“Só pensa naquilo?”
Redação DM
Publicado em 15 de outubro de 2015 às 00:50 | Atualizado há 11 anosNão adianta ficar me criticando, fazendo gracinhas e repetindo o jargão: “Só pensa naquilo.” Só penso e sempre pensei, desde moleque e, agora, velho, logo cedinho, bem cedinho mesmo, a primeira coisa que faço é escovar os dentes e lavar a cara e, às vezes, olho no espelho para ver o que sempre vi, e até já me cansei, enfim, não importa, depois de despachar a Sophia para a escola, volto e tomo um banho bem quente, queimando a minha pele e, como costumo brincar, respondendo aos que me indagam por que o exagero na temperatura da água, respondo: treinando-me para uma eventual estadia no purgatório ou no inferno, desejo ardoroso dos inimigos, sei lá, Deus é que me julgue e, por favor Senhor, utilize da Sua Santíssima máxima misericórdia como tem feito, claro, salvando as proporções, o misericordioso leitor que suportou estas tergiversações até agora e, certamente, espero, haverá de endossar, assinar em baixo, sem aquela sensação de ter perdido tempo, como parece ocorrer com a maioria dos textos apresentados pela banda podre da imprensa, aquela que se prostitui com o governo, então, certamente, como afirmei outrora, apenas creio, endossará, até com prazer, a afirmação de que a água é o bem mais valioso e mais desperdiçado do planeta, passando a ser, concomitantemente, o âmago das questões geopolíticas internacionais da atualidade e dos próximos anos.
Já repeti aqui, inúmeras vezes, que na primeira série que escrevi, quando passei a colaborar semanalmente com este matutino vanguardista, em dezembro de 2010, intitulada “A Água”, afirmei o seguinte: “Ao contrário do que você aprendeu na escola a água não é incolor, insípida e nem inodora.” Na série, de nove capítulos, insisti que houvesse uma vigilância maior, por parte dos órgãos governamentais, com relação às especulações que houveram, principalmente devido às explosões solares previstas e ocorridas em 2012 e 2013, que provocaram esta hedionda escassez do bem e até brinquei, recentemente, dizendo que os diretores das estatais de tratamento e distribuição de água não têm tempo de ler sobre “profecias Maias”, aliás, nem mesmo de lerem os inúmeros best-sellers que tratavam do assunto, porque vivem atravessando, pra lá e pra cá, oceanos e continentes, em seus jatinhos supersônicos, comendo caviar e outras coisinhas mais, porquanto levam as suas assessoras. Deixei explícito em vários artigos, nos anos subsequentes e neste que se finda, o quanto estamos perdendo exportando água na, digamos, “fórmula” de grãos e carne, sim, porque, para engordar, matar, limpar, esquartejar e embalar uma galinha ou uma vaca é preciso gastar milhares e milhares de litros de água. A água, como insumo, não é levada em consideração, tanto que muitos leitores e amigos gostaram quando afirmei que depois do meio do século passado, quando a privada, ou o vaso sanitário, tornou-se comum nas casas dos seres humanos, enfim, quando deixamos de agachar e passamos a sentar para cagar, pensando que somos deuses, reis ou sei lá o quê, com um simples puxamento duma cordinha ou o aperto dum botão, podemos ver os nossos dejetos, ou melhor, nossos cocos, outrora abrigados em nosso interior, centrifugando numa água límpida que salvaria a vida de meia dúzia de pessoas que morreram de sede na face da Terra. Num outro artigo sobre a água eu finalizei assim:
O melhor elogio que recebi depois de mais de três décadas de ostracismo foi esperando um farol “abrir” na Avenida Assis Chateaubriand, na Praça Tamandaré, quando ouvi um senhor, nonagenário, muito conhecido no setor, gritando o meu nome. Quando viu que eu o havia visto bradou: “Senhor Gonçalves Dias, depois que li seu artigo sobre a água e a privada a minha cagada nunca mais foi a mesma.” Até.
(Henrique G. Dias é jornalista)