Os labirintos, os sentidos, os sonhos
Redação DM
Publicado em 19 de janeiro de 2016 às 00:43 | Atualizado há 10 anosÀs vezes sonhamos estar visitando os labirintos de um palácio encantado. De repente, o susto: onde está a porta de saída? Acordamos sobressaltados e atinamos com um fato real: estávamos na verdade flutuando num barco de ilusões representado, por exemplo, por fantasias amorosas. E agora, qual seria a saída dessa situação enganosa?
Um senhor idoso vê-se envolvido, em sonho, por duas lindas adolescentes e recorre a um amigo para entretê-las enquanto se prepara para enfrentar a tentadora aventura amorosa. O amigo segue com elas à sua frente num veículo veloz e o velho amigo, ficando para trás, não consegue alcançá-los. No trajeto atravessa rios, galga montanhas, salta abismos e eis que, à distância, os avista numa tenda iluminada por janelas de cristais.
E o sonho prossegue entre o para trás e o para frente. Mas para chegar à tenda iluminada no alto da montanha, deveria o retardatário empreender uma escalada íngreme, numa pista estreita, com degraus escorregadios. Sentindo-se incapaz de vencer a rampa e chegar ao topo da montanha, parou desalentado no septuagésimo segundo andar da escalada. Súbito, acorda desse estranho sonho.
O que significaria? Surgem as inevitáveis indagações, dentre elas, uma que lhe invadiu a mente. O número setenta e dois seria o do cobiçado prêmio da loteria? Se fosse ao psicanalista, este certamente explicaria ao freudiano sonhador que os setenta e dois degraus representavam simbolicamente seus setenta e dois anos de idade que o impediam de usufruir daquelas duas musas impossíveis.
OS SENTIDOS
Nossos sentidos percebem, captam e excitam nossas ações físicas a serviço da alma. A alma, ligada ao corpo, se conecta ao espírito livre, que substitui os sentidos enquanto nosso corpo está adormecido. Daí os sonhos serem a compensação de nossas ações frustradas, sejam enquanto tendências negativas sejam enquanto desejos construtivos.
Longe de ser uma simples fantasia ou desorganização da mente, o sonho consiste na organização do nosso mundo inconsciente. Eis que é através dos sonhos que o nosso eu-profundo é explicado pelo espírito.
OS SONHOS
Assim como a mente consciente não consegue harmonizar todas as situações que se processam em nosso cérebro, ao mesmo tempo, a mente inconsciente, no sonho, não consegue reter todas as imagens reveladas pelo espírito para organizar nossa vida psíquica. O sonho se torna portanto a explicação daquilo que poderia ter sido e que não foi. É pelo sonho que geralmente o espírito nos guia e nos educa.
Se as criaturas humanas não sonhassem, o que seria de sua realidade existencial? Se o espírito não nos ajudasse pelos sonhos, o que seria de nossa vida subjetiva? Se em vez de procurar um psicanalista, você contasse a um poeta o sonho motivador deste texto, certamente o poeta louvaria a sua sonhação amorosa, dizendo que tudo se resolve em poesia.
Da angústia nasce um amor do amor perdido. / Um amor que é antiamor: o outro lado / revelador do que poderia ter sido / e que não foi, futuro do passado. / Só a angústia revela o inesperado / que era a ilusão do sonho prometido, / do sonho que não foi realizado / e ficou como sonho a ser vivido.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])