Quem abandonou o navio?
Redação DM
Publicado em 14 de dezembro de 2016 às 00:35 | Atualizado há 10 anosAssumo que tive vontade! Mas também posso apostar que em 2016 mais de 90% dos profissionais brasileiros compartilharam essa agonia ao menos um dia que seja.
Na rotina de visitar clientes, conversar com candidatos, parceiros e empresários em geral, a incerteza que nos abalava no início do ano foi tamanha que o pessimismo era notoriamente generalizado. Quem se mantinha empregado, acordava todos os dias pensando se seria o próximo a visitar o RH. Já os que tinham o emprego “garantido”, acumulavam a função do par que fora demitido semanas antes ou descia na operação por falta de braço na equipe.
Mas passado o ápice da tormenta, pergunto-lhes: O que você, executivo ou empreendedor, aprendeu esse ano?
De partida, creio que passamos a respeitar mais o mercado e que, sim, a política tem que fazer parte da nossa rotina. Vínhamos em uma toada de crescimento contínuo, dois dígitos e avante, ignorando cenário internacional, ignorando cadeia produtiva, ignorando liquidez futura, inflando salários, fechando os olhos para índices internos que nos mostravam que em algum momento o Brasil teria que “pagar a conta”.
Pois é, ignoramos inclusive a corrupção e os desvios, pois a economia ia bem e, abraçados à filosofia do “fim justifica os meios”, achávamos que nada poderia mudar o “jeitinho brasileiro”.
2016 me remeteu a uma navegação. Com todo o vento a favor, velocidade alta, mar calmo, tudo às mil maravilhas. Mas ao primeiro sinal de tempestade, o bom marujo já acerta seu plano, suas velas, seus equipamentos e se prepara para o pior. Evitando bater de frente com a intempérie.
Infelizmente o mercado brasileiro não se mostrou um velho lobo dos mares. Não nos preparamos adequadamente e optamos por encarar a tempestade com a cara e a coragem. Afinal, não passaria de uma marolinha. Seria só mais uma crise dentre as tantas que já vivemos.
O lado positivo de todo esse desacerto? Aprendemos que não dá para comandar o navio sozinho. Volto a dizer, temos que respeitar as forças do mercado. Não que não devemos desafiá-lo, mas com muito mais planejamento do que nos acostumamos – e acomodamos.
Resiliência e flexibilidade venceram o Oscar em 2016 na categoria “Competências”. Quem se atreveu a navegar sem elas, arrisco dizer que se afogou.
A cada dia, a cada semana, aprendemos a nos reinventar, a gerir mais de perto o caixa da empresa, a olhar as ações da concorrência, a ficar ao lado dos clientes, a cuidar melhor das relações com os stakeholders. Tenho certeza que estamos mais fortes e preparados para encarar mares revoltos que virão futuramente. Aprendemos a duras penas como atravessar uma das piores crises da história, ainda que a retomada seja mais lenta do que prevíamos.
Aos trancos e barrancos, rumamos para um 2017 um pouco menos turbulento, algumas nuvens já se dissiparam, alguns raios de sol ameaçam a surgir. Minha dica é: prepare-se. O céu pode clarear a qualquer momento e quem estiver com o barco configurado vai liderar a regata. Mas cuidado, trovoadas isoladas podem continuar nos surpreendendo.
(Carlos Guilherme Nosé é, CEO do Fesap Group, consultoria de executive search e de estratégia de capital humano. Representa as marcas Fesa, Asap e Fesa Advisory)