Brasil

Severino Trovoada

Redação DM

Publicado em 6 de outubro de 2015 às 22:50 | Atualizado há 11 anos

Era um cidadão muito convencionalista; preocupava-se excessivamente com as opiniões da sociedade e dava um tom muito rígido na sua vida e na dos seus familiares.

Um dia, lamentavelmente, seu filho moço incorreu numa falta e, diante da situação, foi impotente para perdoá-lo. A esposa, chorando, implorou-lhe:

– Severino, tire seu filho da cadeia, por favor!

– Nunca! Prefiro vê-lo morto que vê-lo na minha frente!

O homem era duro demais para com todos. Implacável nas decisões. Certamente, como é fácil de perceber em pessoas assim, severo demais para com o próximo e muito complacente para consigo mesmo.

Mas, graças a favores alheios, aquela mulher tirou o filho da cadeia. Só que não podia aconselhá-lo necessariamente, pois o pai não mais o aceitava em casa. Em certa noite, quando vinha da Faculdade onde estudava, sofreu um acidente com sua moto e veio a falecer, na hora.

Foi um golpe demasiadamente duro para Severino. No entanto, sua esposa não deixou por menos, e disse-lhe:

– Você se lembra, Sevé, do que disse?

Enquanto ele a escutava, em silêncio, pensativo, apoiando o queixo com o indicador, a mulher completou:

– Você disse: “Prefiro vê-lo morto do que tê-lo, vivo, à minha frente?” Pois olhe aí! Olhe à sua frente! Seu filho é um cadáver!

Tempo passou: o coração do homem, porém, não asserenou-se ainda.

Mariana, uma de suas duas filhas moças, disse-lhe certa tarde:

– Papai, pretendo apresentar-lhe meu namorado. Posso?

— Pois não minha filha… Terei prazer em conhecê-lo…

— Mas papai… Só que ele é espírita…

O homem empinou-se. Como um raio, levantou-se da poltrona onde descansava e vociferou, vermelho de cólera:

– Nunca! Nunca! Se ele vier aqui juro que o mato!

A mocinha não contrariou o pai. Mas… oh, que coisa! Como os desígnios de Deus são complexos! Alguns dias após esse incidente, Mariana foi levada ao médico porque sentia ininterruptas dores na cabeça. Os resultados de exames acusaram câncer no cérebro; mais alguns meses e Mariana morria…

– Deus não existe! Bradava o rebelde Severino. Tudo de ruim ele me reservou!

Assim blasfemava sem, contudo, avaliar sua teimosia e recalcitrância.

Pouco mais de um ano depois da morte da filha, um médico, amigo da família, foi incumbido de dar-lhe uma notícia a respeito de sua filha mais moça:

– Severino, tudo bem? Estou aqui em nome de sua filha, a Lucinha.

E ele, recordando uma contrariedade que lhe proporcionou referida filha, respondeu ao visitante:

– Há muito tempo, doutor Marcos, eu tive uma filha com esse nome. Mas ela já morreu…

– Não, Severino, ele está bem viva e você sabe disso. Trabalha na Repartição Pública que você sabe e está bem. É em nome dela que venho…

–  A que fim, dr. Marcos?

– Dizer-lhe que o senhor é avô de um lindo garoto.

Enquanto a esposa exultava, Severino, endurecido, não concordava com o fato de a filha ter um filho sem ter um marido. Resmungou como era de se esperar. Blasfemou, esbravejou e, mais uma vez, cuspiu contra Deus.

Seu caminhão estava carregado de frutas que devia vender no Centro-Oeste, e apodreciam na carroceria, mas Severino estava impossibilitado de viajar porque sua perna esquerda estava “esquecida”, quieta, não lhe atendia a vontade. Doutor Marcos foi chamado e, depois de examiná-lo atentamente, disse-lhe:

– Severino, hospital! Você sofreu um derrame e não sabe disso!

Quem já pôde avaliar o temperamento do homem, imaginou logo sua reação: destrambelhou a língua e amaldiçoou tudo e todos! Nem Cristo ficou isento das suas chispas de ódio!

A esposa nem dizia til. Sabia o que poderia padecer se abrisse a boca. Mas o dr. Marcos foi claro mais uma vez:

– A continuar com essas explosões, você terminará sozinho nesse leito de paralítico…

Mas Severino confiava no espírito bom da esposa. Só não esperava que um dia ela pudesse morrer o que não demorou a suceder, acometida que fora de enfarte violento…

E então, Severino?

Quando a filha Lucinha pode, vai à casa do pai dar-lhe uma ajuda, cuidando da sua higiene, da sua comidinha, de seus remédios, levando consigo, o netinho de Severino, bulhento garoto de dois anos, mas um inquieto berrador que o avô escuta silencioso e resignado, em razão da justificativa que a filha já lhe dera:

– Sei que o senhor não gosta do Marquinho, pai, mas não tenho onde deixá-lo pra vir aqui. Levo-o até pra Repartição, onde trabalho. E será assim até que ele cresça. Não há outro recurso…

Severino, calado, apenas esboçava amarelo sorriso. Descobriu afinal que seu tempo de exigir já passou…

Assim es la vida.

Quem espalha gritos, colhe trovoadas.

Há antigo provérbio nem sei de quem: “Trate bem aos outros quando estiver subindo, a fim de que eles não lhe tratem mal, quando estiver descendo…”

Verdade dose, hein? Verdade barra.

 

(Iron Junqueira, escritor)

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