Salve a casa do Dragão!
Redação DM
Publicado em 28 de dezembro de 2015 às 23:50 | Atualizado há 11 anosNovamente vem à tona a questão da venda ou arrendamento para a construção de um shopping do patrimônio maior do Atlético Clube Goianiense, que é o seu famoso estádio Antônio Acioli. Se a venda de qualquer patrimônio pessoal requer que se pense mil vezes, imaginem a de um patrimônio público como aquele. Ele de fato pertence à nação rubro negra, local onde se fez história vivida e escrita nos anais do futebol e onde se presenciou grandes glórias do mais querido. Por isso, é de muito bom siso que nada seja feito de afogadilho, se é que há que se fazer alguma coisa.
Na década de noventa uma diretoria um tanto quanto aloprada tentou vendê-lo e só não o fez por interseção de verdadeiros próceres atleticanos, encabeçada pelo grande escritor poeta José Mendonça Teles, rubro negro que tantas vezes cantou em seus verso e prosa os feitos heroicos do nosso dragão campineiro. Naqueles tempos, o glorioso Atlético estava literalmente jogado às cinzas, queimado por administrações esdrúxulas e incompetentes. O Estádio Antônio Acioli, por sua vez, abandonado às traças, suas edificações em ruínas, seu interior sendo tomado pelo mato e tornando-se esconderijo de animais peçonhentos, marginais e drogados. Era doloroso passar ali e ver o depauperado estado em que ficara o estádio.
Mas como a força do Dragão é constituída pelo amor de renomados e verdadeiros rubro-negros, estes não permitiram que sua chama se extinguisse de vez. Os versos do poeta, com efeito, sopraram as brasas em estertores, que reviveram entre as cinzas e o dragão reviveu. No início acordou sonolento, cambaleante, as chamas enfraquecidas, ficando na segunda divisão do campeonato goiano por um bom tempo. Com uma administração equilibrada e profícua, o então presidente Wilson Carlos e seus colaboradores puseram as contas em dia. Restavam agora soerguer o dragão nos gramados, colocando-o de pé, pois como um deus grego deve ser imortal.
Não só ficou de pé como voou, galgando os píncaros da glória. O Dragão campineiro como ressurgiu das cinzas como Fênix e como Hermes tornou-se veloz por ter asas nos pés. Assim a locomotiva sagrou-se várias vezes campeã goiana em pouco tempo, bem como, em ascensão meteórica, chegou à série A do campeonato brasileiro, ali em grande destaque permanecendo por duas belas temporadas. Revigorou-se em si a grandeza e a sua “mania de dar alegria aos nossos corações”.
Foi uma fase de ouro, que infelizmente não durou muito tempo. Em que pese suas boas administrações e o amor pelo clube, o senhor Valdivino José de Oliveira aos poucos viu o barco ruir, a decadência tornar-se um fantasma e os recursos, em face deste declínio, se esvaírem. Mas, mesmo se arrastando, a atual diretoria consegue mantê-lo às duras penas na série B do brasileiro. Nas últimas duas edições, com grande apreensão e sofrimento dos torcedores, só se garantiu nas últimas rodadas.
Eis que agora, com a crise financeira e a dificuldade de lidar com as exigências do Profut que se quite as dívidas com o governo, novamente ressurge a ideia da venda do seu mais importante patrimônio, o que convenhamos deve novamente ter o mesmo repúdio que da vez anterior. Proposta mais engenhosa é, sem dúvida, a do atual diretor de Patrimônio Alcides Rodrigues, que é a de reconstruir o estádio, modernizando-o e fazendo em sua volta, sob toda a extensão das arquibancadas, lojas comerciais que viessem a ser alugadas, o que resultaria em uma boa renda mensal aos cofres do clube. Por outro lado, com o estádio devidamente reestruturado, tornar-se-ia um verdadeiro caldeirão, onde não faltariam o tradicional apoio dos campineiros e toda massa atleticana, aumentando consideravelmente o público e consequentemente as arrecadações.
Desta feita, é importante que se ponha a bola no chão, qualquer atitude deve ser amplamente discutida. E o mais importante: que se dê voz aos torcedores, verdadeiros donos do nosso glorioso Atlético Clube Goianiense, sempre “o mais querido” entre todos. Há de se pensar que esta experiência de venda de patrimônio já se deu em outros times, o que definitivamente não resolveu os problemas, levando-os ao ostracismo, ao fundo do negro abismo, muitos hoje extintos do futebol brasileiro. Patrimônio não se vende, apenas arregimenta-se e se agrega, ainda mais quando o seu verdadeiro dono é o povo.
Eia, abnegados, acordem! Não permitam que o clube às cinzas retorne, pois o Dragão é ser mitológico e como tal não sucumbirá aos tempos. Aos que, de visão embaciada pelo imediatismo, engendram a sua derrocada, vos digo: “Respeitem as cores, vagabundos!”
(Joaquim de Azevedo Machado, professor e escritor – [email protected] /(62) 3205-4606)