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Opinião: Indicações políticas para cargos em estatais são grande fonte de corrupção

Redação DM

Publicado em 22 de março de 2018 às 22:37 | Atualizado há 8 anos

A Cai­xa Eco­nô­mi­ca Fe­de­ral in­cor­po­rou ao seu es­ta­tu­to li­mi­ta­ção das in­di­ca­ções po­lí­ti­cas pa­ra car­gos de di­re­ção do ban­co. Es­sa de­ci­são deu-se pou­cos di­as de­pois de qua­tro dos seus di­re­to­res ser afas­ta­dos de su­as fun­ções por sus­pei­tas de ir­re­gu­la­ri­da­des. To­dos ha­vi­am si­do in­di­ca­dos por par­ti­dos ali­a­dos do go­ver­no do pre­si­den­te Mi­chel Te­mer.

A li­mi­ta­ção é um avan­ço, con­si­de­ran­do que in­di­ca­ções po­lí­ti­cas pa­ra car­gos em ins­ti­tu­i­ções pú­bli­cas são fon­tes ines­go­tá­veis de cor­rup­ção. A his­tó­ria re­cen­te do nos­so pa­ís nos ofe­re­ce vá­rios ca­sos de ir­re­gu­la­ri­da­des. Um dos mais co­nhe­ci­dos en­vol­ve Pau­lo Ro­ber­to Cos­ta, que foi in­di­ca­do pe­lo PP em 2004 pa­ra a Di­re­to­ria de Abas­te­ci­men­to da Pe­tro­bras. Cos­ta che­fiou um es­que­ma no qual 3% dos va­lo­res de con­tra­tos de em­pre­sas pri­va­das eram des­ti­na­dos aos co­fres do pró­prio PP e tam­bém do PMDB e do PT. A Po­lí­cia Fe­de­ral des­co­briu sua li­ga­ção com o do­lei­ro Al­ber­to Yo­us­sef, de­sen­ca­de­an­do o que ho­je é a Ope­ra­ção La­va-Ja­to. Atu­al­men­te, ele es­tá em pri­são do­mi­ci­li­ar, en­quan­to a Pe­tro­bras vai aos pou­cos re­cu­pe­ran­do sua re­pu­ta­ção.

Quan­do ques­ti­o­na­do so­bre as ir­re­gu­la­ri­da­des, o pre­si­den­te Te­mer dis­se que in­di­ca­ção não é cri­me. Dis­so já sa­be­mos, mas se as in­di­ca­ções po­lí­ti­cas têm his­tó­ri­co de pro­ble­mas nas es­ta­tais e pro­mo­vi­do a cor­rup­ção, não se­ria a ho­ra de mu­dar es­se pro­ces­so?

Além des­se pro­ble­ma, as in­di­ca­ções po­lí­ti­cas cau­sam pre­ju­í­zos fi­nan­cei­ros. Is­so ocor­re por­que uma boa par­ce­la dos in­di­ca­dos não tem ca­pa­ci­da­de de ges­tão. Bas­ta lem­brar dos seis vi­ce-pre­si­den­tes dos Cor­rei­os afas­ta­dos em 2017 por fal­ta de qua­li­fi­ca­ção téc­ni­ca, to­dos in­di­ca­dos pe­la Ca­sa Ci­vil de Te­mer. Tam­bém foi nos Cor­rei­os que nas­ceu o es­cân­da­lo do Men­sa­lão, em 2005, quan­do um ví­deo mos­trou um dos seus exe­cu­ti­vos ne­go­ci­an­do pro­pi­na com em­pre­sas e agin­do em no­me do de­pu­ta­do Ro­ber­to Jef­fer­son.

O afas­ta­men­to dos seis vi­ce-pre­si­den­tes dos Cor­rei­os so­men­te foi pos­sí­vel de­vi­do à Lei das Es­ta­tais, que en­trou em vi­gor em 2016 exa­ta­men­te pa­ra evi­tar que po­lí­ti­cos be­ne­fi­ci­em ami­gos em tro­ca de fa­vo­res. O tex­to fa­la ape­nas em in­di­ca­ção de pes­so­as com re­pu­ta­ção ili­ba­da e com­pro­va­ção de ex­pe­ri­ên­cia pro­fis­si­o­nal. Po­rém, a lei não tem si­do su­fi­ci­en­te por­que não bas­ta cri­ar re­gras a ser se­gui­das pe­los mem­bros dos par­ti­dos. Re­gras que, con­ve­nha­mos, são ób­vias.

Pa­ra aca­bar com o pro­ble­ma de fa­to ou di­mi­nu­ir as ir­re­gu­la­ri­da­des, car­gos em es­ta­tais não po­dem fi­car à mer­cê de po­lí­ti­cos e seus in­te­res­ses pes­so­ais.

Co­mo se não bas­tas­sem os pro­ble­mas de cor­rup­ção e ges­tão, os sa­lá­ri­os pa­gos aos pre­si­den­tes e di­re­to­res de es­ta­tais são es­can­da­lo­sos. No Ban­co Na­ci­o­nal de De­sen­vol­vi­men­to Eco­nô­mi­co e So­ci­al (BNDES), por exem­plo, a re­mu­ne­ra­ção de di­re­to­res e do pre­si­den­te ul­tra­pas­sa os R$ 80 mil. O au­xi­lio-ali­men­ta­ção é su­pe­ri­or aos R$ 1.500, va­lor que gran­de par­ce­la dos bra­si­lei­ros se­quer re­ce­be co­mo sa­lá­rio men­sal.

A mu­dan­ça é ne­ces­sá­ria, mas di­fí­cil, con­si­de­ran­do que nos­sos po­lí­ti­cos não que­rem ‘lar­gar es­se os­so’. En­quan­to as in­di­ca­ções fo­rem uma prá­ti­ca cor­ri­quei­ra, a ima­gem do Bra­sil con­ti­nu­a­rá a ser man­cha­da por es­cân­da­los de cor­rup­ção, en­quan­to o tra­ba­lha­dor bra­si­lei­ro, que é con­tra ca­bi­des de em­pre­go, se­gui­rá in­jus­ti­ça­do e pa­gan­do a con­ta des­ses des­man­dos.

 

(An­to­nio Tuc­cí­lio, pre­si­den­te da Con­fe­de­ra­ção Na­ci­o­nal dos Ser­vi­do­res Pú­bli­cos – CNSP)


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