Quando o demônio é o outro
Redação DM
Publicado em 29 de dezembro de 2017 às 22:43 | Atualizado há 2 anos
O Fundamentalismo é um movimento ultraconservador autoritário, nascido nos Estados Unidos, no início do século XX – confissão protestante em reação ao modernismo teológico e religioso. Radicalizado pela vertente de um olho só, busca manter como absolutos os fundamentos doutrinais confessionais “aos quais se agarra literalmente, excluindo toda interpretação crítica” (LUSTOSA, 1994). Segundo o autor, o liberalismo político e religioso procura “afirmar-se nas expressões ideológicas e regimes de governo” (p. 20) que preservavam a liberdade. Deste modo, o liberalismo ou modernismo teológico passa a firmar no protestantismo dos anos 1900, enquanto linha de reflexão teológica aberta às ciências e ao espírito da modernidade.
À época, o contexto era de crescimento das posições modernas, o conservadorismo passou a considerar o modernismo teológico como uma ameaça à unidade e pureza da fé, atacado como o “inimigo da fé”, acuado em sua validade. O que fez com que o conservadorismo estabelecesse condição para ser ele mesmo o “cristianismo verdadeiro”, a partir da reafirmação da inspiração, isenção de erros e autoridade da letra da Bíblia, interpretada na sua literalidade. A posição conservadora encara a Ciência, permanece no fundamentalismo: “As ciências empíricas e históricas do mundo moderno são reconhecidas pelos fundamentalistas enquanto concordarem com a Bíblia, mas são rejeitadas se questionarem a autoridade intemporal” (MOLTMANN, 1992, p. 142).
O fundamentalista tem gênese em 1870, atado a correntes e movimentos diferentes tais como o evangelismo, o revivalismo, o milenarismo, o tradicionalismo batista, o pentecostalismo dentre outros, e nasce como “uma vertente do movimento conservador, antiliberal, que se formou […] nas principais denominações protestantes norte-americanas”. O objetivo principal era “defender o princípio da inspiração divina plena da Bíblia, portanto, sua inerrância, a autoridade absoluta da letra da Bíblia na vida do cristão” (PIERUCCI, 1991, p. 24). O conceito fundamentalismo foi criado, em 1895, durante a Conferência Bíblica, em Niágara, quando foram fixados os cinco grandes pontos do programa fundamentalista bíblico, que são “a firmeza/certeza verbal da Sagrada Escritura; a divindade de Jesus Cristo; o nascimento virginal de Maria; a teoria substitutiva da redenção; e a ressurreição corpórea de Cristo com seu retorno no fim dos tempos” (SECONDIN, 1992, p. 84). O caráter da oposição milenar estabelece os dois traços que marcaram o fundamentalismo.
Existem duas posturas fortes no fundamentalismo clássico, que são “a tendência à exclusividade e a necessidade de se auto definir em oposição a alguém ou algo” (Enzo Pace, 1990, p. 15); e a necessidade de opor-se a alguém ou a algo. Por isso, diz-se que no fundamentalismo, de fato, tende-se a “demonizar o adversário e a mobilizar as pessoas emotivamente contra alguém”. Portanto, o surgimento do movimento fundamentalista é o resultado de profundas contradições existentes, tanto no âmbito interno do protestantismo, como nas relações entre o contexto social e o universo de representação religiosa. Logo, este quadro de relativismo, de não plausibilidade subjetiva e vida social instável, decorrentes das profundas transformações, é o caldo de cultura que possibilitou o surgimento dos grupos fundamentalistas. Estribando-se de verdades tradicionais do passado, através de uma leitura literal da Bíblia, alguns líderes religiosos, numa relação autoritária com um contigente numeroso de fieis, adentraram num caminho que significa negação daquele referencial mais liberal e, concomitantemente, um reavivamento na vivência religiosa da rede dos fieis eleitos e salvos.
Nas últimas duas décadas, a ressurgência de movimentos fundamentalistas, dentro do protestantismo, denotam nova produção religiosa das sociedades em crise, abaladas por um complexo mal-estar profundo, nas quais as legitimações religiosas já não conseguiam justificar tantos transtornos nem legitimar tantas contradições nas relações econômicas, sociais e políticas. Pode-se afirmar que as mudanças e inovações, bruscas e profundas, geradas pela sociedade, produzem em determinados segmentos da população perdas econômicas e desrespeitam muitos de seus valores e princípios de vida. Desta forma, nas últimas duas décadas, as sociedades ocidentais foram caracterizadas por profundas crises devido à necessidade de novas legitimações, contexto pelo qual pode ser chamado de mundialização.

Com este novo cenário, surgiram instabilidades, desempregos, fuga para a economia informal e insegurança social. Muitos foram excluídos do estrato social estável e jogados nos bolsões das classes populares, passando a conviver no “entre lugar” social. Com isso, ocorreu um enfraquecimento da identidade e dos vínculos de solidariedade, promovendo novas relações sociais, mais superficiais e interesseiras. Diante disso, sobretudo entre os excluídos, aparece a necessidade de refortalecer a identidade por ser esta um alicerce onde se constroem novas relações, firmadas na solidariedade e laços de pertença a uma mesma comunidade ou sociedade. Assim, a produção fundamentalista, acentuando o particularismo, significa uma reação à avalancha imperialista desse sistema que mina o campo da caminhada histórica e destroça a atmosfera dos valores que oxigenam o sentido da vida.
Por isso, diz-se que tudo isso contribui para engrossar o caldo em que se gestam os movimentos fundamentalistas. Deste modo, os estudos mostram que as mudanças rápidas e profundas da sociedade produzem um desencanto generalizado e o vazio de sentido, caminho aberto para o surgimento de novos movimentos religiosos, sobretudo os de cunho fundamentalista. A rede de fieis e o líder fundamentalista são os termos constitutivos da estrutura do fundamentalismo. As relações entre eles são relações de dominação-submissão. Os líderes fundamentalistas não são certamente todos carismáticos, mas prevalece nas relações com a rede de fieis o carismatismo. Na relação com o líder religioso, o fiel assume uma atitude de submissão total ao aceitar seu ensinamento, sensibilizar-se pelo seu apelo, aderir à sua proposta sem questionar palavra, empolgar-se pela prática sugerida em sua mensagem.
Este fundamento estático e cimentado aparece como verdadeiro, porque vem acompanhado de uma justificação divina. O apelo e o apego às verdades do passado e à comprovação delas pelo texto sagrado é que dão legitimidade ao líder. Deste modo, as relações de dominação-submissão, a pretensão exclusivista de sua vontade e de ser o único caminho de salvação, também a convicção de que os demais estão no erro e fazem parte do mundo do demônio, confirmam a hipótese deste estudo. Esta é a estrutura do fundamentalismo: uma gestão autoritária e totalitária do sagrado e do religioso. E, destas relações entre líder e rede de fieis fundamentalistas, podem surgir outros traços característicos que marcam a conduta fundamentalista tais como o fanatismo, o individualismo capitalista, o direitismo político e o sectarismo e, possivelmente o milenarismo. O fundamentalismo é, certamente, milenarista, pois aponta para o fim dos tempos, para o milênio, tal qual consta em alguns textos bíblicos, lidos literalmente.
Sabe-se, portanto, que é o contexto de uma sociedade em crise que gera determinada demanda na população, atendida pelas práticas e discursos fundamentalistas. E, esta é, de fato, a sua razão de ser quando somente são realizados e existem porque há uma demanda e interesses religiosos que possam satisfazer. Em primeiro lugar é procedente a importância que Coleman atribui ao processo de mundialização atual no surgimento e presença dos fundamentalismos. De fato, se observa mais a mundialização nos aspectos econômicos, materiais, tecnológicos. Um pouco menos nos aspectos político e cultural. Diante desse quadro em que o planeta Terra se torna uma aldeia global, enfraquecem-se os vínculos internos de cada povo e as suas identidades. Tudo isso parece ser relativizado diante do avanço da mundialização e desnorteia inúmeras pessoas.
Os diversos povos e religiões não têm construído ainda um universo simbólico que forneça explicação e legitimação convincentes e estáveis em face a esta nova realidade e aos transtornos que ela acarreta na vida das pessoas, grupos sociais e religiosos. Assim, na falta de uma consciência planetária totalizante e convincente, muitos povos ou grupos voltam ao passado para resgatar verdades e valores que possibilitem reafirmar sua identidade. Firmam-se, lançando raízes fortes nas seculares tradições. O chão sociocultural de sua história passada e sua antiga vivência religiosa são, então, relevados como único terreno seguro para progredir na caminhada. Deste modo, diante do processo materialista e tecnológico globalizante, desprovido de um veio sociorreligioso que produza um sentido na mesma altura ou correspondência, correntes fundamentalistas reagem encerrando-se em sua própria cultura e religião, resgatando nelas elementos que aportem segurança e plausibilidade para a vida presente e futura.
Em segundo lugar, pode-se constatar que as duas funções tipificadas por Max Weber, legitimação e compensação, servem de vetores para melhorar as funções sociais do fundamentalismo. Assim, segmentos populacionais, intensamente atingidos pelas crises socioeconômicas, sobretudo os excluídos do mercado de trabalho estável, buscam no fundamentalismo um atendimento compensador às suas necessidades, por isso, encontram no fundamentalismo algum sentido para a vida. Deste modo, observa-se que o cardápio oferecido pelo fundamentalismo causa mais efeitos ao efetivo e ao imaginário irracional do que ética de responsabilidade, quando se deve raciocinar, refletir, decidir e escolher e satisfazer-se com princípios éticos simples e claros, cumprindo apenas normas, numa linha individualista.
Para tanto, toda uma insatisfação popular é canalizada para o espaço religioso, e superada através de uma transfiguração simbólica. Para as contradições sociais não há, no fundamentalismo, uma explicação pela ética racional, sob o enfoque da injustiça e do desrespeito aos direitos e dignidade humana. Não há explicação política, sublinhando os desmandos no uso do poder a serviço de grupos privilegiados. Não ocorre também uma explicação socioeconômica, que explicite o processo de exploração e de exclusão operado pelo sistema capitalista. A atuação do demônio, solto na sociedade, explica e justifica as contradições das mais variadas ordens. Em vez de se buscar a resolução dos problemas, a partir de um engajamento na própria realidade social, o trabalho religioso fundamentalista realiza no espaço sagrado o equacionamento das contradições vividas do dia a dia, preservando e legitimando cada vez mais as estruturas sociais, buscando fortalecer a ideia que sempre o outro é o demônio.
O fundamentalismo não é algo que existe objetivamente. O que há na realidade são pessoas e grupos com tais comportamentos e relações. O fundamentalismo, como toda categoria sociológica de análise, é um conceito nominal que ajuda a agrupar certas experiências de expressão e vivência social de uma fé religiosa. As análises dos diversos teóricos revelam que um movimento fundamentalista nasce no contexto de acentuadas contradições sociais. Esse é o caldo de cultura que torna fértil o terreno para o nascimento e desenvolvimento de tal movimento. Neste contexto de crise, os princípios éticos ficam conturbados por outros valores, novos e diferentes, ao mesmo tempo, sua cosmovisão e universo simbólico não dão conta de explicar tal situação. Não mais conseguem produzir o sentido integral e vivencial, as diversas situações de sua vida. Daí vai surgindo o movimento que opera nova produção religiosa.
Ao destacar sua hipótese, Oro (1996) afirma que “os termos estruturais do movimento fundamentalista são o líder e a rede de fieis”. Para o autor, eles efetuam uma gestão do sagrado/religioso através de uma relação interna autoritária e totalitária, e, nas relações externas, através de um confronto antagônico com o outro, o diferente, erigindo-o à categoria de inimigo objetivo e demonizado. Nessa relação, o apelo a verdades estáticas do texto sagrado antigo, via leitura literal, legitima o líder fundamentalista. Esta nova produção de sentido, fruto da gestão autoritária e totalitária do sagrado/religioso, tem sua razão de ser exatamente porque atende à demanda específica daquelas camadas da população vulneráveis pelas conturbações sociais intensas. Essas demandas geradas pelos enfrentamentos sociais exerce uma função social de legitimação e compensação. A hermenêutica literal de textos bíblicos, a pregação de verdades que dão uma explicação reduzida do mundo e da sociedade, a adesão de normas morais claras numa perspectiva individualista, a edificação de afinidades humanas mais calorosas e comunitárias, junto com a autoridade inquestionável do líder, garantem a segurança e a plausibilidade subjetiva, bem como a aceitação das estruturas sociais vigentes.
Deste modo, esses comportamentos, preenchem o vazio de sentido deixado pela conturbação dos valores e transtornos sociais, reintegrando a vida humana, reforçando as identidades, um conceito para o termo fundamentalismo, que “é um movimento social, religioso, no seio do protestantismo, com gênese num contexto de acentuadas contradições sociais, por conseguinte, de falta de plausibilidade e de relativismo de valores; tem no líder e na rede de fieis seus termos estruturais básicos, cujas relações são de autoritarismo e totalitarismo, predominando a ênfase carismática, e de enérgico antagonismo contra correntes divergentes – inimigo demonizado; e desempenha uma função social de compensação, mediante novos vínculos interpessoais e reforço da identidade, e, ao mesmo tempo, de legitimação de certa ordem social vigente (ORO, 1996, p. 167).
Uma vez apreendido este conceito, entende-se que a generalização do termo, comum na imprensa e também ao senso comum, é, no mínimo, inadequado, quando se analisa, por exemplo, o caso no Islamismo e no Catolicismo. Não é fácil afirmar que neles há o movimento fundamentalista. O Islamismo é uma religião, para a qual o Corão tem mais do que grande importância por ser verdadeiro e único fundamento. É dele que esboçam as dimensões para a vida, tais como a oração e peregrinação, o jejum e crença, a moral e a política. Já no Catolicismo, há vários grupos e movimentos ditos fundamentalistas. Inicia-se desde o movimento liderado pelo monsenhor Lefebvre, passando por Comunhão e Libertação, Opus Dei, Renovação Carismática, chegando até o pontificado de João Paulo II. Neste caso, a maioria dos autores reconhece as posições tradicionalistas e reacionárias, mas rejeita a definição de fundamentalistas. Hans Küng, crítico de João Paulo II, mesmo afirmando a existência de um fundamentalismo romano-católico, prefere a expressão ‘uma variante de fundamentalismo’.
Nesta linha não deixa de ser curioso e contraditório que, enquanto alguém afirma que João Paulo II é fundamentalista, o movimento do monsenhor Lefebvre – mais denominado fundamentalista – rebela-se contra João Paulo II por considerá-lo aberto ao mundo moderno e defensor das orientações do Concílio Vaticano II. Contudo, há várias diferenças quando se compara os fundamentalistas católicos dos fundamentalistas protestantes. No Catolicismo a legitimação de seus líderes não se dá pelo texto sagrado da Bíblia. Isso ocorre apegando-se à tradição não muito antiga onde a autoridade do sagrado não é o texto escrito, mas alguns textos papais e afirmações conciliares isoladas. Portanto, fundamentalismo na mais pura acepção da palavra, aplica-se ao movimento que, dentro do Cristianismo protestante, recebe esse nome. Os fundamentalistas protestantes são os que pautam sua linha de doutrina, prática e militância de acordo com os fundamentais do início do século.
Deste modo, dentre eles, há quem milite mais, outros menos, na política; os que demonizam mais, ou menos, o inimigo; quem viva uma experiência religiosa mais, outros com menor intensidade emocional; quem aguarde mais, outros menos, a vinda de Cristo para inaugurar o milênio. Este conceito nominal de fundamentalismo exige dos movimentos ou grupos parecidos, que nasceram em outras religiões e diferentes realidades socioculturais, satisfazer algumas condições, tais como serem movimentos de religiões de Livro Sagrado, cujos membros acatem o texto como revelado e isento de erro, fazer uma interpretação literal, estabelecer como centro de sua fé e fundamento para todas as dimensões da vida. O resgate e anúncio de verdades aí contidas legitimam o líder fundamentalista e restabelecem aos seus fieis ideias e valores em que possam embasar sua vivência moral.
Também é exigida sua gênese num contexto sociocultural marcado por profundas transformações e contradições sociais, que gerem um quadro de anomia e falta de plausibilidade, possuam como estrutura, na relação líder e fiéis, uma gestão autoritária e totalitária do sagrado/religioso, e que realizem nos participantes uma reintegração das dimensões da vida, a partir do religioso. O fortalecimento das identidades como grupo e como crentes, a criação de novos laços sociais amistosos e fraternos e o estabelecimento de princípios éticos simples, claros, dão base ao cumprimento de normas numa linha individualista. Assim, as insatisfações e frustrações populares são canalizadas para o espaço religioso e superadas pela transfiguração simbólica, caracterizada por um antagonismo forte contra toda corrente ou grupo que tenha uma cosmovisão ou prática diferente a ponto de considerá-lo inimigo, sob o domínio do demônio.
Assim, em nosso tempo, ocorre uma ampliação desse conceito a grupos religiosos que não preenchem tais condições, às vezes, satisfazem parte dos critérios elencados, o que se observa no neofundamentalismo das últimas décadas, que é, portanto, uma ampliação de fundamentalismo por semelhança. Diante disso, pode-se propor para o neofundamentalismo outro conceito: “Neofundamentalismo é a produção religiosa feita por um grupo, no interior de religiões reveladas, que, legitimando-se através de uma leitura literal de verdades contidas no texto sagrado, objetiva reagir contra situações que ameaçam o status quo social, a cultura tradicional e/ou a integridade de sua fé, combatendo internamente os hereges da religião e externamente os novos valores culturais (ORO, 1996, p. 171).
Ao afirmar a existência do neofundamentalismo não se desconsidera a relevância que possuem e o desafio que significam os movimentos não protestantes para suas religiões e a sociedade. Ao contrário, o grande número de movimentos religiosos de matiz sectário, reacionário e religioso-radical deve desafiar profundamente as pessoas que se propõem a elaborar análises sociológicas e as que visam a encontrar respostas religiosas para as pessoas e sociedades do tempo presente. Deste modo, as religiões históricas – que não admitem a modernidade como uma estrutura holística e ideológica – ainda estão longe de oferecer, de modo satisfatório, em face à separação provocada pela modernidade, uma vivência religiosa que propicie integração totalizante.
Por isso, dizemos que o neofundamentalismo é um clamor e protesto contra a secularização e a separação das esferas decretada pela racionalidade técnica, contra as relações sociais demasiado burocráticas e funcionais, a pobreza de experiência espiritual e falta de laços humanos e comunitários intensos, a permanente insegurança e falta de perspectivas de vida. No vazio de sentido, deixado na larga praça do humano pelo processo de mundialização e enfraquecimento das identidades específicas dos povos e sociedades, os fundamentalistas trançam, à sua maneira, a rede de novas relações intersubjetivas, amarradas religiosamente com os nós do afeto e um novo sentido integrador.
Enquanto os sistemas econômicos continuarem excluindo as massas pobres do mercado de bens necessários a uma vida com dignidade, e vários fatores operarem a massificação, consumismo e individualismo, ainda, não houver o devido respeito às diferenças culturais e ao direito de os povos e religiões serem diferentes, enquanto não houver na sociedade atual uma perspectiva concreta de harmonizar racionalmente as forças produtivas materiais e espirituais, enfim, perdurar esse estado de coisas, é facilmente previsível que haverá sempre quem atribua ao demônio as causas e males. Enquanto não houver nas relações societárias um processo de mudanças humano e socializador, urge aprofundar a compreensão do sentido que extravasa a prática religiosa fundamentalista e por que, nela, inevitavelmente e para sempre o outro é o demônio.
E o pulso, ainda pulsa!
(Antônio Lopes, escritor, filósofo, professor universitário, mestre em Serviço Social e doutorando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)