Brasil

Palavras e gestos

Redação DM

Publicado em 11 de junho de 2016 às 02:33 | Atualizado há 10 anos

Se atarem firmemente as mãos de um italiano que fala, pode ser que ele pare de falar e fique fatalmente mudo, impossibilitado de se expressar se não agitar freneticamente as mãos pra lá e pra cá, traçando evoluções no ar, como se desenhasse no nada, sem descrever nem uma linha sequer. Cremos até que ele fique irremediavelmente mudo e não fale nunca mais se tiver as mãos amputadas em um acidente de automóvel. Isto porque o povo da Itália fala muito com as mãos quando fala celeremente com a boca. Isto porque o ser humano como um todo não se exprime apenas com a boca. Há, além dela, as mãos, os olhos, enfim o corpo inteiro pra expressar e comunicar.

A dança, por exemplo, é uma forma de comunicação e expressão corporal. Nem há duvidar. A gente tem as palavras e gestos pra dizer coisas boas e ruins.

Clifford Geertz, por sua vez, na sua indispensável A Interpretação das Culturas (1989) fala de uns olhos, melhor, de três gestuais deles: as piscadelas por conspiração com um amigo, as piscadelas por imitação, as piscadelas ensaiadas, a se distinguirem, através daquilo que ele chama de descrição densa, dos movimentos oculares involuntários ou tiques nervosos.

Sem falar daquelas piscadelas habituais, que se dão a todo instante, mesmo agora enquanto o presente articulista escreve e pisca sem-parar.

Mestre mesmo, se questão aqui é falar do gestual, é o comentarista de assuntos internacionais da Globo News, Renato Galeno, filho, neto, quem sabe bisneto de italianos, que, ao discorrer sobre os mais graves fatos mundiais, no programa Estúdio i, apresentado por Maria Beltrão, vai mexendo adoidado as mãos, descrevendo desenhos no ar.

Há enfim, na comunicação corporal, palavras e gestos. Os gestos complementam as palavras.

Depois da boca, as mãos, apesar de mudas, inobstante silentes, são aquelas que mais falam, mais gesticulam, sendo as auxiliares mais próximas e fiéis daquela, a boca, senão substitutas daquela, uma vez que complementam o seu trabalho de emitir palavras, não obstante se situem relativamente distantes da boca, ao passo que os olhos, mudos igualmente de nascença, tão próximos dela, a nossa boca, que deviam ser os mais íntimos dela, tão ativos e vivos e lindos, cremos que, na realidade, desempenham ou foram relegados a um terceiro ou quarto lugar na comunicação. Apesar de um só mero flerte, que em inglês se grafa flirt, puder exprimir mais pecado e sedução do que mil bocas e mãos juntas.

O poeta Leo Lynce, precursor do Modernismo em Goiás, avô do presente articulista, cuida, em crônica de 15 de fevereiro de 1912, estampada no jornal O Jataí (O Jatahy, na ortografia de então), precisamente do flirt, essa empatia gestual do olhar. Tal palavra ou anglicismo não tinha ainda, nesse princípio do século XX, sido adaptada para a forma portuguesa atual, o flerte. Pois bem, conforme o poeta:

O flirt é a primeira nota na escala do amor; é a prece e o incenso que dos corações amantes sobem para o objeto amado. Que haverá de mais encantador sobre a terra do que um sincero e profundo olhar de amor?

O cronista expõe, linhas depois, os seguintes versos:

 

O flirt é um sonho dourado

sobre um rio atravessado;

todo luz…

 

Amor é o nome do rio.

Quem não sabe andar no fio

catrapus!

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre pela PUC-Goiás em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)

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