Brasil

Polícias não se misturam?

Redação DM

Publicado em 14 de outubro de 2015 às 23:49 | Atualizado há 11 anos

Vou começar este artigo com frases que já mencionei aqui por mais de uma vez: O inquérito é a peça mais arcaica de nosso sistema jurídico; Ciclo completo que não leva isto em conta está enganando a população; Quem não tem competência não se estabelece; A concorrência é boa para o cidadão; Polícias protegidas em nichos depõem contra a segurança da população; O delegado pode e deve ser muitissimamente melhor aproveitado neste sistema; As discussões sobre segurança no Brasil precisam aceitar a realidade das guardas civis; Um sistema único de segurança pública, como o da saúde, está com atraso de 30 anos no Brasil.

O tema ciclo completo de polícia avança de forma atabalhoada e lenta, mas está chegando aos Estados. Recentemente, na Assembléia legislativa paulista houve um intenso debate por lobs das duas principais polícias que conhecemos, a PM e a PC. Vaias de ambos os lados, cadeiras marcadas para uma e outra representação e faixa separando a plateia. Ficou patente que estas corporações nunca estiveram de fato unidas, que não se preocupam com o que é melhor mas que cada uma quer proteger seus interesses. Pelo menos, é o que insinuavam. Como tudo que acontece no Brasil, querem reserva de mercado. Daí, tudo que me tira exclusividade é contra meu interesse e me expõe numa selva para a qual não sei se estou pronto. É preciso sangue frio para discutir o assunto com maturidade. Quem se habilita? Espero que não sejam pseudo-especialistas querendo manifestar seu grande conhecimento adquirido nos “estudos e análises”, mas sem nem um minuto de vida prática.

A discussão sobre ciclo completo tocou numa ferida que acabará sendo bom para o País. Se buscado com seriedade, poderemos achar as soluções que procuramos. Mas é preciso desarmar nossos espíritos e discutir o assunto com serenidade. Essa imensa campanha de desmoralização que uma instituição tem patrocinado contra a outra em nada contribui. Antes, desinforma. Está na hora de as polícias virarem o jogo e assumir o papel de mediadoras. Cada uma dizendo o que precisa de fato mudar no seu quintal, ao invés de apontarem para o quintal alheio. Aceitar que a mudança me tirará algum conforto mas que, ao fim, todos ganharão. O que queremos afinal? Segurança pública de qualidade para todos.

A população precisa enxergar e defender mudanças reais no sistema de segurança pública. Campanhas de difamação não podem ser aceitas passivamente, nem repassadas em redes sociais. As policias brasileiras têm um histórico de serviços prestados que não podem ser desprezados. As mudanças precisam ser recebidas de cabeça erguida. Vivemos o advento das guardas civis, que é preciso ser recepcionado pelo sistema. E porque não citarmos a polícia tecnico científica, o bombeiro militar, etc? Então, de mãos dadas, precisamos apresentar as soluções que venham de fato contribuir para a melhoria da segurança publica nacional.

O ciclo completo é aterrorizante porque rompe definitivamente com um sistema que não funciona mas que está bem sedimentada institucionalmente. A partir daí, outros temas surgirão e eu já os mencionei na introdução deste texto. Agora, sua grande contribuição será a possibilidade de a população poder avaliar as empresas que lhes está oferecendo o serviço. A concorrência obrigará a todos melhorar seus serviços para ganhar a simpatia e fidelidade do cliente. Haverá, sem dúvida, ganho para a sociedade.

Para lá do ciclo completo, é preciso repensar o sistema penal. A melhoria na qualidade das Policias, fatalmente refletirá no nosso já cambalido sistema judiciário e prisional. E o Judiciário está se movendo para acompanhar tais mudanças? A justiça brasileira está pronta para lidar com policias verdadeiramente eficientes? Quem possa contribuir que venham para a discussão. Mas venha de mente aberta para ouvir inclusive o que não lhe parece bom.

 

(Coronel Avelar Lopes de Viveiros, comandante do policiamento ambiental de Goiás)

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