Revolução
Redação DM
Publicado em 25 de janeiro de 2016 às 22:45 | Atualizado há 10 anos
Filho de uma empregada doméstica e de um marceneiro, Abidan Henrique da Silva, 17, foi aprovado no curso de Engenharia Civil da USP (Universidade de São Paulo) e da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo). Nesta última, ficou em terceiro lugar no campus de Ilha Solteira.
“O meio em que você vive influencia muito. Mas aprendi que eu posso ir além. Dei a cara a tapa”, diz Silva.
O jovem de Embu das Artes, cidade na região metropolitana de São Paulo, fez todo o ensino fundamental em escola pública. Foi o único da sua turma de cem alunos a conseguir uma bolsa para frequentar um colégio privado em Cotia por meio do programa ‘Ismart’. “Foi um baque no começo porque muitas matérias eu não tinha visto direito”, lembra.
Em dias de prova na escola, Abidan acordava às 3h da manhã para revisar. Saía de casa às 5h30 e demorava duas horas para chegar ao colégio. “Faltei muito à igreja para estudar domingo à noite”, diz.
Sua persistência seria colocada à prova outras vezes. Reprovado em 2012 para uma bolsa em um curso de verão para estudar inglês na prestigiada Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, ele não desistiu. Voltou a estudar até obter a aprovação no terceiro ano do ensino médio em 2014.
“Foram as melhores semanas da minha vida. Foi sensacional o método que o pessoal usava. Conheci verdadeiramente a cultura das pessoas”, conta o rapaz sobre a experiência profissional. Lá no curso em Cambridge, na região metropolitana de Boston (EUA), ele ganhou um preparatório de redação.
No Brasil, voltou a se dedicar integralmente ao vestibular. “A minha estratégia foi fazer provas antigas. Peguei provas da Fuvest desde 2003 e treinei redação até os últimos dias antes do exame. Li bastante questões de atualidades, já que sabia que o segundo dia da segunda fase requeria bastante repertório”, conta.
Tamanha dedicação até incentivou até os pais de Abidan a voltarem aos estudos. A mãe fez o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e conseguiu o certificado de conclusão do ensino básico. Agora ela vai tentar cursar Pedagogia com a ajuda do Prouni (Programa Universidade Para Todos).
Já o pai do jovem se inscreveu no Sisu (Sistema de Seleção Unificada) e está concorrendo a uma vaga de Engenharia Elétrica. Juntos, os dois abriram uma empresa na área de construção e marcenaria.
E a história se repete. O sergipano José Victor Menezes Teles, agora com 15 anos, está entre os aprovados ao curso de medicina da UFS (Universidade Federal de Sergipe). No ano passado, ele conquistou a vaga no mesmo curso, aos 14 anos. O garoto, natural de Itabaiana, diz que resolveu fazer mais uma vez um Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para mostrar que no primeiro sucesso não foi uma questão de sorte.
“O pessoal não disse que foi sorte? Então pensei: vamos ver se essa sorte acontece duas vezes. Ouvia piadas de que passei na sorte. Resolvi fazer e está aí o resultado e com mais intensidade”, comemorou o garoto. No Enem 2015, José Victor obteve 767,74 pontos na média final contra 751,16 do ano passado. Na redação foram 940 pontos, no Enem 2015, contra 960 pontos do ano anterior.
Com esta média final, José Victor obteria vaga nos cursos de medicina nas universidades federais do Ceará, de Goiás, de Viçosa (MG), e da própria UFS, porém descartou a possibilidade de se transferir para uma dessas universidades. “Como disse, só fiz para mostrar que minha aprovação no Enem do ano passado não foi uma questão de sorte. Fiz 16 pontos a mais”, afirmou.
Junto com o resultado da aprovação do Enem 2015, José Victor iniciou na última segunda (18) as aulas do curso de Medicina na UFS. As aulas deveriam ser iniciadas em agosto do ano passado, mas a greve de quase cinco meses dos professores e de servidores técnicos administrativos da Universidade atrasaram o início do ano letivo. Mas isso não tirou a alegria do garoto. “Um desafio na minha vida. A turma é muito jovem e mostra que os jovens vêm conquistando espaço. Isso mostra que não devemos julgar pela idade, mas pela maturidade”, analisou.
Apesar da correria de se deslocar os cerca de 55 quilômetros entre Itabaiana e o Campus da UFS, na cidade de São Cristóvão, José Victor avisa que não deixará de realizar palestras que fez ao longo deste intervalo entre a aprovação no Enem e o início da aulas, como também pretende divulgar o livro lançado no final do ano passado, “Como vencer aos 14”.
Foi com muita emoção que os pais de Samuel Prado Ribeiro, 18, receberam a notícia de que ele havia sido aprovado em medicina na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada).
Janete e Jorge Ribeiro não conseguiram conter as lágrimas de orgulho do filho. Ainda mais por ele ser o primeiro da família a entrar na universidade pública. Sua mãe, diarista, só conseguiu estudar até a 5ª série do ensino fundamental. Já o pai, vendedor gráfico, parou de estudar no ensino médio.
“Quando contei a eles o resultado positivo, foi uma festa. Eles se emocionaram muito”, lembra Samuel, que estudou em escolas públicas. “Minha família sempre me estimulou a estudar. Minha mãe sempre dizia que eu e meu irmão [de 17 anos e que acabou de terminar o ensino médio] tínhamos que continuar estudando para não passar pelo que ela passou.”
O resultado do Sisu foi divulgado e a pontuação do estudante foi de 723,60.
O jovem ainda aguarda confiante as listas de aprovados da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Famema (Faculdade de Medicina de Marília).
“Só de ter passado na UFRGS já é muito gratificante. Ainda mais por ser um curso tão concorrido, um dos mais difíceis. Ter essa sensação de aprovação, de superação dos seus limites, é maravilhoso. Estou muito feliz”, conta.
Até a aprovação foram dois anos de preparação no cursinho popular Cuja-Unifesp*, sendo o primeiro deles cursado junto ao último ano do ensino médio na Etec (Escola Técnica Estadual Abdias do Nascimento), no bairro Paraisópolis, zona sul de São Paulo.
“Não foi fácil conciliar o cursinho com a escola. Ainda mais na Etec, que tem como foco o preparo para o mercado de trabalho. Não que o ensino tenha sido ruim, mas nem todos os professores focavam nos vestibulares”, diz o jovem.
Diante da falta de tempo para se dedicar mais aos estudos, Samuel não conseguiu aprovação após o primeiro ano de cursinho. Decidiu, então, rever os erros e acertos do período e tentou uma nova tática de preparação.
“Em 2014 eu fui reprovado pelas exatas. Então decidi que iria focar meus estudos nelas. Fazia um curso especial só para matemática de manhã e a noite eu ia para o cursinho. Mas claro que não deixava as outras matérias de lado”, explica. “Ia para a biblioteca às 13h e ficava estudando todos os dias até o começo das aulas. Quando eu voltava para casa, procurava descansar bem e no dia seguinte estudava toda a matéria do dia anterior”, acrescenta.
Outra estratégia usada pelo estudante foi dormir. Sim, dormir! Ele percebeu que não descansava o suficiente durante o primeiro ano de estudos. “Achava que estudar exaustivamente iria ajudar-me a passar. No final, não consegui. Por isso mudei no segundo ano.”
Fazer simulados e provas anteriores também foram táticas importantes usadas por Samuel. Ao longo da semana o jovem ainda tinha que bater uma meta de questões resolvidas do Enem. “Eu fiz os últimos oito anos [da prova] da Unifesp”, afirma orgulhoso.
Para se manter na UFRGS, em Porto Alegre, Samuel tentará concorrer aos auxílios oferecidos pela universidade. Enquanto a ajuda não vem, sua família fará uma “vaquinha” entre os parentes para que ele não perca a chance de cursar Medicina.
As histórias falam por si mesmas.
Universidade pública e gratuita é o sonho de milhares de brasileiros, ricos e pobres – mas principalmente de brasileiros pobres, já que a faculdade particular é muito cara e inacessível. 70% da população brasileira pertence à classe pobre.
A luta dos estudantes secundaristas goianos em prol da escola pública, gratuita e de qualidade é justa e pertinente. A pauta de reivindicações se alargou. Hoje o movimento agregou demandas como infraestrutura, qualidade do ensino, humanização das aulas, inclusão de novas matérias na grade curricular, o que demonstra que o movimento de ocupação só cresce, ao contrário do que dizem ou querem alguns.
Desde que começaram as ocupações, em 14/12/2015, os alunos ocupantes tem trocado ideias sobre educação. O resultado dos debates internos foi de um grande avanço intelectual, que está se refletindo em mais adesões pela sociedade local, incluindo pais e alunos e professores.
Os secundaristas almejam competição, inserção e a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Sabem que estão excluídos. Não temem a verdade.
Em Goiás, acontece uma revolução silenciosa. E esta população revolucionária demonstra que não liga para um Estado opressor, despreza a Justiça comprometida e corrupta e desafia a imprensa amordaçada.
Segue em frente. Para fazer história. Para salvar as escolas públicas de Goiás e do Brasil.
(Silvana Marta de Paula Silva – advogada e escritora. Twitter:@silvanamarta15)