensombrada nos pântanos rendilhados de buritizeiros. Ao sentir aproximar-se o animal, a cobrona arma o bote e, no momento exato, laça o animal pelos meios e, conservando a cauda presa numa raiz no fundo do paul, deixa a rês caminhar um tanto e depois puxa-a de volta, movimento que faz, continuada e pacientemente, até que a vítima se exaura em fraqueza, para matá-la por constrição. Já foi encontrado sucruiú com mais de 30 palmos, ou seja, mais de 6 metros, dizendo o sertanejo que chega a engolir um boi inteiro, para depois ficar em longa digestão, com os chifres atravessados na bocarra, ali imóvel, deixando nascer-lhe capim nas costas. Eu cá comigo duvido que haja nação de bicho que consiga engolir um boi, mas o sertanejo diz que há. Deix´isso pra lá, pra não cortar o fio da conversa.
Nos locais morreados, o pesadelo é a erva-café, arbusto da família das asclepi-adáceas, que, ingerida pelo gado, intoxica e mata, não sendo de todo um prejuízo completo, pois se a rês é descoberta ainda viva, ou, se morta, ainda quente, a carne pode ser aproveitada, pois na sangria o veneno se escoa no sangue, e a carne pode ser comida.
Nos pés-de-serra, a onça (antes de se rarear e virar espécie em extinção) costumava devastar as malocas pasteiras nas imediações. Enquanto a suçuarana e a lombo-preto acabavam com bezerros, porcos, potrinhos e bodes, a pintada ou canguçu não respeitavam vacas e bois: postando-se em local estratégico (geralmente um tronco ou barranco), acima do nível da vítima, salta-lhe sobre o dorso, crava-lhe as garras nas ventas, torcendo-lhe o pescoço para desconjuntá-lo e, em seguida, sangra-a, deixando-a exangue. Às vezes, deixa-a ali mesmo, vindo todas as noites comer a carniça; outras vezes, principalmente quando está parida, arrasta a vítima até perto do esconderijo, alimentando-se durante dias e ensejando a que ali caçadores se postem de tocaia para dar cabo da terrível comedeira de gado, o que nem sempre é certo, pois parece que a fera tem um sexto sentido e, às vezes, desconfiada, deixa de voltar à carniça. O veneno, que poderia resolver o problema, é arma de dois gumes: quase sempre, o faro dos cachorros é que localiza a carniça, e eles compartilham – em horários desencontrados – do banquete da bichana.
Em certos locais, notadamente nos gerais, a onça impera absoluta, fazendo com que fazendeiros – antes do Ibama – prometessem recompensas aos geralistas, que promoviam caçadas nos socavãos das serras e, lá uma vez por outra, aconteciam pegar uma pintada. Quando isso ocorria, era uma festa: o vitorioso caçador levava o couro e a pata da onça para provar – como autêntico troféu – que matara a fera, a fim de receber a recompensa prometida. E a esperteza do geralista, que não é besta nem nada, fazia-o andar com o couro e a pata peregrinando de fazenda em fazenda, com a mesma conversa, e vezes havia quem recebesse várias recompensas. Quando, por acaso, era descoberta a trama, o geralista safava-se muito bem, dizendo que a onça dava prejuízo em todas as rodeanças.
Conta-se o causo de um fazendeiro meio tinhoso que encontrou um agregado com um couro de onça no ombro e indagou apontando:
– É onça?
O outro respondeu:
– Nhor não, é couro!
O fazendeiro cerrou o cenho e voltou à carga:
– O couro é seu?
– Nhor não, é da onça, ora tá!
Sem querer encompridar conversa, voltou:
– É pra vender?
– Se Deus quiser!
Aí, o fazendeiro quis matar de vez o papo:
– E se Deus não quiser?
E a conversa morreu com a resposta:
– Se Ele não quiser, eu vendo pra outro.
Outro prejuízo muito comum é o “toque”, embora pouco conhecido. Na seca, levava-se o gado para o refrigério dos gerais, por causa da vegetação dos brejos (hoje, o Ibama proibiu). E nas águas, ele retornava do refrigério para as fazendas. Quando chove nos gerais, a água, ao respingar na areia, faz com que esta se impregne nas folhas do capim, que, ao ser comido, enche o bucho do gado de areia, empanzinando-o e causando-lhe a morte. Diz-se, então, que o gado morreu “tocado”.
Para prevenir-se, o sertanejo apegava-se às rezas, pois remédio não há para deter onça, acabar com atoleiro e evitar “toque”, como se já não bastasse a jararaca, a cascavel e jararacuçu e a tira-peia, que fazem a diabo.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

