Queixas por barulho quase dobram em distritos com parques e arenas em SP
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 22 de agosto de 2026 às 09:54 | Atualizado há 1 hora
Parque Villa-Lobos, na zona oeste de São Paulo, é uma das áreas onde moradores relatam aumento dos incômodos causados por eventos | Foto: Reprodução
A criação de um bosque urbano nos anos 1990 premiou moradores do bairro residencial City Boaçava. Terrenos alagadiços deram lugar ao parque Villa-Lobos, uma das principais áreas de lazer da zona oeste da cidade de São Paulo.
Morador há 25 anos, o engenheiro Ricardo Bressiani, 67, viu a transformação diante da sua janela. Mas, recentemente, a tranquilidade de uma vizinhança de área verde deu lugar ao som potente dos concertos musicais, aos megafones de animadores de corrida de rua e às marteladas para montagens de palcos no local, intensamente explorado para a realização de eventos.
Em alta em toda a capital paulista, as queixas por ruído enviadas ao Psiu (Programa Silêncio Urbano) cresceram mais nos distritos que possuem as principais arenas e parques onde ocorrem shows ao ar livre.
Embora seja impossível atribuir o fenômeno a um único fator, especialistas e representantes de associações de moradores afirmam que a atual dinâmica de utilização desses espaços é hoje um dos principais motivos de perturbação do sossego.
Na comparação do biênio 2018-2019 (pré-pandemia) com o de 2024-2025 (pós-pandemia), houve aumento de queixas ao Psiu em nove distritos paulistanos que possuem parques ou arenas com grande frequência de locações para eventos. O volume médio desse tipo de ocorrência nesses locais subiu 94%, passando de 3.951 para 7.653.
Sem essas regiões no cálculo, o volume de chamados teve alta de 86%, avançando de 40,2 mil para 74,8 mil, segundo informações do serviço de reclamações 156 da prefeitura, extraídas pela plataforma de tecnologia de dados urbanos OSPA Place e agrupadas pela Folha de S.Paulo. Para a reportagem, foram considerados somente registros que estão atribuídos a algum dos 96 distritos da cidade.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirma que não é correto atribuir os números de reclamações de ruído unicamente ao funcionamento de arenas. A prefeitura também afirma que, nos locais destinados à realização de grandes eventos, o Psiu realiza fiscalizações e que a Guarda Civil Metropolitana realiza patrulhamentos em toda a cidade.
Villa-Lobos registra maior aumento percentual
Alto de Pinheiros, distrito onde fica o Villa-Lobos, apresentou o maior aumento percentual entre as regiões com grandes áreas para eventos. As ocorrências subiram 133% de 82 para 191.
Bressiani é membro da Sociedade Amigos do Bairro City Boaçava, uma das entidades que encabeça ações pela mitigação do incômodo. Medições desses moradores registraram picos de 70 decibéis no interior das residências, superando a variação de 45 a 50 decibéis permitidos das 7h às 22h e os 40 decibéis das 22h às 7h. “O que mais me assusta é a alta frequência dessas atividades, com mais de uma no mesmo dia”, diz.
A Reserva Parques, concessionária do Villa-Lobos, afirmou atuar em conformidade com o contrato de concessão e legislação, com monitoramento contínuo e adoção de medidas para minimizar eventuais impactos.
Pacaembu e Ibirapuera também concentram queixas

Espaços tradicionalmente voltados a receber grandes eventos e com longo histórico de queixas de ruído mostram agravamento da questão. É o caso da Consolação. O distrito na região central abriga o estádio do Pacaembu, cuja vizinhança é composta por uma zona exclusivamente residencial.
Operado por um consórcio privado desde 2020 e com sua reforma principal concluída no início de 2025, o complexo agora batizado Mercado Livre Arena Pacaembu apresentou aumento de 101% no volume de reclamações por barulho.
Fábio Cabral, 46, presidente da associação Viva Pacaembu, atribui os números à conclusão das reformas que criaram na área do estádio, segundo ele, uma dezena de espaços destinados à locação para eventos. “O modelo econômico da concessionária é esse e, por isso, houve esse boom de reclamações”, diz.
Moradora do bairro, a jornalista e colunista do UOL Maria Prata fez no início deste mês um depoimento em suas redes sociais ao tentar colocar suas duas filhas para dormir, às 21h50 de uma quarta-feira, enquanto o som alto de um show entrava pela sua janela. “Que pesadelo”, escreveu.
No domingo seguinte, já depois das 22h, ela voltou a relatar o excesso de ruído. As publicações receberam centenas de comentários de apoio de vizinhos. “Trabalhei com eventos a minha vida inteira, não acho um absurdo que uma cidade ofereça festivais, mas há maneiras e tecnologia para respeitar os limites e os horários estabelecidos por lei”, disse à Folha.
A Mercado Livre Arena Pacaembu não respondeu aos questionamentos enviados por email e por mensagem nesta quinta-feira (20) e sexta-feira (21).
Em número de reclamações, a liderança da cidade é da Vila Mariana. O distrito, que conta com o parque Ibirapuera, registrou 1.725 queixas no biênio após a pandemia, além de apresentar alta de 88%.
O Ibirapuera também é um parque concedido à iniciativa privada e possui intensa agenda de apresentações musicais. A Urbia, concessionária do parque, informou que não comentaria.
Outros distritos com arenas acompanharam a tendência de alta. Cidade Dutra, onde está o autódromo de Interlagos, registrou alta de 114%. Itaquera, que conta com a Neo Química Arena, mostrou crescimento de 107%.
Perdizes, distrito do Nubank Parque, avançou 106%. A Sé acumulou alta de 79%. É nesse distrito central que fica o vale do Anhangabaú. Morumbi, local do estádio Morumbis, registrou variação de 64%. Casa do Memorial da América Latina, a Barra Funda anotou avanço de 48%.
O Corinthians afirmou que os eventos na Neo Química Arena ocorrem com aprovação das autoridades. O Memorial da América Latina disse que cumpre a legislação. Um responsável pelo Nubank Parque comentou que o espaço vem tomando providências para mitigação dos ruídos. Os demais foram procurados por email e mensagens nesta quinta e sexta, mas não responderam.
Ruídos ocasionais são os que mais incomodam moradores
Ranny Michalski, pesquisadora da paisagem sonora e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, diz que o tráfego viário e aéreo são as principais fontes de ruídos urbanos, mas são as atividades ocasionais as principais fontes de estresse para os moradores.
“Incomodam mais os ruídos que fogem da constância, como as obras e as atividades em casas de shows e eventos. Esse incômodo abrange a montagem de palcos, a instalação de gradis metálicos e a dispersão do público em horários de sono”, relata a especialista.
Anhembi registra queda após medidas para reduzir ruídos
Santana, na zona norte, é um raro caso de queda nas notificações ao Psiu. O distrito apresentou redução de 11% nas queixas, apesar da presença de um local com histórico de apresentações musicais.
Uma das explicações para isso pode ser uma série de medidas adotadas no Anhembi, complexo onde está o Sambódromo e que foi concedido em 2021 à multinacional GL Events.
Alteração na posição do palco e modernização do sistema de som, assim como a redução dos shows em áreas externas, foram algumas das medidas que resultaram na diminuição dos transtornos causados à sua vizinhança, segundo o diretor-geral do Distrito Anhembi, Rodolfo Andrade.
Além da retomada de atividades geradoras de barulho após a pandemia, os habitantes da cidade também se tornaram mais sensíveis ao ruído, de acordo com o físico Marcelo Aquilino, pesquisador de conforto ambiental do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo. “A residência passou a acumular funções de escritório, escola, oficina e lazer. Isso expôs deficiências de compartimentação acústica que antes não eram notadas”, diz. (Clayton Castelani/FOLHAPRESS)