Racismo em mente – II
Redação DM
Publicado em 21 de novembro de 2017 às 23:56 | Atualizado há 9 anos
“Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é avista de um ponto.” (Leonardo Boff)
Certo como a luz do sol que esfria na calada da noite a ardência das iniquidades, é a máxima de que cada tipo de ser (des) humano inserido ou não, na trama geopolítica da inclusão versus exclusão econômica torna-se vítima ou encontra seu grupo de vítimas. Há os obsessivos, que reagem com maior intensidade a “inimigos os quais vêm de fora”, seja na forma política de imigrantes, refugiados ou sob o perfil delineado ao estupro social do sujeito sem face, a partir dos palavrões. Hollywoodiana, a farsa da invasão ao Oriente, detonada no episódio macabro e midiático do World Trade Center, denota ao resto do mundo “capetalista” os forasteiros do século eletrônico, piratas envoltos em bombas a ameaçar certas minorias incrustadas nas zonas intermediárias, de acordo com sociólogos, “entrelugar” de um mundo miserável a abrigar os mais ricos.
Alguém precisa ser culpado e julgado para restaurar a lei. No mundo concreto, desde a era dos errantes que deram origem às tribos, há um grupo passível de culpa, na forma da lei capaz de punir o Oriente a partir da verdade absoluta de um Ocidente atolado em absurdos espelhados na milenar guerra que extravasa ao ódio cultural a delimitar a sombra do muçulmano que não cabe na luz do cristão. Os preconceitos obsessivos delineiam a guerra santa de judeus a homossexuais, afinal, o mundo cinza, pintado no armário da diversidade enrustida, de fora para dentro, precisa da alma, do sangue, das vestes e do corpo de vítimas a humilhar. O genocídio é punição lógica tramada por meios políticos para separar grupos, logística a retratar vítimas apartadas no curral das iniquidades (des) humanas retratadas nas mulheres estupradas engravidadas por homens a espancar homens, castrar, política e localmente a “famiglia” (des) montada em tradição.
Esse grupo fechado amontoa sobre o mesmo teto ódios, amores e iniquidades, apresentado à sociedade hipócrita, hipocondríaca e infeliz como núcleo familiar. Suga a própria sobrevivência na escravidão doméstica de afro-americanos, no fervor anti-imigração histérico de racistas a empunhar a caneta armada a determinar normas humilhantes a vitimados. As Leis de Imigração os atacam em sua saúde, segurança, dignidade, como acontece, nos dias de hoje, na Califórnia, enquanto ideia xenofóbica avalizada e financiada por imigrantes bem-sucedidos como Arnold Schwarzenegger. O ex-governador, ator, fatura bilhões em filmes que espraiam a violência cinematográfica e virtual, as mesmas que copiam o fantasma real da barbárie cotidiana, como no caso de Rodney King, taxista afro-americano espancado pela polícia local, em 1991, na cidade mãe da ficção cinematográfica, Los Angeles-CA. Ainda, o acontecimento histórico-midiático ligado a James Bird, negro de 49 anos, desempregado, arrastado de carro por mais de cinco quilômetros, no Estado do Texas, conhecido terreno fértil da violência racial norte-americano.
Enquanto isso, e na parte de cima do Globo, a Europa espreme gente e culturas no funil da ética apolítica, prática de partidos da direita. Estes os responsáveis, em grande parte, pela violência anti-imigração; as bombas incendiárias (Alemanha); eliminação de grupos em sua organização tribal; a detenção de homens associados a “terroristas” que brotam no quintal da mãe acuada, forçada a abortar filhos paridos na bacia que fomenta a violência narcisista contra toda e quaisquer marcas das diferenças. É preciso apropriar da infâmia, eliminar o gênero, já na sua concepção mais ridícula, ao nível genital, conforme Frantz Fanon (1967). O preconceito obsessivo infere até mesmo nas relações sexuais de um povo poluidor, já a partir do gozo do esperma que traz a palidez e cheiro muçulmanos, judeus e sérvios (Europa-1990) escapados de serem enviados a campos de concentração. As diferenças, a partir da formação física, psíquica e cultural delimitam os melhores educados, quem respira mais e melhor no campo urbano, acumulado a partir do êxodo rural.
A homofobia construída acua e julga adolescentes, homossexuais, estrangeiros, culpados, invejados colocados em seus “devidos lugares”, afinal, o diferente ameaça a estabilidade da “ordem natural” dos gêneros, passando a ser reduzidos violentamente a fim de que sejam “como os normais”. O lodo da providência atola na lama da covardia a previdência, seja por meio da violência psíquica, nas propostas de terapeutas a ensaiar muitas questões, dentre as mais esdrúxulas, a proposta da bancada mais retrógrada no Congresso brasileiro dos últimos 50 anos na forma da ridícula imposição da cura gay. Como se a “pílula miraculosa” fosse capaz de arrancar do armário tantos corpos afeminados escondidos em termos de machos aflitos, que morrem de medo de dormir com suas taras e amanhecerem sujos do gozo curto e malcheiroso de suas pobres verdades.
Em 11 de setembro de 2001, a manchete mundializada do “ato terrorista contra os EUA” deu endosso à “guerra contra terrorismo”, detonada no território Afeganistão. A necessidade de justificativa da trama da conspiração extirpou milhares de vidas civis e cidades afegãs arruinadas, já a partir de interpretações fenomenologicamente complexas, longe da opinião de senso comum que dá conta de que toda e qualquer organização terrorista é um pesadelo obsessivo, parido na parte oriental do planeta que parece pedir e justificar todas as reações obsessivas. Em nome da segurança – contra os que “abrigam terroristas” – a defesa da Constituição amealha-se na boca faminta e assassina do canhão. O drone capitalista movido à covardia ocidental bombardeia os Direitos Humanos de todos, a diversidade psicológica e toda e qualquer possibilidade de uma sociopolítica ligada à paz mundial, mercadoria tornada fetiche e manobra, tanto na arena do diálogo como no campo das iniquidades.
O racismo anuncia os corações impuros, (LENGBEYER), expõe a crença dada a dividir a raça. É quando grita mudo o grupo étnico sua crença, a qual, nunca se manifesta em afeto. A existência balança na corda da não existência, o que resulta em recursos cognitivos empobrecidos pelo racismo com raiz no senso comum, fato decisivo no campo minado dos sistemas de crenças a fomentar a (des) educação a partir da leitura na lousa das iniquidades (des) humanas letras parcas de crenças racistas. Apesar de tudo, e, a pesar de todos, há uma orientação moral, astuta, contra obstáculos do caminho, uma luz no fim do túnel racial a erradicar crenças racistas. Por outro lado, e, na contramão das liberdades, existe, cada vez mais, uma facilidade das crenças em ignorar evidências, perseverar naquelas que almejam o lucro a partir da exploração do fiel, que insiste em usar um cognitivo de ideias já rejeitadas, dar sopro ao subjetivo racista resistente à rejeição.
E o pulso, ainda pulsa!
(Antônio Lopes, escritor, filósofo, professor universitário, mestre em Serviço Social e doutorando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)