Quando a Enel investirá de verdade na Celg?
Redação DM
Publicado em 26 de dezembro de 2017 às 22:22 | Atualizado há 8 anos
Passado quase um ano desde que a Celg-Distribuição foi privatizada é oportuno efetuarmos algumas reflexões a respeito desse assunto.
Primeiramente é preciso enfatizar que a privatização da maior estatal goiana encerrou um ciclo de quase quarenta anos de dilapidação do patrimônio da empresa. Cabe aqui evidenciar os eventos notáveis que levaram a estatal goiana à lona. São eles: privatização da Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada, superfaturamento dos programas de eletrificação rural e irrigação, terceirizações dos serviços para as empresas dos amigos dos donos do poder (geralmente, financiadores das campanhas políticas), pacotes tecnológicos e serviços focalizados em vultosas consultorias e seus contratos mirabolantes. A somatória desses eventos resultou no brutal empobrecimento patrimonial da estatal, mas, também, de algo que se mostrou fatal para uma empresa como a Celg: a capacidade de financiar a expansão do sistema elétrico. Dito de outro modo: o dinheiro oriundo da venda de energia se tornou insuficiente para ser reinvestido e, assim, atender à = demanda por eletricidade que é sempre crescente. O que fizeram os governos pertencentes a esse ciclo dilapidador? Resposta: recorreram aos bancos e a seus empréstimos com juros lá nas alturas. Bingo! Dessa forma, dilapidaram ainda mais a já combalida capacidade de investimento na expansão do sistema. Por conseguinte, aumentou-se ainda mais o desiquilíbrio econômico-financeiro da empresa comprometendo definitivamente a capacidade dela financiar a sua expansão.
Não teve jeito: a empresa precisou ser privatizada. Virou-se uma página no sentido de se construir uma nova história. A partir daí surgiu um novo ator, senhor absoluto dos destinos celgueanos chamado Enel.
Com o Estado assumindo os esqueletos oriundos de um passado predador, a nova proprietária da Celg-Distribuição foi ágil ao instituir um Programa de Demissão Voluntária, o PDV ao qual aderiram quase mil funcionários. Boa parte desses funcionários com experiência nas mais diferentes áreas da instituição.
O reflexo imediato do PDV influenciou diretamente na redução de custos (pelos meus cálculos cerca de 350 milhões de reais/ano). Mas este é um lado da questão. O outro lado se atrela aos investimentos que a Enel necessita aportar no sistema Celg para que a empresa possa assim recuperar algo de muito precioso que perdeu há décadas ? e volto a enfatizar: a capacidade de investir na expansão do sistema.
Isso posto, é oportuna a seguinte indagação: a nova proprietária da Celg-D tem investido de verdade no sistema Celg ou, tem até agora, apenas se limitado a comprar religadores que só tapam buracos?
As constantes quedas do sistema evidenciam que esses investimentos são insuficientes, pois não refletem na melhora da qualidade de energia fornecida ao mercado goiano. Esperemos que a Enel mostre a mesma agilidade nos investimentos como aquela constatada com a redução da despesa de pessoal.
Por falar em redução de pessoal, vão aqui minhas considerações (minha e de centenas de optantes ao PDV) a respeito das declarações proferidas, dias atrás, pelo novo presidente da Enel, engenheiro Abel Rochinha, a um jornal local. Disse ele: “É interessante, porque tem pessoas que claramente são aquela figura que a gente imagina do funcionário público. Esse pessoal [funcionários que aderiram ao PDV] é o que foi saindo com o Plano de Demissão Voluntária. E o grupo que fica é o pessoal que gosta do que faz.”
Declarações infelizes como essa evidenciam o completo desconhecimento desse executivo com a história da empresa e do estado. Desdenhar de antigos funcionários sem citar os vários governos que dilapidaram a Celg é, no mínimo, um raciocínio simplista. Muitos desses funcionários trabalham em qualquer empresa do setor elétrico ? seja ela pública ou privada. Prova disso é que muitos desses servidores que aderiram ao PDV vêm sendo requisitados, pela própria Enel, para atuarem como consultores dentro da empresa. Portanto, sugiro ao presidente da Celg que abandone um pouco a ponte aérea Rio-Goiânia e passe a conhecer não só a história da Celg, como também a de Goiás e de seus desequilíbrios regionais. Tenha, o senhor, a certeza de que essa realidade está léguas distantes daquela vivida pelo caro engenheiro no Rio de Janeiro. A construção de uma nova história para a Celg requer, antes de tudo, não só uma imersão na cultura da região, bem como respeito pelos inúmeros técnicos que ajudaram a construir uma grande empresa, sim, mas que foi dilapidada, ao longo de décadas, pela orgia dos maus políticos.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético e autor, entre outras obras, de A Energia na Região do Agronegócio)