Psiquiatras que não fazem psicoterapia, não conversam muito com seus pacientes, correm o risco de ter morte no curriculum
Redação DM
Publicado em 10 de agosto de 2015 às 22:24 | Atualizado há 11 anosRecentemente, em Goiânia, um paciente matou a namorada e suicidou-se em público. Na mídia falava-se que “estava em tratamento psicológico”, nada mais. Agora o mistério parece estar-se revelando. Uma médica me escreveu: “Marcelo, atendi num posto de saúde um paciente bipolar, parente próximo daquele paciente que matou a namorada e suicidou-se (portanto, é de esperar-se que ele era bipolar também).” Acho que o suicida tinha profissão que permitia porte de arma. O laudo do médico, que eu vi, de um médico que se diz psiquiatra, fala que “ele está bem da Psiquiatria”, mas que, tudo segundo a família, teria de procurar psicóloga, para fazer psicoterapia (está escrito mesmo no laudo). Poucos dias após de receber este laudo dizendo que ele não tinha nada – e que poderia até trabalhar – ele suicidou-se e matou a namorada.
Eu respondo: caro colega, de fato é lamentável e mostra, ao meu ver, certo “descuido” com uma especialidade que muitos metem a mão (por exemplo, a maioria dos médicos que atendem psiquiatria no Governo não são psiquiatras), ou a fazem superficialmente e sem profundidade diagnóstica/psicopatológica. Talvez porque “são doenças que não saem sangue”, mas, como se vê, nem por isto deixa de matar (não só a si, mas os outros).
Mostra também grande incongruência no laudo que diz que ele não tem nada do ponto de vista psiquiátrico, mas o manda para psicóloga. Como é que é isto ? Existe alguma “doença psicológica” que não seja psiquiátrica? No meu entender, o que é “psicológico” não pode adoecer, pois a definição de “psicologia” refere-se ao psiquismo normal (assim como a definição de “psiquiatria” refere-se a um psiquismo anormal). Se alguém está com um psiquismo disfuncional – esta é a primeira lição em psiquiatria – ele deve estar com uma doença biológica, ou seja, se ele tem uma “disfunção psicológica”, na verdade, isto reflete uma doença psiquiátrica. Não há como ter uma disfunção psicológica, que requer psicoterapia, sem ter um problema psiquiátrico…
Se um paciente psiquiátrico precisa de psicoterapia ele deixa de ser psiquiátrico? É possível um psiquiatra aprofundar na mente de um paciente sem iniciar ou fazer uma psicoterapia com ele? É possível tratar de problemas psiquiátricos, só “superficialmente”, isto é, separando o que é “farmacológico” do que é “psicológico”? (coisa que nem os maiores gênios da humanidade conseguiram? – vide, p.ex., Espinosa, Kant, Freud, etc). Acho que esta tragédia que aconteceu mostra muito bem a minha tese: psiquiatra que não conversa muito e profundamente com seu paciente está sujeito à picaretagem (e à morte ). “Atender rápido para ganhar em número de consultas” não é uma boa opção em psiquiatria, assim como em toda a Medicina. Psiquiatra que não se aprofunda na psicopatologia do paciente, não conversa com ele, com a família, com a namorada (ou seja, em tese, fazendo psicoterapia), ao meu ver, corre o grande risco de caminhar para a picaretagem.
É claro que este paciente tinha uma grave psicopatologia, talvez não identificada porque o médico, ao invés de aprofundar-se nele, resolveu delegar esta função para a psicóloga… Portanto, o psiquiatra fazer psicoterapia, ao meu ver, não é apenas uma questão ética, moral, “mimimi”, “coisinha de mulher”, frescura, mas sim uma premente necessidade Técnica.
Os médicos, no Brasil, premidos por uma política governamental nefasta, não deveriam aderir ao “caminho aparentemente mais fácil”, ou seja, atender rápido, superficialmente, sem “conversar” com o paciente, “mandar o paciente conversar com a psicóloga”, mas sim lutarem para que suas condições de trabalho possam permitir uma prática profissional adequada.
No caso aqui em discussão, bastava uma simples pergunta do médico: “Há doenças mentais graves na família?” – para ficar com um pé atrás no diagnóstico, ou seja, evitar-se de dizer que o “paciente não tem nada do ponto de vista psiquiátrico”. Com a resposta de que havia sim, casos graves de psicose na família, o médico teria evitado de dizer que o paciente não tinha nada, ou poderia refazer o diagnóstico inicial (que foi o de um simples “transtorno de ajustamento e estresse”) para uma perigosa depressão bipolar.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)