Brasil

Os antecedentes da Transposição do São Francisco

Redação DM

Publicado em 22 de outubro de 2022 às 00:05 | Atualizado há 4 anos

Esqueça Jair Bolsonaro e Lula. A briga dos dois não revela quem é, de fato, o “pai” da Transposição do São Francisco – curiosamente o único tema de interesse público que foi debatido no segundo turno das eleições presidenciais – ‘guerra’ até aqui dominada por uma das maiores batalhas de fake news e desinformação da história.  
O ‘pai’ da transposição também não é Dom Pedro II, que se entusiasmou com o projeto no século 19 e, junto aos representantes do Senado Imperial, deixou por isso mesmo, acumulando algumas dezenas de projetos de lei sem tramitação. Fala-se em Dom Pedro II, mas diversos deputados e senadores se despertaram para a demanda antes. De boas intenções, diz o ditado, o inferno está cheio.
A proposta da transposição apresentada formalmente há 16 anos, durante a gestão do primeiro mandato de Lula, só agora começa a ser de fato finalizada. O marco zero, oficial, é este: começou com Lula em 2006 e termina com Bolsonaro, em 2022. Custo pode chegar a R$ 14 bilhões, dez vezes mais do que o previsto.
Atualmente, os eixos Leste e Norte da Transposição do São Francisco são considerados obras concluídas. Há dois anos, as águas saíram de Pernambuco (o estado doador) e chegaram ao Rio Grande do Norte e Ceará. Segundo a atual gestão, apenas 31,54% de todo o Eixo Norte estava em funcionamento há dois anos. 
Nos debates, Lula diz que fez quase tudo e Jair Bolsonaro pouco menos de 4%, que, por sua vez, diz que a obra seguia inconclusa para alimentar a histórica corrupção do PT. É um embate eleitoral que não volta na história e sequer valoriza outros envolvidos na luta por maior dignidade do povo do Nordeste. 
É aqui que entram dois presidentes do regime militar (Ernesto Giesel e João Figueiredo), o pequeno fazendeiro Crecêncio Bruno da Silva e seu filho João Bosco, que defende a existência de um “pai” da transposição distante dos holofotes da disputa política. 
Ex-integrante do Exército Brasileiro, João Bosco lembrou, em entrevista para a rádio Paz FM, com sensibilidade, uma história de família guardada a sete chaves: “Meu pai doou as terras para a construção da Chesf Sobradinho”.
Trata-se da eclusa programada em 1972 na Bahia, quando o regime militar resolveu agir para trazer água a alguns dos municípios da região. 
A relação com a transposição (obra futura, mas não independente) começa pelo amplo aproveitamento hidrelétrico. Sobradinho está instalada no São Francisco, com área de drenagem de 498.968 km2 e uma bacia hidrográfica de 630.000 km2. Abrange desde sua nascente na Serra da Canastra, em Minas Gerais, até a foz em Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande(SE).
Tal usina tem a função de geração de energia elétrica, por certo, mas é também fonte de regularização dos recursos hídricos da região.
Este reservatório tem cerca de 320 km de extensão e superfície de espelho d’água de 4.214 km2, bem como capacidade de armazenamento de 34,1 bilhões de metros cúbicos em sua cota nominal. É, desta forma, o maior lago artificial do mundo.
Mas e Crecêncio Bruno da Silva? Bom, ele estava em suas terras quando o Governo Federal apresentou o projeto grandioso na região do São Francisco.
Crecêncio aceitou doar suas terras para o governo abrir veios de água que matariam a sede dos nordestinos.
Ao Diário da Manhã, João Bosco apresenta inúmeros documentos, títulos e declarações para comprovar como o pai ajudou a criar a Usina de Sobradinho, inaugurada em 1980. É hoje um herói, pois enfrentou no peito as pressões e críticas da época.
Na década de 1980, João Bosco era motorista de João Batista Figueiredo e testemunhou a liberação de um dos geradores.
Foi na gestão de Ernesto Geisel (1974-1979) que a eclusa começou, de fato, a sair do papel. E no dia 27 de junho de 1980, com a presença de Figueiredo, inaugurada para “reestabelecer a navegação no Rio São Francisco”. 
Consequências
De acordo com João Bosco, seu pai, após entender o caráter público da obra, acreditou que a população do Nordeste seria beneficiada. “Mas por outro lado, ele sofria preconceito. Muita gente não concordava com a criação da usina. E aquilo magoava meu pai”, diz.
Quatro anos depois, Crecêncio morreria com um ataque de coração, nas mãos do filho. Trabalhava na roça quando chamou João Bosco e relatou a dor.
Para o filho, as lembranças são emotivas, uma vez que sabe como ninguém as consequências dele doar as terras para criar a Usina de Sobradinho. 
Em um processo rápido houve a implantação do projeto, cuja inauguração se deu em 1984. Representou o presidente da República o então ministro do interior Mário Andreazza, que realmente mergulhou de cabeça na busca de soluções para os moradores do Nordeste.
Documentos
Um dos documentos apresentados por João Bosco mostra que seu pai pediu fim de pagamentos de tributos do ITR, uma vez que doou suas terras para a “Superintendência do São Francisco”. 
A desapropriação está toda documentada pela família, em papéis do Incra, Cartórios de Registro de Imóveis e certidões.
Antes de tudo

João Bosco explica que a região do São Francisco teve várias iniciativas que visavam melhorar a vida da população. “São iniciativas que eu vi, que presenciei. Quando falam do São Francisco, eu digo: eu sou testemunha, junto com meu pai”, diz.

Ele cita, por exemplo, os projetos de irrigação iniciados em Petrolina nos anos 1970, caso do “Projeto Experimental de Bebedouro”. Sob o governo dos militares, foi dado início ao “Projeto Massangano” no início de 1980, pela força política do senador Nilo e deputado Osvaldo Coelho. “O senador Nilo Coelho não chegou a participar da inauguração da grande obra, pois faleceu no final de 1983, sem ver o resultado brilhante do seu grande trabalho de liderança política em Pernambuco”. Conforme João Bosco, em um processo rápido houve a implantação do projeto, cuja inauguração se deu em 1984. “Veio representar o presidente da República o então ministro do interior Mário Andressa”, recorda.

Ele explica que a família Coelho de Petrolina era da base de sustentação política dos militares e isso “facilitou a aprovação do projeto, que tinha a previsão de ser a redenção dessa região”.

Depois, surgiu o projeto Maria Teresa, que ajuda a “região a ser a maior exportadora de mangas e uvas do Brasil”.

Conforme João Bosco, o deputado Osvaldo Coelho, seu irmão, tomou a frente da iniciativa, “trabalhando ativamente na consolidação do grande empreendimento da fruticultura irrigada”.

O êxito foi enorme, diz o entrevistado, o que fez com que Osvaldo Coelho conseguisse para Petrolina dois outros grande projetos: o Maria Teresa e o Pontal

O projeto Pontal, ainda em sua fase inicial de implantação, explica, se firma para “uma transformação maior de toda região”.

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