Brasil

Padre Magalhães e o discurso de Diógenes

Redação DM

Publicado em 17 de janeiro de 2017 às 01:06 | Atualizado há 10 anos

Em muito má hora sacaram o latim das escolas. A cada dia, a fragilidade do conhecimento do vernáculo vem gritando pela volta do latim, como se, de repente, houvessem bombardeado os alicerces de língua. Achamos injustificável, inoportuna, essa proscrição. Não por ser fácil ou gostoso de se estudar, mas por nos colocar nas mãos a razão de ser da Flor do Lácio, além de desenvolver o raciocínio na dança das declinações.

Até os anos sessenta, o latim começava na antiga primeira série ginasial (que hoje é a sétima), com os rudimentos da língua; passava pela  segunda, com a História de Roma, de Eutrópio; pela terceira, com as famosas fábulas de Fedro, encerrando-se na quarta, com o “De Bello Galico”, de Júlio César. Quando se chegava ao colegial, que hoje apelidam de Segundo Grau, já se tinha sólida base do português, de tanto dissecar o acusativo, o dativo e o ablativo, o genitivo, o nominativo e o vocativo, facilitando a incursão nos meandrosos terrenos da Gramática Histórica, paralelamente ao estudo de Virgílio, com sua “Eneida”, as “Geórgicas” e as “Bucólicas”.

Sempre que me vem à mente o latim, que estudei bem uns nove anos, lembro-me do padre Magalhães, profundo conhecedor do “sermo urbanus”, não só pelo seu ofício de rezar missa (na época, em latim), mas também pelo espírito perfeccionista de que era detentor, um artista da língua, aparando as arestas, adocicando as curvas e incrustando em seus escritos pepitas de raríssima sabedoria e gosto, cinzelando um monumento literário que nos extasiava, apequenando a mais perfeita das composições que fazíamos.

Com muito mérito, o padre Magalhães foi personagem de uma obra, do nosso magistrado dianopolino Abílio Aires Wolney Neto, cujo título já diz tudo: “Um homem além do seu tempo”, em que traça a trajetória do grande benfeitor da educação e da cultura de nossa região.

Duro, inimicíssimo de “cola”, padre Magalhães bebera no seminário do Caraça, em Belo Horizonte, ensinamentos que lhe transmitiram os sempre lembrados padres Orlandos: um Machado; outro, Vilela. O certo é que, sempre inflexível, enfiou nos nossos moucos ouvidos rudimentos do hebraico, do grego e outras gatimônias linguísticas, assustando-nos quando rabiscava na lousa caracteres cirílicos, parecendo sapinhos-de-rabo, que estavam muito além das fronteiras do nosso conhecer.

Professor de português, francês e latim, extrapolava suas cadeiras, levando-nos a um passeio imaginário em todos os campos do conhecimento. E o esforço do velho mestre, que víamos com asco e até antipatia, deitou raízes sólidas num Carlos Alberto Wolney, que escondia atrás da imensa modéstia um poço de capacidade, continuando a obra do padre Magalhães, num Tasso Jacobina, grande orador estudantil e apaixonado acordeonista bissexto, que mora em Salvador.

Em 1955, ele, diretor do respeitadíssimo “Ginásio João d´Abreu”, entregou à comunidade a primeira turma de formandos.: Aldenor, QuIen, Diran, Raulinson, Gerson, Hércules, José Leal, Bera, Nem de Vivina, Maria Cotinha, Perizinho e Tasso.

A muque, se preciso, o velho mestre obrigava-nos a aprender, desde o “hic-haec-hoc” até raízes de verbos, que para nós soavam como excrescência lingüística, sem se falar numa universalidade de conhecimentos da literatura mundial, pois no ginásio conhecemos Kant, Erasmo de Roterdam, Dante, Petrarca, Shelley, Paul Claudel, Paul Valéry e todos os expoentes da literatura mundial. Ali naquele interiorzão, que era ainda mais inóspito, tivemos contato com as obras de Torquato Tasso, Ariosto, Boccaccio, Maquiavel, e soubemos o que eram Mahabharata e Ramaiana e quem havia sido Omar Khayan.

Como professor polivalente, ou como diretor do ginásio, era respeitado, e ai daquele que ousasse negar o corpo quando ele determinava:

– No Sete de Setembro você vai falar! – era a lei, ninguém escapava.

Vi Zilmar, vi Bera, vi Candinho e outros mais tímidos tremerem diante da de-terminação do padre, mas nada o dissuadia – era para falar e estava acabado!

Dentre os mais tímidos, estavam os filhos de Afonso Carvalho, principalmente Diógenes, que numa data cívica qualquer, foi “premiado”:

– Você vai fazer a saudação! Vai falar no “Dia da Bandeira”!

Seguraram Diógenes, senão ele caía. Não podia correr; desistir era inútil, ainda mais que estava no ano de concluir o ginásio, seu nome estava nos convites e sua recusa ou ausência no dia poderia causar-lhe uma suspensão. Quis desmaiar, bebeu água com açúcar, mandou pistolões intercederem junto ao padre. Foi o pai, coronel Afonso; foi a mãe, Mariquinha, que era do Apostolado da Oração, pra convencerem o padre. De nada valeu: ia discursar, e pronto!

Pediu que o ajudassem no discurso. De preferência, curto. Fez. Decorou. Redecorou. Nos fins-de-semana, ficava Diógenes, olhos fechados, recitando; na Bi-quinha, na hora do banho, reunia a companheirada e falava o discurso inteiro; depois de aprendê-lo de cabo a rabo, sabia até recitá-lo de trás pra frente.

Perto do dia, reuniu a sala e ensaiou diante da turma, como teste de desinibição. Passou magnificamente. De tanto recitar, muitos colegas também já conheciam de cor, e quando Diógenes começava: “Nesta manhã ensolarada…”, alguém, que já sabia o resto, prosseguia: “…em que o pavilhão tremula, acenando para a liberdade…”.

No dia, ele estava na fila, todo senhor de si, e enquanto entoavam o Hino Na-cional, ele batia bico, dando a última ensaiada. Estava calmo, aguardava só a cha-mada de seu nome, que logo veio:

– Ouviremos a palavra do aluno da quarta série Diógenes Aires Carvalho! – anunciou um aluno, fazendo as vezes de mestre-de-cerimônias.

Diógenes subiu a calçada, onde se enfileirava, perlongando o alpendre fronteiro do Colégio todo o corpo docente) e postou-se costas para os professores e de frente para a Bandeira Nacional, hasteada sobre a cabeça dos duzentos e tantos alunos dispostos em filas por séries. Atrás dele, o padre Magalhães, as madres Aránzazu, Belém, Consolata, Stella, Glória, Anunciata e outras e outras sisudas beatas em pose de estátua.

Diógenes parou um pouco, fez pose, raspou a garganta e começou entusias-mado, com voz empolada, gestos e tudo: “Nesta manhã ensolarada, em que o pavilhão tremula acenando para a liberdade…”

Naquele momento, o padre, que estava logo atrás, com Diógenes quase lhe pi-sando os pés, cutuca-lhe as costas discretamente e sussura:

– Chegue pra frente, meu filho!

Quando sentiu o toque do padre Magalhães nas costas e o sussurro soprar-lhe o pé do ouvido, Diógenes parou. E não houve jeito de continuar. Com o cutucão do padre, tinha esquecido o resto do discurso.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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