Seguir melhor
Redação DM
Publicado em 10 de agosto de 2016 às 02:38 | Atualizado há 10 anosEu comprava, ou pedia ou ganhava material de construção e mandava colocá-los no meu terreno, onde pretendia construir uma casa grande para colocar crianças em condição de vulnerabilidade.
Os pedreiros me contavam e eu conferia. De fato estavam levando meus materiais. Mas continuei. Fiz questão de esquecer o problema já que não tinha solução.
Ia repondo o que sumia. Em torno do meu terreno, outras casas iam sendo erigidas e a nossa região prosperando.
Depois de três anos o projeto da casa hospitaleira era plena realidade, e nós realizando a tarefa de atender os pequenos.
Eram agora os novos tempos. Tudo alegria e progresso, graças às realizações de sonhos e esperanças.
Muitas crianças sendo amparadas, educadas e profissionalizadas.
Quase cinquenta anos depois, tive um sonho maravilhoso…
Um senhor idoso tranquilo e sereno veio me visitar e me convidou para dar um passeio com ele. E fomos andar pela rua abaixo. Entramos numa casinha simples de gente simples. Foi quando ele contou:
– Lembra-se de mim?
– Sim, claro!
– Pois é. Eu vivi feliz o resto da minha vida física, aqui, nesta casinha, com esposa, um cachorro “Ogro” (nome dele) e uma gatinha, da Benedita…
E continuava sua narrativa:
– Meus vizinhos abaixo vieram me pedir lhes fizesse um favor… Que eu o trouxesse às residências deles, nesta região onde estamos, e lhe contassem a verdade: nós todos, naquele tempo, fomos quem tiramos seus materiais de construção, para fazermos nossas humildes moradias. Você era um rapazinho esforçado e tinha facilidade de conseguir todo material que precisava; então, nós tiramos de quem podia dar…
No que ri gostosamente por ouvir aquela revelação, ele concluiu:
– Não ficaríamos, eu e meus vizinhos, de consciência em paz, se não lhe confessássemos a verdade.
– Que bom. Não me fez falta. Vocês tiravam, Deus repunha.
– Através do seu trabalho. Receba, portanto, nossa gratidão. Disse o visitante. Mas saiba que, quando você se sentia cansado e sozinho e entrava numa dessas casinhas para pedir uma água ou conversar enquanto se descontraía, sua presença era como a de um parente muito querido, e nos sentíamos felizes e orgulhosos com sua visita, embora breve.
– Não imaginava fosse assim. Pensava estar incomodando. Exclamei!
– Não. Ao contrário. A gente era feliz e tínhamos toda a segurança só de você morar perto de nós. Obrigado, outra vez.
Saímos lá fora. A noite vista do lado de lá era linda. As portas das casinhas iam se abrindo e pessoas nelas surgindo abanando a mão, felizes, como se, pela rua passasse uma figura “importante”. Mas não. Era só eu.
Nada é crime se não existe má intenção.
Com um sorriso tudo segue melhor.
(Iron Junqueira, escritor)