Brasil

Sem saída

Redação DM

Publicado em 10 de fevereiro de 2016 às 21:52 | Atualizado há 10 anos

Antero andava encabulado. Metera-se numa difícil enrascada. Casado, pai de dois filhos, e adorava sua esposa Esmeralda.

Ambrósio, seu amigo confiável, notara que o colega passava de fato por momento complicado, sobre o qual não falava a ninguém. Então, foi abordá-lo:

– Qual é Antero! Parece-me que você passa por uma temporada em dificuldade. Conte lá do que se trata.

– É, tem razão. Preciso, realmente, de um desabafo.

E contou-lhe que em razão de sua leviandade, terminou por se enrascar em situação difícil; às ocultas convivia com Elsa num apartamento seu no lado sul da cidade, sem que sua esposa soubesse. Era uma convivência até antiga. Não tinha filho com essa amante nem sua consorte sabia do seu apartamento, onde se encontrava com a segunda mulher.

– Porém, o problema agravou-se depois que conheci a Ritinha. Muito alegre, vivaz, linda e, das três, a mais jovem.

– E você conciliava as três?

– É… Foi uma grande falta de vigilância minha, um descuido, uma burrada… Um dia levei-a ao meu apartamento da parte Sul da cidade e com ela passei o dia mais feliz de minha vida…

– Que descuido… Exclamou Ambrósio.

– Pois é… Só que Ritinha, na sua inexperiência de juventude, também ficou hipnotizada por aquele momento de aventura indescritível e, agora, não me deixa mais. O pior é que o tempo passa e ela fica no meu coração e nas minhas lembranças. Não sei como desgarrar-me dela…

Cada qual na sua casa com os pais e Esmeralda, a esposa, comigo e meus filhos. Somente Elsa sabia do meu Ap. Mas quando levei Ritinha no meu Ap Sul é que senti a extensão da tolice que cometi.

Eu tinha que conciliar minha vida com três mulheres: a esposa e duas amantes. Com jeito, esforço e muita mentira, fui levando a novela nas rédeas de um controle difícil.

Um dia Ritinha descobre tudo a respeito de Elsa. Foi quando ambas se encontraram na porta do meu Ap. e Ritinha trocou conversa com Elsa, a partir de simples indagação sobre a bolsa que ambas usavam: eram iguais.

– Onde a senhora comprou sua linda bolsa? Tenho uma idêntica. Teria indagado Ritinha, ao que Elsa explicou:

– Não sei querida. Eu a ganhei…

E essa conversa se estendeu e por conta de coincidências, casualidades e afins, as duas terminaram por se descobrirem e estava armada a confusão.

Passado alguns dias, encontrei com uma depois com a outra, em aparentes conversações normais, sem que elas tocassem no assunto.

Certa tarde abraço Esmeralda, dava-lhe a minha costumeira desculpa e ia para o meu encontro furtivo com Elsa, no apartamento Sul.

Lá eu chego, abro a porta e entro. Ligo o televisor, coloco na taça um vinho e fico tranquilo, à espera de Elsa como havia combinado. Em seguida ela chega toda linda, perfumada, alta e bem vistosa. Sorri-me, abraça-me e senta ao meu lado. Estávamos nesse enlevo quando batem à porta. Preocupo-me! Meu coração dispara. “Quem poderá ser?” Exclamei em pensamento. Fui abrir a porta, porém, Elsa tomou a frente e ouvi-a dizendo:

– Olá Ritinha! Entre, querida.

E as duas pararam diante de mim. Ritinha linda com sua graça e beleza juvenil. Um pouco tíbio, gaguejante, indaguei:

– Vocês se conhecem?

– Sim. Responderam juntas, quase no mesmo tom.

– O que veio fazer aqui, Ritinha?

– O mesmo que Elsa.

– Elsa, explique o que está havendo. Falei.

– Ritinha veio lhe dizer uma coisa e eu, outra.

v Tudo bem. Disse Antero. Então, o faça logo.

Elsa então retornou a palavra e disse:

– Pode falar primeiro, Ritinha.

E a mocinha pequena, cheia de vida, falou:

– Eu vim dizer-lhe Antero que pretendo me casar com você.

– Mas sou casado! Exclamou o homem, um tanto nervoso.

– Mas eu quero! Retrucou Ritinha.

– E você Elsa, o que quer me dizer?

– Eu quero morar com você.

– Mas vocês duas não podem fazer isto comigo! Disse Antero.

– Mas não é isso que você fez conosco? Não apenas com nós duas, aqui, mas também com sua esposa Esmeralda.

O descuidado namorador pegou o paletó, jogou-o no ombro e saiu.

Estava agora diante do amigo Ambrósio, contando-lhe o mistério da encrenca em que havia se metido.

– E agora, Antero? Foi a pergunta do amigo.

– Agora a única solução é mudar-me da cidade. Ir para longe! Deixar também a família.

– Mas você não pode deixar Esmeralda e seus filhos.

– Não tem outro jeito. Você, Ambrósio, entregará, mensalmente, a mesada à Esmeralda e meus filhos, mas jamais falará sobre mim. Nem você saberá onde estarei. No entanto, receberá a mesada de minha família.

– Mas você não pode fazer isso!

– Estou, literalmente, Sem Saída.

– Não irá se encrencar por lá novamente, com outras?

– Já estou bastante sofrido com tanta responsabilidade e tanta asneira cometida.

– É… Disse o amigo Ambrósio. De fato: “quem tudo quer tudo perde”… Você entrou num beco Sem Saída.

 

(Iron Junqueira é escritor)

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