Santa Cruz de Goiás: Incríveis histórias de uma cidade secular
Redação DM
Publicado em 29 de dezembro de 2016 às 01:31 | Atualizado há 10 anosQuando eu sabia pouco ou quase nada sobre a importância de Santa Cruz dentro do contexto histórico/cultural do Estado e País; quando me faltava a consciência do que a população de Santa Cruz fazia que era muito mais do que, apenas, viver dentro de uma teia cultural e histórica. Quando eu acreditava que um sorriso era sinônimo de amizade. Quando eu repetia que era necessário “resgatar a nossa cultura, nossas tradições” pelo efeito impactante que causava, primeiramente, em mim e muito mais em quem me ouvia falar. Soava como algo extraordinário! Tempos depois, ao escarafunchar os recônditos em busca de informações sobre Santa Cruz, percebi que (Santa Cruz) sempre manteve “resgatada” a sua cultura. Percebi que faltavam políticas públicas que as sustentassem. Fala-se, atualmente, em criar comissão para que as pessoas sejam valorizadas. Criar casa de cultura (nova) para homenagear esse(a) e/ou aquele(a), sendo que a Casa de Câmara e Cadeia (casa de cultura), existente, desde 1880, está caindo. Há uma fase de muitos sonhos que nos impelem a abraçar as falsas intenções disfarçadas de sorrisos. A cultura e os festejos de Santa Cruz possuem características peculiares ligadas aos costumes religiosos, culinários e cotidianos cheios de encanto e diversidade.
Nas viagens que realizo tive e tenho o privilégio e a sorte de encontrar (ou reencontrar) pessoas que conhecem a grandiosidade de Santa Cruz. Desbravam suas exuberantes paisagens culturais por intermédio de sites e/ou redes sociais, cuja ferramenta, alguém me criticou de usar. Várias mensagens (assédio moral) recebidas, dizendo o seguinte: – “você trata Santa Cruz pelo whatsapp e isso é falta de respeito”. ”Voce quer chamar a atenção só para você”. “Voce quer crescer sozinha”. “Voce tem que criar nova comissão para que possamos apresentar nossa cultura à fulana de tal, só assim vamos crescer”. “Voce nunca fez nada porque não tem nada registrado na comissão estadual”; e, por aí vai. Como se o desenvolvimento cultural de Santa Cruz dependesse, exclusivamente, dessa ação. Conversava muito com o presidente de honra da referida Associação; dizia-me que conhece muito sobre Santa Cruz e parte desse conhecimento está dentro de sua casa que é também a sede. Há uma passagem deste presidente de honra junto a Regina Lacerda em Santa Cruz, época da encenação da cavalhada, quando recebeu a argolinha das mãos de mestre Alberto/ AZ de Ouro. Tantas e tantas informações sobre a cultura de Santa Cruz há dentro daquela sede. O estranho é querer “resgatar” a memória ou as memórias dos mestres do corpo, do sagrado, do som, das mãos, da oralidade de Santa Cruz, afirmando que o que Fátima fez e faz é somente para ela. As difamações não procedem, posto que, as Memórias estão vivas e perpetuam na música por intermédio das alvoradas; dos componentes, antigos e atuais, da Banda de Musica” Lira Oito de Dezembro”, corporação oriunda das primeiras práticas musicais do estado de Goiás realizadas em Santa Cruz. Perpetua na iniciativa de um jovem, músico, que ensina violão, grátis. Quer como pagamento, que o aprendiz toque violão e acompanhe a folia, quando aprender. (isso é continuidade); perpetua nas cantigas de rodas e outras brincadeiras de crianças, sempre relembradas, (re) vividas e divulgadas; motivo para deslocamento de Gabriela Romeu, do projeto Infâncias, Folhinha de São Paulo. Veio conhecer de perto e certificar o que é divulgado sobre o assunto pela Associação dos Amigos de Santa Cruz e Pontinho de Leitura. Gabriela Romeu ficou uma semana em Santa Cruz e Rio do Peixe. Relembramos as brincadeiras de infância; aliás, observamos como as crianças, de hoje, brincam e muitas dessas brincadeiras estão ligadas às práticas dos mais velhos. Descobrimos um fogãozinho caipira construído no quintal de Conceição e Samuel.
Perpetuam nas folias( Reis e do Divino) que trazem no cerne a presença espiritual de foliões/foliãs e/ou pessoas que acompanhavam as folias; recebiam em suas casas e hoje estão de volta à casa do Pai. Perpetuam na congada. Sempre balbuciam o desejo de “resgatar” essa Manifestação cultural. Cornélio, já falecido, morava no lixão e sonhava retomar a congada de Santa Cruz; dizia: – “Fatima que seja “resgatada” a congada…, dentro da Irmandade, cujo Estatuto você disse que encontrou jogado no meio de uns papéis que uma senhora ia descartar no lixo. Quero dançar pela devoção, única e exclusiva, a Nossa Senhora do Rosário; nunca vou dançar pra políticos.” [sic]. Perpetuam na quadrilha junina e quadrilha do beco. As modinhas são (re)vividas quando realizamos serenatas . Perpetua na culinária ao vislumbrarmos o fabrico de doces de frutas da estação, sendo o de casca de laranja, tradicional na festa do Divino. Junto a outros tantos que traz à tona as memórias de familiares. Ah, o licor, a rapadura, o melado, o mel! Iguarias, tais como, jacuba; feijão sabaru; paçoca. Buscamos (re) conhecer “misturas”, usadas, antigamente, na alimentação: quebra-tigela; taioba; serralha, cambuquira e outras com suas propriedades peculiares. Estamos identificando e às vezes realizando o plantio de algumas preciosidades. Perpetua na linguagem quando ouvimos ou proferimos expressões populares. Algumas registradas no livreto “Vocabulário de Palavras e Expressões de Santa Cruz de Goiás”. Nas parlendas e trava línguas. Perpetua no trato com as doenças ao fazermos emplastos com folha de pimenta, folha de erva Santa-Maria; emplasto com farinha de mandioca. Ao espremermos a folha de hortelã menta, bálsamo e outras plantas medicinais e pingar nos ouvidos para aliviar a dor. A medicina popular perpassa as promessas ou permutas com Deus quando algo desanda e sai do controle. Garrafadas e o poder das benzeções, principalmente, a realizada com patuá do século XVIII, fazem parte do cotidiano no município etc. Perpetua na religiosidade quando homenageamos a(o) santa(o) de nossa devoção ou nossa(o)padroeira(o).Terços, novenas; leilões; procissões com seus cantos, responsórios, ladainhas; cores de cada festa; dons; condução dos estandartes, bandeiras, andores; ornamentação dos Impérios; coroação de Nossa Senhora ( desde o sec. XVIII); foguetórios; missas solenes.
Crendices e superstições: Pragas lendárias, tais como aquela que diz que a lagoa destruirá Santa Cruz: Serão sete léguas de inundação, em 2017; envenenamento de um padre que rogou praga afirmando que Santa Cruz iria para frente igual correia no fogo, por quatro gerações; lenda da tapera do Anhanguera; lenda da mulher acorrentada; lenda dos corpos enterrados debaixo das casas dos coronéis; lenda da procissão dos ossos humanos… Perpetuam nas habilidades manuais, tais como, a fiação, trançados e muito mais. (Em janeiro serão identificados artesãos e artesãs para o cadastro no Programa do Artesanato Goiano). Resgatamos e cultivamos plantas usadas, antigamente, como fragrância do sabão caseiro; além de cheirar bem, age como clareador de roupas.
Perpetuam nas habilidades artísticas por intermédio da contradança com seu mestre Jaime (In Memoriam), também contador de causos. Homenageada duas vezes. Outras danças (Bem-Te-Vi, Beija-Flor, Engenho de Maromba; Oi de Casa…). Mestre Alberto dizia se tratar das danças dos pagodes: Danças utilizadas, como um dos motivos, para padre Gouveia, 1816, solicitar à Coroa e a Santa Sé a introdução das cavalhadas (maior teatro equestre a céu aberto) nos festejos do Divino Espirito Santo, em Santa Cruz. Perpetua na poesia; na contação de causos e estórias.
Mestre Alberto foi reconhecido pelo Conselho Estadual de Cultura como Patrimônio e Memória do Estado de Goiás; recebeu do Mistério da Cultura, a Comenda: “Cavaleiro”. Os herdeiros receberam seu prêmio (em dinheiro).
A Folia de Reis de Rio do Peixe foi homenageada pelo CEC. Todo esse Reconhecimento foi graças ao trabalho desenvolvido em prol da cultura de Santa Cruz. Não devemos desmerecer trabalho de ninguém, seja ator, sujeito ou agente cultural.
O falecido, ex-prefeito, Joaquim Rodrigues Alves falou de uma comissão de folclore existente em Santa Cruz. Ele cita em seu livro “Síntese Histórica” e em outras matérias, dentre elas, uma homenagem à Lourdinha, por ocasião de seu falecimento. A referida comissão era autônoma, livre; foi citado apenas o presidente. Não podemos acusa-lo de nada ter feito. Este sim parou de trabalhar, mas deixou o seu legado. Quanto à Fatima, esta viva e não há por que dizerem que vão continuar de onde ela parou. Ainda atua. De acordo com o exposto sugiro aos difamantes que mudem as perguntas. Ao invés de perguntarem se conhecem algum trabalho que Fatima realizou, perguntem sobre quem e o que a pessoa traz na memória; que narre aquilo que viu, viveu tempos atrás e que ainda acontece em Santa Cruz, ou não. Perceberão que nada há a resgatar a não ser identificar as potencialidades e fragilidades e o modo de conduzir aquilo que compõem a nossa Identidade. A responsabilidade não é só do poder público.
A inspiração de Santa Cruz está fundamentada na necessidade de analisar quão rica e diversa são as manifestações produzidas por seu povo. Ah, se o coreto da praça fosse redondo e mais baixo, seria palco de retretas; rodas de conversa e happy hour nos finais de tarde.
(Aparecida Teixeira de Fátima Paraguassú, historiadora, musicista, membro do IHGG, secretária da Associação dos Amigos de Santa Cruz e titular do Colegiado Nacional de Culturas Populares do Conselho Nacional de Política Cultural)