República, o exercício da cidadania
Redação DM
Publicado em 13 de novembro de 2016 às 01:26 | Atualizado há 10 anos“Até ontem, a nossa missão era fundar a república; hoje, o nosso supremo dever perante a pátria e o mundo é conservá-la e engrandecê-la”. Marechal Deodoro da Fonseca
No próximo dia 15 de novembro o Brasil comemorará os 117 anos em que foi proclamada a República em nossa nação. Foi em um dia 15 da primavera daquele ano que um grupo de militares e civis decretaram o fim da monarquia no Brasil e a implantação de um governo republicano, democrático e renovável ao final de cada período de mandato. Apesar de ter sido um movimento militar em sua conclusão o processo teve articulação e protagonismo da sociedade civil e nos dois segmentos havia participação efetiva de integrantes da Ordem Maçônica. Esse protagonismo ficou esquecido por muito tempo em virtude da discrição que foi imposta para não provocar maiores reações, principalmente por parte de defensores da restauração da monarquia.
A intenção dos líderes não era retaliar qualquer lembrança da ação da monarquia que desde o descobrimento governava o Brasil, passando pelo Rei Dom João VI e os imperadores Dom Pedro I e seu filho Dom Pedro II. O que se buscava era uma forma de permitir uma maior participação do povo nos destinos e uma reforma no processo político, judiciário, administrativo e social que os novos tempos exigiam.
O advento dessa forma de governo, República, chegou com mais de 60 anos de atraso, porque a intenção de muitos políticos era implantar esse modelo quando da declaração da independência do Brasil frente a Portugal que só não conseguiram naquele tempo em virtude de grandes pressões para manter a monarquia. Após um longo processo de transformações sociais foi possível dar esse importante passo rumo à modernidade político-administrativa e isto ocorreu com a participação efetiva de nossos irmãos nos fatos que conduziram o País a essa revolução.
O sonho republicano foi construído ao longo dessa décadas do Século XIX e os integrantes da nossa sublime ordem sempre estiveram à frente dos debates, das pregações e das propositivas para edificar, tijolo a tijolo, a compreensão de que a República seria um avanço para a democracia brasileira. D documentos do grande oriente do brasil, ainda guardados no Palácio do Lavradio na cidade do rio de janeiro, mostram que debates sobre a forma de governo republicano sempre permearam as discussões entre os maçons durante os anos que transcorreram entre 1822 e 1889. É preciso lembrar que o Brasil era o único império no continente americano porque todas as nações já haviam sido declaradas repúblicas.
Seria temerário afirmar que houve um envolvimento direto da ordem maçônica no processo republicano, porque como instituição foi mantida isenta. Todavia, é inegável a participação direta e intensa de membros da maçonaria em todo o processo durante as décadas que antecederam o 15 de novembro. Um fato em particular é exemplarmente significante para mostrar que o assunto República sempre esteve na ordem do dia das lojas maçônicas: o manifesto de 1870, chamado “Manifesto Maçônico” e com a primeira assinatura aposta pelo grão-mestre Saldanha Marinho, principal redator do documento. Ao mesmo tempo foi fundado o “Clube Republicano”, por Saldanha Marinho e outro maçom ilustre, o jornalista Quintino Bocaiuva, que haviam fundado também no Rio de Janeiro poucos meses antes o jornal “a república”.
Nos anos que antecederam à Proclamação da República o Brasil viveu anos de muita turbulência por variados fatores, a começar da guerra em que nossa gente empreendeu contra o Paraguai. Um movimento muito forte contra a guerra e seus efeitos ganhou expressão nas lojas maçônicas. Em São Paulo e outras cidades proliferavam movimentos favoráveis à República. À frente estavam articulistas, jornalistas, pregadores, oradores de grande expressão, todos maçons como Aristides Lobo, Campos Sales, Prudente de Moraes, José do Patrocínio, Ubaldino Assis e outros, pregando a República e exaltando o povo a integrar a legião republicana. Algumas outras questões serviram para confrontar a monarquia com os ideais de liberdade que a sociedade brasileira tanto ansiava e que estava na pauta primeira das ações da maçonaria. A abolição dos escravos, que foi um momento alto do protagonismo dos maçons, foi uma questão relevante na desconstrução da imagem da monarquia. Aliaram-se a isto a perseguição aos maçons feita pela Igreja Católica, mesmo com inúmeros clérigos pertencendo a nossa ordem. O imperador e os governos parlamentaristas perseguiam de forma implacável militares que discordavam de seus métodos e a esmagadora maioria desses integrantes das forças armadas eram maçons.
Três figuras assumiram o protagonismo no processo final da Proclamação da República: foram os maçons Benjamin Constant Botelho de Magalhães, Quintino Antônio Ferreira de Souza Bocaiúva e Manoel Deodoro da Fonseca. Quintino Bocaiúva era jornalista e foi iniciado na Loja Amizade, em São Paulo, ainda quando era estudante de direito. Polemista emérito, proferia discursos agressivos e lógicos contra a monarquia. Maçom atuante, foi eleito grão mestre do Grande Oriente do Brasil em 1900. Foi o único civil a galopar junto de Benjamin Constant e Deodoro da Fonseca na Praça da Aclamação, hoje Praça da República, nos momentos que antecederam à proclamação.
Outro maçom, que se tornaria presidente depois, Floriano Vieira Peixoto, era encarregado da segurança do ministério do Visconde de Outro Preto, último primeiro-ministro do império. Quando este viu o movimento na Praça da Aclamação determinou a Floriano que fosse combater os revoltosos, no que ouviu como resposta que combatera no Paraguai inimigos, mas que ali diante deles estavam irmãos. Triunfada a Proclamação da República foi formado o ministério com Deodoro da Fonseca na Presidência. Todos, mas todos, sem exceção, os ministros eram maçons:
– Aristides Lobo – ministro do Interior
– Rui Barbosa – Fazenda
– Benjamin Constant – ministro da Guerra
– Eduardo Wandenkolk – ministro da Marinha
– Quintino Bocaiuva – Relações Exteriores
– Demétrio Ribeiro – Agricultura
Há um detalhe que passa despercebido por praticamente todos. As digitais de maçons estão presentes em muitos detalhes da república, mas nenhum é tão marcante quanto o hino da proclamação da república. O estribilho é um ode a um dos princípios da nossa sublime ordem, a liberdade: “liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós. Das lutas à tempestade, dá que ouçamos tua voz”. Mas, a última estrofe desse hino fala da liberdade, da igualdade e da fraternidade:
“Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso país triunfante,
Livre terra de livres irmãos!”
Adolfo Ribeiro Valadares, Grão Mestre da Grande Loja Maçônica do Estado de Goiás – GLEG