Brasil

Quando a chuva termina

Redação DM

Publicado em 15 de julho de 2016 às 02:02 | Atualizado há 10 anos

O queixo estava apoiado nas costas das mãos, cujas palmas encontravam descanso firme na empunhadura do guarda-chuva preto salpicado por gotículas da chuva que havia pouco se acabara. Sentado, via o tempo ganhar luminosidade solar pela janela velha do escritório escuro e abafado. Não estava morto a ponto de o coração suprimir o pulsar silencioso nem vivo o suficiente para esboçar qualquer reação.

Havia um pouco de mofo sobre a parede clara próxima ao banheiro. Poderia ser uma infiltração ou resultado de uma goteira insistente a escorrer do teto. Os olhos esverdeados pairavam sobre a esclerótica branca como duas grandes goiabas imaturas a fitar a rua lá fora. Aquele homem murmurava alguma coisa inaudível à média distância. Os dedos calosos, certamente por força de atrite ou atividade laboral, vez ou outra se contraíam em movimentos curtos e breves, como num curto circuito muscular.

Na ponta do guarda-chuva havia se formado uma pequena poça de água. O azulejo permanecia incólume ao volume que se juntava. Aos poucos, as frágeis barreiras de interação químicas entre os hidrogênios da água não seriam suficientes para dar coesão à poça, que se abriria em veios para escorrer entre os vincos rejuntados do piso até tocar o sapato puído daquele homem discreto. Ele respirava sem movimentos bruscos do diafragma, como se o ar necessitasse de todo o tempo para se renovar dentro de seus pulmões.

A aba do chapéu agora lançava sobre o rosto uma penumbra que lhe cobria os olhos. Era possível vê-lo movimentar o queixo naquele murmúrio, mas não mais a direção que sua vista mirava. Presume-se que a fixava em qualquer movimento lá fora. Nada se via do lado de lá. Ao menos, nada que se pudesse entender por coisa atípica. Não havia nada de especial ali. Exceto as pequenas gotas de água trombando umas às outras em um abraço que lhes dava substância a escorrer pelo forro do guarda-chuva. Talvez fosse melhor que o destino de evaporarem sozinhas ao longo da tarde.

Não havia muito barulho por perto. Talvez alguma televisão ligada ou crianças correndo em algum lugar ou uma música do Lou Reed tocando no rádio. Aquilo era realmente Lou Reed. Provavelmente alguma música de Berlin. Não era nada do Velvet Underground ou mesmo de Transformer. Lou Reed no rádio. Poderia ser um blues ou sertanejo ou funk ou Bach. Mas era Lou Reed. Após uma tarde chuvosa. E aquele homem permanecia estático no lado menos selvagem da cidade.

Não precisava de um nome para ser identificado nem um rosto para ser reconhecido. Não seria necessário. A luz do sol tremulava por entre as minúsculas folhas das sibipirunas sem que houvesse qualquer sinal de arco íris no horizonte. Talvez aquele murmúrio fosse uma prece. Algum tipo de oração ou ritual íntimo proferido em quase absoluto silêncio. Para quem escuta, murmúrios são palavras mortas. O que não se ouve existe em um plano diferente. Íntimo demais para a curiosidade alheia.

Talvez a cabeça já pesasse sobre as mãos. Pareciam fraquejar ante o peso da fronde sobre os punhos enrugados. O piso úmido se combinava com a luminosidade cada vez mais presente naquela saleta abafada. Parecia, de longe, que formava um espelho de água. Por um breve instante aquele homem parecia sorrir por meio da imagem que refletia do chão. Ou, pelo menos, uma leve distorção provocada por sua respiração cada vez mais fraca.

As pontas dos dedos eram amareladas ao chegar. Havia manchas de tabaco consumido ao longo de décadas. As unhas cortadas rentes aos limites das falanges transpareciam higiene e zelo. As pontas amareladas dos dedos estavam agora sem muita cor, meio brancas e mortiças. Não se ouvia mais o farfalhar do tecido com a elevação do tórax. Ele ainda estava sentado, como que atado à cadeira, pendendo de alguma autorização para partir. O guarda chuva estava seco.

Então ele se foi. Em silêncio. Nada que mudasse o arco-íris aberto após a chuva. Era um dia perfeito, como são todos os outros.

 

(Victor Hugo Lopes, jornalista)

 

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